Hekara estava me esperando no Passeio Transguildas.
Parei por um segundo ou dois para absorvê-la. Sei que soa ridículo, mas ela era minha melhor parceira, minha heroína, meu modelo. Ela tinha sinos no cabelo, e eu usava sinos pendurados nos meus ombros — nos ombros em vez do cabelo porque eu não queria que fosse óbvio demais que eu estava copiando totalmente o visual dela, o estilo dela, sua~Hekarice.
Mas eu estava sendo boba, então chamei e ela se virou, abrindo aquele seu sorrisão enquanto gritava meu nome: "Rat! Vem cá, docinho, e me dá um beijo."
Ela fala assim o tempo todo.
Eu lhe dei um abraço. Ela é muito mais alta do que eu, e me girou como se fôssemos acrobatas em um dos cortejos de sangue de sua guilda. Exceto que estávamos no chão, não em uma corda bamba, e não havia lâminas ou sangue real envolvidos.
Desta vez.
"Diz o que está rolando, a fofoca louca completa", disse ela.
"Claro, claro", eu disse, tagarelando rápido, como costumo fazer perto dela (ou, sabe, sempre que abro minha boca grande). "Segui o Mestre Zarek até Nivix, como você queria. Não sei por que ele vive te dando o cano o tempo todo—"
"Não é? Por que alguém iria querer me dar o cano?"
"É meio inconcebível. Mas se isso me dá a chance de te ajudar ficando de olho nele, você sabe que fico feliz em ser útil."
"Você é a minha Rat."
"Sou a sua Rat."
"Massa. Com quem ele falou?" Minha garota Hekara era emissária do demônio Rakdos e fora incumbida por seu mestre de vigiar o Mestre Zarek da Liga Izzet. Mas o dito cujo vivia mandando-a embora, que era onde eu entrava, sabe? Hekara tinha me encarregado de seguir o Mestre Zarek quando ela não podia. Seguir alguém sem ser notada é uma das minhas habilidades particulares, minha melhor habilidade. E, como eu disse, eu amava ser útil para minha melhor parceira.
"He shut himself away with his boss."
"Ele se trancou com o chefe dele."
"Niv-Mizzet?"
"Aham."
"Trancou?"
"Em um laboratório. Um laboratório grande. Mas eram só os dois lá dentro sozinhos. Eu tinha me esgueirado para dentro de Nivix, mas não consegui entrar no laboratório antes da porta fechar. E achei que, se tentasse abri-la, eles poderiam notar."
"Sério?"
"Era uma porta muito grande e não estava bem lubrificada."
"Ah."
"Então eu segui pelos dutos de ar~"
"Você é a minha Rat."
"Sou a sua Rat. Enfim, perdi a maior parte da ação. Houve algum tipo de~explosão? Quando cheguei a um duto que dava para o laboratório, quase tudo o que eu conseguia ver era fumaça. O ventilador do duto tinha ligado — automaticamente, eu acho — e estava sugando a fumaça direto para dentro. Eu estava tossindo tanto que tive medo de que eles me ouvissem."
Ela balançou o dedo para mim. "Não, você não teve."
"Não, não tive. O problema é que eu também não conseguia ouvi-los. Tinha muitos ventiladores soprando, muito barulho. O Mestre Niv-Mizzet não parecia feliz, porém. Eles estavam ambos encarando uma máquina grande, que foi aparentemente o que explodiu. Não tenho ideia do que ela deveria fazer, mas claramente não funcionou. Estava carbonizada, fumegando. Até pegando fogo em alguns lugares, embora nem o Mestre Niv-Mizzet nem o Mestre Zarek tenham feito nada contra as chamas. Ouvi talvez uma frase. Algo sobre um farol ser a única chance deles agora."
"Isso faz sentido. Se é que algo faz."
"Se você diz."
"O que mais, parceira?"
"Não muito. O Mestre Niv-Mizzet saiu voando. O Mestre Zarek abriu a porta do laboratório e um bando de goblins entrou correndo para apagar o fogo. Eles foram muito eficientes."
"Goblins Izzet têm muita prática em apagar incêndios. Quase tanto quanto têm em causá-los."
"O Mestre Zarek chamou um goblin de canto e disse para ele mandar mensageiros para a Senhora Kaya, a Senhora Vraska, a Senhorita Lavínia, o Senhor Vrona e você. Achei melhor dar o fora de lá e te avisar para que você soubesse o que estava rolando antes de atender ao chamado dele."
Como se combinado, um goblin apareceu correndo. Ignorando-me, ele curvou-se diante de Hekara e entregou-lhe um pedaço de pergaminho. Ela deu um tapinha na cabeça do goblin e deixou cair uma lâmina de barbear em sua palma aberta como gorjeta. Ele encarou a coisa, olhou para o sorriso perigoso de Hekara e então recuou lentamente. Quando estava a uns um metro e meio de distância, virou-se e saiu em disparada.
Hekara desdobrou o pergaminho e assentiu. Os sinos em seu cabelo tilintaram suavemente. "Você estava certa", disse ela. "É hora do agora ou nunca. Meu parceiro Ral precisa que esta que vos fala ative o Farol-Zão para convocar as super-tropas para lutar contra o dragão malvado."
"O Mestre Niv-Mizzet é malvado?"
"Não. Outro dragão."
"O que eu posso fazer?"
Ela olhou para mim e acariciou meu cabelo. Acho que se eu tivesse uma irmã mais velha, ela seria como a Hekara. Mas eu não precisava de uma irmã mais velha porque eu tinha a Hekara. Ela disse: "Bem, eu estarei com o velho Ralzinho pessoalmente, então você pode tirar a noite de folga. Vamos nos encontrar de volta aqui, oh~um pouco antes do amanhecer. Se eu não aparecer, é porque ainda estou com ele, e você pode tirar o dia inteiro de folga."
"Tem certeza?"
"Claro, tenho certeza. Não preciso que você siga o cara se eu estiver com ele."
"Tudo bem~"
Acho que ela deve ter sentido que eu estava relutante em deixá-la. Ela ergueu meu queixo e disse: "Ei, você é a minha Rat. Não minha mariposa. Sei que sou a luz mais brilhante do Multiverso, mas não precisa ficar sobrevoando. Já sou bem grandinha. Sei cuidar de mim."
"Eu sei disso", eu disse, talvez um pouco ressentida. Um pouco.
Ela teve pena de mim então. Me abraçou e me girou de novo. Já sou meio velha para essa brincadeira, mas, honestamente, ainda adoro. Ela me pôs no chão e beijou minha testa.
"Tenho que ir, docinho."
"Tchau, Hekara."
"Tchau, Araithia." Achei estranho que ela usou meu nome completo. Ela quase nunca me chama de Araithia. Mas deixei para lá. Observei-a atravessar o passeio. Então virei para ir embora. Eu não comia fazia tempo e estava com fome.
Fui a um mercado Selesnyano, que estava fechando — ou talvez se preparando para abrir. Roubei uma ameixa madura. Pode ser que eu também tenha batido a carteira de um ministrante Orzhov, que estava cobrando uma dívida do fruteiro. Eu não precisava das moedas, mas eram polidas e brilhantes, e eu gosto de coisas brilhantes.
O que posso dizer? Eu sou a Rat.
Quase fui ver os Rakdos apresentarem seu Jubileu Flamejante, mas senti que seria como se eu estivesse traindo a Hekara, o que é loucura. Talvez eu só não estivesse no clima.
Então vaguei, matando o tempo. Pensei em ir para casa, nas terras Gruul, talvez passar algum tempo com meus pais. Mas não fui. Sentia-me inquieta. Eles ficariam me abraçando e me abraçando, e o pensamento disso me dava, hum, qual é a palavra~claustrofobia, é. Eu queria ficar ao ar livre.
Ideia brilhante, pois logo começou a chover. Não que eu me importe tanto com a chuva. Me abriguei em um portal, observando o escasso tráfego noturno de Ravnica passar por mim. Todos tinham lugares para ir, ou assim parecia.
Finalmente, horas depois, senti o gosto da aurora no ar, então corri de volta ao Passeio Transguildas para encontrar a Hekara. Ela não estava lá. Esperei, mas ela não veio. Ela ainda estava com o Mestre Zarek, é claro, e não precisaria de mim. Eu sabia que podia ir embora, mas me demorei sem nenhum motivo especial, conforme o sol começava a nascer~
E conforme um garoto coberto de areia se materializou bem na minha frente.
O garoto — que parecia ter uns dezoito anos — estava de mãos e joelhos, tossindo areia. Passou um braço cheio de areia pelos olhos em uma tentativa fútil de limpar a visão, depois olhou para o céu com uma expressão confusa e talvez de súplica. Fiquei observando-o porque ele parecia meio patético. Fiquei imaginando de onde ele tinha teletransportado que tinha tanta areia assim.
Then, still spitting up sand, he lowered his head and looked in my general direction. I kept watching him, while absently picking a small blood-red berry off my belt and popping it in my mouth.
Falei que estava com fome, né?
Ele estava sangrando um pouco de um ferimento na testa e, enquanto eu mordia e sentia o gosto do suco vermelho-sangue da fruta, o sangue vermelho-sangue dele escorria para sua própria boca para se misturar com toda aquela areia. Ele cuspiu de novo, lutou contra um acesso de tosse e — ainda de mãos e joelhos — pediu ajuda.
Surpresa, apontei para mim mesma e disse: "Eu?"
Ele assentiu desesperadamente e tossiu um: "Por favor~"
Imediatamente, saltei do parapeito e corri para o lado dele, dizendo: "Quase ninguém me nota. Sou tão insignificante." Ajudei-o a ficar de pé e comecei a escovar a areia de sua túnica.
Ele murmurou um obrigado e perguntou: "Onde estou?"
"Passeio Transguildas", eu disse, dando de ombros.
"O quê?"
"Você está no Passeio Transguildas. E vai ter carroças de thrulls passando por aqui a qualquer segundo em ambas as direções. Então, a menos que queira ser esmagado por elas, melhor nos movermos."
Deixei-o me puxar. Esfregando a mão furiosamente para frente e para trás sobre o couro cabeludo, ele tentou — e falhou — tirar a areia do cabelo enquanto caminhávamos pela ponte.
Eu estava bem animada por conhecer alguém novo e, como de costume, comecei a tagarelar no meu ritmo padrão de mil por hora: "Não fomos devidamente apresentados. Sou a Rat. Quer dizer, Rat não é meu nome de verdade, é claro. É mais um apelido. As pessoas me chamam assim. Bem, não muitas pessoas. Mas você entendeu. Meu nome real — ou, sabe, o nome que me deram — é Araithia. Araithia Shokta. So Rat is shorter, easier to say. Você pode me chamar de Rat. Não me ofendo nem um pouco com o nome. A verdade é que é meio perfeito para mim. Mais perfeito que Araithia, eu acho. Embora eu ache Araithia mais bonito, sabe? Minha mãe ainda me chama de Araithia. Meu pai também. Mas são praticamente os únicos. Bem, tem um centauro que eu conheço, mas ele é meio que meu padrinho, então é a mesma ideia. Pais ficam presos nos nomes que eles escolhem. Mas estou bem com Rat. Então pode ir em frente e me chamar de Rat, ok?"
"I—"
"No momento sou Sem-guilda, caso você esteja se perguntando, mas nasci nos Clãs Gruul, então meus pais querem que eu me junte oficialmente ao clã deles, exceto que eu não acho que sou brava o suficiente, sabe? Além disso, tenho bons amigos nos Rakdos e Selesnya — sim, sim, eles não podiam ser mais diferentes, mas em alguns dias sinto que me encaixo bem em um, e no dia seguinte, no outro. Enfim, esses são os meus três grandes: Gruul, Rakdos, Selesnya. Com certeza vou me juntar a um desses. Provavelmente. Você está em alguma guilda? Não reconheço a roupa."
"Eu—"
"Oh, e qual é o seu nome? Isso deveria vir primeiro, eu acho. Não falo com muita gente nova, então posso não acertar a ordem das coisas. Sempre tenho tantas perguntas, mas geralmente tenho que descobrir as respostas por conta própria, sabe?"
"Eu—"
"Isso foi retórico. Acabamos de nos conhecer. Não espero que você saiba como eu levo a vida instantaneamente. Além disso, estamos tendo uma conversa aqui. Não tem pressa. Chegaremos em todas as coisas importantes eventualmente, certo? Como está sua cabeça? É um corte bem feio. Não acho que vai precisar de pontos, mas deveríamos realmente limpá-lo, tirar a areia e colocar um curativo ou talvez encontrar um curandeiro que possa lançar um feitiço de mending. Posso te levar em algum lugar onde eles façam isso por você, mas até um pouquinho de magia de cura pode ficar meio caro. Ainda assim, é um corte tão pequeno que eles podem fazer de graça, se você pedir com jeitinho. Ou se você for tímido demais para pedir ajuda a uma estranha — você me parece tímido, mas não quero presumir muito já que acabamos de nos conhecer — eu mesma posso te remendar. Quer dizer, acho que também sou uma estranha. Mas sinto que estamos criando um vínculo. De qualquer forma, sou uma médica razoável. Tive que aprender a fazer isso por conta própria ao longo dos anos. Não que minha mãe não fizesse por mim, mas ela é uma guerreira Gruul. Nem sempre está disponível. Além disso, eu nunca me machuquei tão sério assim, sabe? Cortes e arranhões. Sou relativamente baixa, e as pessoas maiores estão sempre esbarrando em mim se eu não tomar cuidado. Ravnica é um lugar movimentado, entende."
"Eu—"
"Eu não tenho nenhuma magia de cura, veja bem, e não acho que tenha nada que possa usar como bandagem, mas consigo roubar algo fácil. Ou talvez você não queira uma bandagem roubada. Esqueço que nem todo mundo aceita bem o fato de eu ser ladra. Os Detentores Azorius não aprovariam, com certeza. Hum, você não é Azorius, é?"
"Eu—"
"Nah, olha para você. Não pode ser Azorius. Chuto que você é—"
De repente, ele se colocou no meu caminho e agarrou meus braços, gritando: "Escute!" Acho que ele meio que se assustou por gritar, pareceu imediatamente arrependido, assustado até — como se eu fosse me vingar ou algo assim por ter levado um grito.
Puxa, ele não me conhece mesmo, né?
Sorri para ele para mostrar que eu não era tão frágil e disse: "Falo demais, não falo? Passo muito tempo sozinha, e falo muito comigo mesma. Estou sempre me dizendo isso. Aí me junto com outras pessoas, e você pensaria que eu aprenderia a ouvir mais. Quero aprender a ouvir mais. Então, sim, vou te ouvir, uh~você sabe, ainda não me disse o seu nome. Comece por aí, e prometo que vou ouvir."
"Teyo", ele respondeu, com a voz subindo no final, como se ele estivesse perguntando para mim se tinha acertado o próprio nome.
Tentando ser prestativa, repeti para ele: "Teyo. É um nome bonito. Você está em alguma guilda, Teyo? Você está ferido e fora de si. Tem algum lugar para onde eu deva te levar? Alguém a quem eu deva te levar?"
"Não estou em nenhuma guilda. Sou um acólito da Ordem dos Magos de Escudo."
"Hã. Nunca ouvi falar."
"Você nunca ouviu falar da Ordem? Como isso é possível? O que vocês fazem durante uma tempestade de diamantes?"
Teyo, o Mago de Escudo | Arte de: Magali Villeneuve
"Nunca ouvi falar de tempestade de diamantes também, mas soa bonito. Brilhante. Eu gosto de coisas brilhantes. É meio imaturo, mas fazer o quê. Se vejo algo brilhante, eu pego. Mencionei que sou ladra, né?"
Ele soltou meus braços e cambaleou até o parapeito de pedra da ponte para olhar para o rio passando embaixo. Seus olhos se arregalaram e suas mãos agarraram o parapeito com força, deixando os nós dos dedos brancos. Ele murmurou: "Ela nunca enfrentou uma tempestade de diamantes? Nunca ouviu falar da Ordem? Isso não faz sentido nenhum. A Ordem Monástica dos Magos de Escudo é famosa por toda Gobakhan. O povo depende dela."
Juntando-me a ele no parapeito, sorri e dei de ombros, esforçando-se para falar em um ritmo mais moderado: "Eu também nunca ouvi falar de 'Gobakhan'."
Ele bateu com a mão no parapeito e pisou forte no chão. "Isto é Gobakhan! Nosso mundo é Gobakhan! Você está pisando em Gobakhan!"
Passei meu braço pelo dele e o impulsionei para frente. "Teyo, isto~" Sem diminuir o passo, dei um pulinho nas pedras do calçamento, fazendo meus sinos de ombro tilintarem suavemente. "~é Ravnica. Este mundo é Ravnica. Teyo, tenho a sensação de que você não está mais em Gobakhan. Chuto que você é um 'walker."
"Estamos andando. Eu estou andando. É claro que sou um walker."
"Não esse tipo de walker. Não sei muito sobre isso. Só coisas que ouvi o Mestre Zarek e a Senhora Vraska discutindo quando não sabiam que eu estava por perto. Quer dizer, a Hekara me pediu para seguir o Mestre Zarek, então era quase uma missão, uma tarefa, certo? Ela queria saber onde eles iam quando iam a lugars sem ela. Isso é quase uma citação, aliás. Ela fala assim, a Hekara. Enfim, eu devia segui-los, mas também ouvi uns papos. Provavelmente não deveria admitir isso, mas sou uma bisbilhoteira crônica. Realmente não consigo evitar."
"Juro pela Tempestade, não sei do que você está falando."
"Ok. Sim. Eu entendo. Quer dizer, eu eu vi você se materializar todo coberto de areia lá atrás, então eu provavelmente deveria ter adivinhado. Mas a mente da gente sempre vai na explicação mais simples primeiro, sabe? Achei que você soubesse como teletransportar de um lugar para outro. Você sabe como teletransportar de um lugar para outro?"
"Não!"
"Exatamente. Então o que você consegue fazer, se entendi bem, é teletransportar de mundo para mundo, de plano para plano."
"Prometo que também não sei fazer isso!"
"Acho que talvez a primeira vez seja tipo um acidente ou, não, hum, quero dizer sem querer. Tipo uma coisa de fuga involuntária. Tipo para salvar sua vida talvez? Sua vida estava em perigo, talvez?"
Ele ficou me encarando de olhos arregalados. Mais arregalados do que quando olhou para o rio, de qualquer jeito. "Como—como você soube disso?"
"Ah, é, não. Não soube. Mas acho que essas podem ser as regras. Além disso, sou muito intuitiva, e você estava realmente coberto de areia. Enterrado vivo, talvez?"
He assentiu e depois disse: "Então não estou em Gobakhan?"
"Ravnica."
"Ravnica." O sotaque dele, que eu não tinha notado muito antes, pareceu sutilmente mais estrangeiro ao dizer a palavra.
Já sabendo a resposta, perguntei: "E você não — não poderia — conhecer ninguém aqui, certo?"
"Só você, suponho."
Dei um aperto no braço dele. "Então estou oficialmente te adotando. Até você estar pronto para partir, você e eu somos família. Não se preocupe; vou cuidar bem de você. Sou ótima nisso. Tive que aprender a cuidar de mim, sabe?"
"Aham." Ele respondeu, embora não necessariamente ao que eu estava dizendo.
"Então vamos pensar no que você precisa saber para viver em Ravnica." Olhei para ele enquanto caminhávamos. Ele olhava para a cidade, para todos os prédios e ruas e os transeuntes (que não notavam nem a ele nem a mim), e seu olhar arregalado ficava cada vez mais arregalado. Comecei a me preocupar que os olhos dele simplesmente saltassem da cabeça, então decidi que ele precisava comer essa refeição em pedaços menores. "Ok, aqui está o que você precisa saber: Ravnica é uma cidade só. E muita gente vive aqui. Muita gente mesmo. A maioria humanos, eu acho, como você e eu. Mas tem um monte de elfos e minotauros e ciclopes e centauros e goblins e anjos e vedalken e viashinos e gigantes e dragões e demônios e, bem, praticamente qualquer coisa que você imaginar. A Senhora Vraska é uma górgona. Só vi três dessas, mas acho que são muito, muito bonitas, sabe?"
"Eu—acho que nunca vi uma górgona."
"São impressionantes. Pode confiar em mim quanto a isso. Enfim, não sei quem manda nas coisas em Gobakhan~"
"O Abade Barrez? Ou não. Ele só comanda o monastério."
"Então você é tipo um monge? Achei que todos os monges tinham que raspar a cabeça."
"Ainda não sou monge. Sou um acólito. E raspar a cabeça não é uma regra. Pelo menos acho que não é." Ele jogou as mãos para cima. "No momento, não tenho certeza de nada!"
"Calma. É para isso que estou te contando as coisas. Então o abade comanda Gobakhan. Mas aqui em Ravnica são as guildas. Existem dez guildas e, entre elas, elas comandam tudo."
"Tinha guildas em Oásis. É uma cidade grande em Gobakhan." Ele parou e olhou ao redor. "Suponho que Oásis não seja tão grande."
"Mas é grande o suficiente para ter guildas?"
"Sim. Tinha a Guilda dos Carpinteiros. E a Guilda dos Cavalariços. Mas não acho que eles comandavam nada. Acho que eles só se reuniam para beber cerveja e reclamar. Pelo menos essa foi a minha impressão. Só fiquei em Oásis por alguns dias."
"Bem, nossas guildas são meio que um negócio mais sério. Embora eu tenha certeza de que eles bebem cerveja e reclamam tanto quanto qualquer outra coisa. Sei que meu pai bebe cerveja e reclama muito, e ele é um guerreiro importante nos Clãs Gruul."
"Então você está nessa guilda Gruul?"
"Já te falei. Sou Sem-guilda. Isso significa que ainda não me comprometi com nenhuma guilda. Gruul, Rakdos, Selesnya. Estão todos meio que me cortejando. Estou em alta demanda." Eu ri. Ele não entendeu a piada. "Estou brincando. Não estou em alta demanda."
"Tudo bem. Se você diz."
"Você é um doce."
"Eu sou?"
"Acho que sim. Já gosto de você. Fico feliz por ter te adotado."
"Eu—" Ele riu. Ou acho que foi uma risada. Foi meio difícil de dizer. "Acho que também fico feliz por isso."
Ele estava me olhando de um jeito que me fez sentir~bem, não sei como me fez sentir.
É isso que chamam de constrangimento?
Desviei o olhar e disse Para com isso para mim mesma.
Or did I say it out loud? Please, tell me I didn't say it out loud!
Ele respirou fundo e perguntou: "O que mais eu preciso saber?"
"Oh, hum~deixe-me ver. As guildas estão sempre brigando umas com as outras. Parece idiotice para mim. Sinto que todos deveriam ser capazes de se dar bem, já que são todos tão diferentes. O que importa para eles mal se sobrepõe. Mas eles acham que ser diferente significa que precisam se picar e tal. Então, se as coisas começam a sair de controle, o conflito deve ser resolvido por um cara chamado Senhor Jace Beleren. Ele é chamado de Pacto das Guildas Vivo, o que significa que o que ele diz, tá falado. Sabe, magicamente. O problema é que ele está desaparecido faz meses e meses. Acho que ele é como você. Viajando de mundo para mundo. Só que de propósito, talvez. Enfim, com ele fora — as coisas ficaram instáveis, sabe? As guildas todas tentaram se unir para parar algum tipo de dragão malvado, que supostamente está a caminho. Mas a Senhora Vraska — ela é a mestre de guilda dos Golgari — assassinou a Senhora Isperia, a mestre de guilda dos Azorius."
"Espera, ela matou ela?"
"Aham. E agora as guildas todas se odeiam. Ou, sabe, não confiam mais umas nas outras."
"E o dragão malvado?"
"Sei lá. Acho que ele ainda está a caminho."
Dobramos uma esquina e eu parei no lugar. Tínhamos meandrado até a Praça do Décimo Distrito, e me vi encarando um obelisco alto no centro da praça, encimado pela estátua de um dragão. Um dragão malvado, se eu tivesse que chutar.
Mal tive tempo de registrar o obelisco novinho em folha no centro da praça quando meus olhos focaram na pirâmide enorme na outra extremidade. Em algum momento — algum momento muito recente — ela surgira do solo, deslocando prédios e jardins e o que quer que estivesse lá antes. A coisa toda me pareceu tão avassaladora que eu mal conseguia lembrar o que havia naquele lugar apenas no dia anterior.
Aquelas coisas tinham sido tão insignificantes?
A ironia de alguém como eu esquecer não passou despercebida, sabe?
"Aquele é o dragão malvado?" Teyo perguntou nervoso.
A princípio achei que ele estivesse falando da estátua no topo do obelisco. Mas seus olhos também estavam focados na pirâmide. Com certeza, no topo dela estava outra estátua de dragão — exceto que esta estátua subitamente virou a cabeça para olhar em nossa direção geral. Eu estava bem confiante de que não estava olhando para mim, o que me levou a crer que Teyo poderia estar certo ao dizer: "Parece que ele está olhando direto para mim."
Mas eu disse: "Isso não parece provável." Ou, pelo menos, comecei a dizer. Mas a última metade da minha frase foi obliterada por um estrondo sônico alto e uma lufada de ar seco do deserto vinda de trás de nós que literalmente derrubou Teyo e a mim.
Eu me levantei primeiro. Ele continuou de mãos e joelhos, tremendo e murmurando: "Acorda, acorda, acorda~"
Virei-me para olhar enquanto o som de alvenaria desmoronando ecoava pela praça. Um portal gigantesco — de uns cinquenta metros de altura, fácil — abrira-se atrás de nós, dizimando instantaneamente a Embaixada do Pacto das Guildas, cortando-a bem ao meio. Luz violeta suave jorrava do portal. Quase pareceu calmante — sabe, exceto pela destruição que o rasgo no espaço causara e ainda estava causando. Uma ogra cambaleou para frente antes de colapsar; um quarto inteiro do corpo dela tinha sido evaporado pela chegada do portal. A fachada desmoronando da embaixada caiu, esmagando mais dois transeuntes por baixo.
Era um show de horrores. E não do tipo divertido dos Rakdos.
Olhei para trás, por cima do ombro, em direção ao dragão. Estávamos longe demais para eu ver a expressão no rosto dele, mas sou um pouquinho psíquica, e o regozijo mental dele irradiava em ondas. O regozijo dele e o nome dele.
Uma mulher de cabelos cor de corvo em um elegante vestido preto subiu cautelosamente sobre alguns destroços. Ela alcançou o topo de uma balaustrada caída, endireitou o corpo e fez uma pausa.
Teyo murmurou: "Algo está emergindo daquela geometria~". Levei um momento para perceber que ele se referia ao rasgo circular no espaço. Olhei para lá.
Um exército. Um exército estava marchando através do portal. Eles brilhavam em um azul metálico sob o sol da manhã. Achei que pareciam bonitos. Mas não sou totalmente idiota. Um exército marchando sobre Ravnica não é coisa boa — não importa o quão brilhante seja.
A mulher de cabelos negros levou algum outro troço brilhante ao rosto. Quando as mãos dela se afastaram, pude ver que era um véu metálico de elos de corrente de ouro polido que também reluzia à luz do sol. Sua pele exposta começou a brilhar com linhas roxas, gravuras, tipo tatuagens. Achei ter ouvido ela gritar. Mas não tive certeza se ela estava gritando em voz alta ou apenas em sua mente.
Ou apenas meus medos, sabe, projetados?
Conforme os braços nus dela brilhavam mais intensamente, o exército metálico também começou a brilhar. Mesmo desta distância, eu conseguia ver os olhos deles ficarem roxos para combinar com a cor das tatuagens da Senhorita Cabelos-de-Corvo. De qualquer forma, o exército parou como um só e virou-se para olhar para ela antes de, com um aceno claro de braço, ela ordenar que suas forças brilhantes se virassem e marchassem em direção a todos, em direção a todas as pessoas que ainda se recuperavam da destruição do portal, e todas ainda ali paradas, olhando estupidamente para a horda que se apresentava.
Liliana, General da Horda Terrível | Arte de: Chris Rallis
Teyo sussurrou: "O que a gente faz?"
Francamente, não me ocorrera fazer nada — exceto talvez correr e me esconder. Em vez disso, fiquei ali, silenciosamente congelada, enquanto o primeiro dos guerreiros de metal chegava a uma jovem mulher humana, que tentava libertar o marido ou namorado ou irmão debaixo de pedras caídas. Ela olhou para o guerreiro que se aproximava. Não moveu um músculo quando ele se aproximou e rapidamente quebrou o pescoço dela. Estávamos a certa distância, mas ouvimos o estalo, sentimos em nossos próprios corpos.
"O que a gente faz?" Teyo repetiu.
Eu não sabia. A carnificina prosseguia conforme o exército que avançava continuava sua marcha, matando todos em seu caminho. Conforme se aproximavam, pude ver que eram criaturas mortas-vivas: humanos, minotauros, aven e outras espécies, cobertas da cabeça aos pés em algum tipo de mineral azul metálico. Logo eles chegariam até nós. Eu não conseguia pensar. Não conseguia me mexer. Não conseguia nem falar, o que é muito estranho para mim.
De repente, ouvi o estalo de um trovão. Ambos nos viramos. Era o Mestre Zarek, disparando raios de relâmpago de mãos em brasa com eletricidade contra os atacantes metálicos azuis, muitas vezes derrubando dois ou três de cada vez. Ele avançava, com um olhar de fúria no rosto, o cabelo em pé, e os guerreiros azuis explodiam diante dele.
A Senhora Kaya também estava lá; ela sacara suas longas facas para proteger uma mãe ruiva encolhida sobre um filho ruivo e se lançara contra o assassino morto-vivo que erguia uma espada sobre a cabeça da jovem mulher. As adagas da Senhora Kaya, brilhando em roxo com sua magia, afundaram fundo nas costas da criatura. Ela desabou em um monte na frente da mãe gritante, que puxou o filho para mais perto do peito e encarou Kaya, mais assustada do que agradecida.
A Senhora Kaya disse: "Corra."
A mulher despertou do transe e correu com o filho nos braços.
Por algum motivo, isso serviu para despertar a mim e ao Teyo também.
"Podemos ajudar?" perguntou ele.
"Acho que podemos tentar", eu disse, embora ainda não tivesse muita certeza de como.
Mais dois dos monstros brilhantes investiram contra a Senhora Kaya. O mais próximo e maior brandiu um machado, mas Kaya tornou-se incorpórea, o que eu sabia ser um de seus talentos místicos, e o machado passou inofensivamente através dela. Isso pareceu confundir seu atacante, e Kaya aproveitou o tempo para se re-corporealizar e cortar a garganta da segunda criatura que chegava. A luz roxo-pálida de suas adagas pareceu lutar brevemente com a luz roxo-escura que irradiava dos olhos e do cartucho do guerreiro. Mas, como um veneno, os poderes da Senhora Kaya infiltraram-se pelo cadáver, infectando-o. Ele caiu.
Ela voltou-se para o portador do machado, que atacou novamente. Mais uma vez ela ficou intangível e mais uma vez o machado passou através dela, deixando seu oponente aberto para receber ambas as adagas no abdômen. Ele não caiu de imediato e — sólida mais uma vez — ela arrastou as lâminas para cima e o estripou. Era o tipo de coisa que minha mãe faria.
Ou a Hekara. Fiquei imaginando onde ela estaria. Mas talvez eu estivesse meio feliz por ela não estar aqui. Ela estaria se divertindo demais — e poderia acabar se matando ou algo assim.
O Mestre Zarek, enquanto isso, estava resistindo de cima de um banco de praça, defendendo mais três crianças, uma das quais abraçava uma bola de borracha com quase a mesma proteção que a mãe usara com o filho. O Mestre Zarek estava fulminando um Eterno após o outro, mas, conforme a Senhora Kaya se movia para se juntar a ele, ficou claro que eles — todos nós — logo seriam sobrepujados.
Logo outra das criaturas estava sobre ela. Novamente o corpo dela perdeu substância e o guerreiro tropeçou direto através dela. Ele se virou. Ela se virou. Ela solidificou-se e enterrou suas adagas nos olhos dele, fundo no que restava de seu cérebro. Ele caiu como uma marionete com as cordas cortadas.
But she watched it for a second too long. Um minotauro mineralizado chocou-se contra ela e a enviou rolando pelos paralelepípedos. Ela gemeu e lutou para ficar de pé.
That’s where we came in. Finally.
Não achei que conseguiria encarar o minotauro em um ataque frontal, então corri por trás da besta. Ela me ignorou, continuando em direção à Senhora Kaya mais rápido do que eu previra. Mais rápido do que eu poderia fazer minha jogada.
E então, do nada, Teyo estava lá. Ele se colocou sobre a Senhora Kaya, erguendo um escudo triangular de luz para proteger a ela e a si mesmo da criatura. (Acho que é isso que significa ser um acólito da Ordem dos Magos de Escudo.) A maça da criatura chocou-se contra o triângulo, que brilhou intensamente mas manteve sua forma. Teyo fez uma careta mas manteve sua posição, entoando baixo. Fiquei surpresa e impressionada e — embora não tivesse motivo real, como meu padrinho Boruvo diria, para colher esta honra — orgulhosa do meu adotado.
O minotauro recuou para balançar sua maça novamente, mas àquela altura eu já estava pronta. Eu sacara minhas próprias duas adagas (muito menores). Saltei nas costas dele e as enterrei no pescoço da besta. Ele rugiu, corcoveou e me jogou longe. Saí voando, embora tenha conseguido segurar minhas facas. Caí com força de bunda.
Cortes e arranhões, como eu disse.
De repente, um raio de eletricidade azul-branco incendiou a criatura, que explodiu em pilhas flamejantes de azul derretido.
Conforme o Mestre Zarek se aproximava, Teyo baixou seu escudo. Um pequeno círculo de luz em sua orelha também sumiu e seus ombros murcharam. Ele ajudou a Senhora Kaya a se levantar.
O Mestre Zarek dirigiu-se ao Teyo: "Você é um Planeswalker."
"Sou o quê?"
"Como você sabe que ele é um Planeswalker?" a Senhora Kaya perguntou ao Mestre Zarek.
Eu estava zunindo entre as criaturas azuis metálicas. Esfaqueando-as aqui e ali para distraí-las de suas presas pretendidas. Cortei os tendões de uma e, quando ela caiu de joelhos, enterrei as facas em seus olhos.
Bem, tinha funcionado para a Senhora Kaya.
Felizmente, funcionou para mim também.
Corri de volta para o Teyo, desviando de outro monstro no caminho.
Nesse ponto, a Senhora Kaya olhou diretamente para mim e disse: "Essas coisas não parecem muito interessadas em você. Qual é o seu segredo?"
Acho que fiquei olhando fixamente para ela por um tempo.
O Mestre Zarek, achando que ela falava com ele, disse: "Estão interessadas o suficiente."
Ignorando-o, ela se dirigiu a mim novamente, agora com certa preocupação: "Você está bem?"
Mais uma vez, tive que despertar do meu estupor. Murmurei algo como: "Oh, sim. Só nunca esperei que a poderosa Mestre de Guilda Orzhov notasse a minha presença." Então, sob minha respiração, murmurei: "Uau, dois em um dia. Isso é quase mais estranho que o buraco gigante no mundo."
O Mestre Zarek, ainda sob a impressão equivocada de que a Senhora Kaya se dirigia a ele, disse: "Estou bem. Desculpe. São os óculos. São design da Mente de Fogo. Consigo usá-los para identificar Planeswalkers. É~levemente desconcertante."
"Mais algum por perto?" a Senhora Kaya perguntou. "Planeswalkers, quero dizer. Não óculos. Poderíamos usar a ajuda."
O Mestre Zarek baixou os óculos sobre os olhos e varreu os céus, rastreando algo lentamente para baixo. Pude notar por sua expressão — e um leve zumbido no meu cérebro — que ele estava tendo uma conversa psíquica com alguém. Eu não era poderosa o suficiente para interceptar, mas reconhecia os sinais.
Segui sua linha de visão e vi quatro humanos se aproximando. Dois eram homens que eu não reconhecia, e o terceiro era a Senhorita Lavínia, a antiga assistente do Pacto das Guildas Vivo. Sabe, o Senhor Jace Beleren, que também estava com eles. Eles lutaram para chegar até nós. O maior dos homens usava uma espada larga comum para fazer picadinho de qualquer criatura que chegasse ao seu alcance.
O Mestre Zarek soltou um raio de relâmpago que eliminou um par de monstros no caminho do quarteto. Então o homenzarrão gritou: "Chandra!"
Todos nos viramos. Mais quatro guerreiros lutavam para chegar até nós. Duas piromantes humanas estavam na liderança. Uma, com cabelos flamejantes — literalmente flamejantes — disparava tremendas rajadas de fogo que reduziam o inimigo a poças de gosma derretida. A outra, esta com longos cabelos cinza-aço, usava rajadas de mais precisão que eram igualmente eficazes. Atrás delas estavam um leonin macho e um autômato prateado maciço.
Ambos os grupos de quatro convergiram ao lado de nós quatro, e o leonin caolho pareceu gloriar-se na camaradagem, erguendo os braços para os céus e rugindo em um triunfo que me pareceu um tanto prematuro.
Introduções rápidas foram feitas. O homenzarrão era o Senhor Gideon Jura. O outro homem era o Senhor Teferi. A piromante ruiva era a Senhorita Chandra Nalaar. A piromante de cabelos cinza era a Senhorita Jaya Ballard. O leonin era o Senhor Ajani Juba d'Ouro, e o autômato, que parecia ser realmente vivo e senciente, era o Senhor Karn. Como Teferi, ele não tinha sobrenome. Parece que um monte desses 'walkers não ganharam um, quase como se fosse o custo de fazer negócios no Multiverso. Eu ia perguntar ao Teyo se ele tinha sobrenome, mas ele estava ocupado tentando nos apresentar, a nós dois, para os outros. Mas estava nervoso e falava baixo. Então, quando o Senhor Jura colocou sua mão grande no obmro de Teyo e, dirigindo-se apenas a ele, disse: "Bom ter você na luta, Teyonraht", aquilo me fez rir só um pouquinho.
Teyo tentou corrigir a impressão de que "Teyonraht" fosse o nome dele, mas a essa altura o Senhor Jura já estava gritando: "Formar! Os Eternos ainda estão vindo! Precisamos salvar o máximo de pessoas possível!"
Então era assim que os guerreiros metálicos eram chamados: Eternos.
Era um nome que não pressagiava exatamente bem para nossa sobrevivência, sabe?
A elegante Senhorita Cabelos-de-Corvo em seu elegante vestido preto atravessava a praça, do portal para a pirâmide, cercada por uma falange de guarda-costas Eternos. Ela nos observava enquanto o Senhor Jura nos liderava contra o que ele chamava de "a Horda Terrível".
Ela nos observava erguer pivetes menores do que eu em nossos braços para transportá-los para fora de perigo.
A certa altura, o Senhor Jura estava segurando três.
Ela nos observava fazer a retaguarda para transeuntes apavorados demais para montar qualquer defesa própria.
Ela nos observava destruir Eterno após Eterno.
E a última coisa que vi dela, antes de perdê-la de vista inteiramente, foi ela balançando a cabeça em piedade, se não em nojo.
Virei-me para o Teyo — cujo sobrenome se revelou ser Verada, a propósito — e ele parecia simplesmente exausto. Ele estava erguendo escudo após escudo para proteger todo tipo de gente — todos perfeitos estranhos para ele — daqueles Eternos mortos-vivos. Eu estava ocupada demais tentando continuar viva para ler os pensamentos literais dele, mas entendi a essência: ele não confiava em si mesmo, não achava que conseguiria lidar com as cartas que lhe foram dadas.
Inclinei-me e disse: "Ah, você está indo bem."
Ele engoliu seco, assentiu para mim e ergueu outro escudo, um círculo que se expandia sobre suas mãos estendidas, dando a dois moleques elfos a cobertura de que precisavam para fugir do Eterno coberto de mineral — ou coberto de lazotep, como o Senhor Jura chamava — que os vinha perseguindo. O escudo dele aguentou, impedindo o Eterno de perseguir os elfos e me dando a oportunidade de usar minhas adagas nos olhos nada Eternos dele.
Eu já tinha feito aquele movimento seis ou sete vezes àquela altura. Era muito eficaz. Eu conseguia simplesmente correr até eles e esfaquear. Da primeira vez achei que Teyo fosse vomitar, mas ele engoliu de volta e agora estava se acostumando ao meu truque. Nunca tive ninguém estudando meus truques tanto assim, exceto talvez minha mãe, mas tentei não deixar aquilo mexer com a minha cabeça.
Teyo convocou um novo escudo para bloquear o ataque de mangual de outro Eterno.
O Senhor Jura gritou: "Teyonraht, empurre esse para cá!"
"É só Teyo", ele esganiçou enquanto tentava obedecer. Notei que sempre que precisava de alavancagem, Teyo convocava um pequeno círculo de luz sob sua orelha direita. Ele ficava ali pendurado como um brinco brilhante e reluzente que prendia minha atenção perigosamente. Tive que resistir ao impulso de agarrá-lo, resistir ao impulso de olhar por tempo demais.
Teyo expandiu o escudo da mão esquerda, transformando-o de um círculo em um diamante. Ele sorriu só um pouquinho, talvez ligeiramente orgulhoso da manobra, e então usou ambas as mãos para dar dimensão ao escudo de diamante e empurrá-lo para frente.
O mangual do Eterno ricocheteou no ângulo estranho, tirando o monstro de equilíbrio. Teyo inclinou-se e empurrou. O Eterno tropeçou para trás e o Senhor Jura cortou a cabeça dele, facinho.
"Bom", ele latiu antes de se virar para atacar outro das criaturas.
Teyo sorriu de novo e eu sorri para ele. Então ele sacudiu o sorriso e virou o escudo para proteger as costas da Senhora Kaya.
O Senhor Beleren gritou: "Precisamos convocar as guildas! Trazê-las para a luta!"
O Mestre Zarek explodiu outro Eterno e gritou de volta: "Não sei se é possível! Posso comandar os Izzet para o campo e talvez a Kaya possa fazer o mesmo com os Orzhov~"
A Senhorita Lavínia completou o pensamento dele: "O restante das guildas recuou para reforçar seus próprios territórios, mais suspeitos uns dos outros do que de Bolas."
A Senhora Kaya disse: "E isso sem contar as guildas que já servem ao Bolas. Golgari e Azorius. Talvez Gruul também."
Eu não conseguia acreditar que os Gruul serviriam ao dragão. Sabia que meu pai e minha mãe jamais fariam isso.
A Senhorita Lavínia também fechou a cara. Ela claramente não gostava da ideia de os Azorius servirem ao Bolas, tampouco.
Teyo e a Senhora Kaya estavam de costas um para o outro, parando golpes entre dois Eternos. Achando que podia ajudar, escorreguei entre eles. Inclinei-me e sussurrei para a Senhora Kaya: "Chame a Hekara. Ela trará o Culto inteiro."
A Senhora Kaya esfaqueou seu Eterno, então parou para balançar a cabeça pesarosamente. "A Hekara morreu", disse ela.
E foi isso. Meu mundo simplesmente~girou.
Não podia ser~
Eu a vira apenas na noite anterior. Ela estava bem. Ela estava alegre. Ela era a Hekara. Ela era minha melhor parceira em todo o mundo. Em todo o Multiverso.
Atrás do escudo, Teyo me encarava com preocupação.
"Hekara era minha amiga", eu disse sem esperança. "She knew me. She saw me."
Teyo parecia estar como eu me sentia: impotente. Ele queria me consolar; passando o escudo da mão direita para a esquerda, ele me alcançou e deu um pequeno aperto encorajador no meu braço.
Não vou fingir que me senti nem um pouco encorajada. Eu ainda não conseguia processar o que a Senhora Kaya dissera. Não conseguia imaginar um mundo sem a Hekara nele, sem a risada dela, seus pensamentos saltitantes, sua lealdade e amizade, nem mesmo sem a sua sede de sangue. Mas Teyo estava tentando, então tentei retribuir o esforço com um sorriso grato. Não tinha ideia de que expressão realmente apareceu no meu rosto.
Hekara não podia estar morta. Simplesmente não podia.
"A Hekara morreu", a Senhora Kaya dissera, e eu sabia que ela gostava da Hekara o suficiente para nunca mentir sobre esse tipo de coisa. Eu queria acreditar que ela mentiria. Mas eu sabia melhor.
Minha melhor parceira não estava me esperando no Passeio Transguildas. Ela nunca mais esperaria lá. Ela nunca mais me abraçaria ou me provocaria ou me faria cócegas ou me giraria ou falaria comigo de novo.
"Vem cá, docinho, e me dá um beijo". Eu nunca mais ouviria aquilo. Nem nada parecido com aquilo. Nem o tilintar dos sinos no cabelo dela. Nem o risinho que ela dava ao manifestar uma lâmina de barbear. Nem as gargalhadas ruidosas que escapavam de sua boca quando ela achava algo particularmente hilário. Tudo se fora. A cortina descera. O show dela ficara escuro.
Mais Eternos avançavam e eu me perguntava por que a gente sequer se dava ao trabalho de lutar contra eles.
Ravnica estava morrendo ao meu redor e, de repente, não parecia valer a pena salvá-la.
Hekara estava morta~
15 de Maio de 2019 | Por Greg Weisman
O Caminho para Orzhova
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Hekara estava morta.
Era tudo o que eu sabia.
Foi sorte, eu acho, que eu estivesse entre o Teyo e a Senhora Kaya, que estavam repelindo os Eternos que atacavam. Acho que eu não conseguiria repelir nem um gato doméstico naquele momento.
Acho que nem teria me dado ao trabalho.
Minhas memórias dos minutos seguintes não são muito claras. Acho que o Mestre Zarek disse algo sobre o seu Farol convocando mais daqueles tipos Planeswalker como ele e a Senhora Kaya e o Senhor Jura e o Senhor Beleren e o Teyo. Chuto que havia Planeswalkers aparecendo por todo o nosso redor. Acho que um era um minotauro. Não sei.
Hekara estava morta.
Ela deveria ter sido uma Planeswalker. Uma Planesdancer. Eu conseguia imaginar isso. Hekara dando cambalhotas pelo Multiverso, visitando mundos diferentes, fazendo todos sorrirem. Tirando um pouco de sangue. Ou, sabe, muito sangue.
Além disso, se ela fosse uma Planeswalker, poderia ter transplanado para fora do caminho do que quer que a matou.
"Como ela morreu?" perguntei. Mas só o Teyo estava prestando atenção em mim, e ele não sabia.
E então algo aconteceu. Eu realmente não estava prestando atenção em ninguém, mas acho que alguém deve ter lançado um feitiço. Teyo baixou seu escudo e cobriu os olhos.
Isso me despertou. Tinha que despertar. Um Eterno estava prestes a esmagar os miolos do meu novo amigo Teyo — meu único amigo Teyo — com um martelo.
Furiosa, saltei sobre ele e o esfaqueei nos olhos. Ele cambaleou~então caiu.
Eu estava fervendo. Não me lembro de nunca ter ficado tão brava.
Eu era material Gruul de primeira agora. Meus pais ficariam tão orgulhosos.
A Senhorita Ballard disse: "Nem todo Planeswalker é material para as Sentinelas, sabe. E alguns são francamente desagradáveis."
E o Senhor Jura respondeu: "Temos que assumir que, desagradáveis ou não, a maioria dos Planeswalkers não será grande fã de Nicol Bolas. Precisamos nos separar. Espalhar-nos pela cidade. Salvar o máximo de pessoas que pudermos e reunir todos os Planeswalkers que encontrarmos."
Um monte deles gritou: "Sim!"
Kaya virou-se para Teyo e para mim e disse: "Vocês dois são úteis para caramba. Venham comigo."
Teyo, abençoado seja, era um seguidor nato. E eu não ia deixá-lo sozinho para morrer como fiz com a Hekara, então quando ele seguiu a ordem da Senhora Kaya para segui-la, eu o segui. Acho que foi uma coisa boa. As ruas estavam perigosas o suficiente para quase tirar minha mente da Hekara por um tempinho.
Quase.
A Senhora Kaya estava tentando chegar a Orzhova para convocar sua guilda para a batalha. Mas estávamos a uma longa distância da Catedral Opulenta, e falanges e grupos da Horda Terrível estavam vasculhando as ruas de Ravnica, matando todos que encontravam. A salvação era que, por algum motivo, os Eternos não estavam entrando em nenhum dos prédios. Se as pessoas ficassem lá dentro, estariam seguras.
Por enquanto, pelo menos.
Então atravessamos Ravnica, por ruas, caminhos e becos, e fizemos um trabalho bem decente salvando pessoas conforme avançávamos. E porque podíamos dizer a elas para procurarem abrigo e ficarem em ambientes fechados, não precisávamos nos preocupar muito com elas depois. E nunca tivemos que perseguir nenhum Eterno para dentro. O que era bom, porque lutar a céu aberto era ao menos um pouquinho mais seguro do que enfrentar essas criaturas em espaços fechados.
Digo, éramos apenas três e a coisa do Teyo com aqueles escudos de luz era basicamente só defensiva.
Não me entendam mal. Nós precisávamos dele.
Ele cobria nossas costas, nossas frentes, nossas laterais. Mas acho que ele não matou de fato um único Eterno.
"Você nunca matou ninguém nem nada na sua vida, né?" perguntei a ele.
"Matei uma aranha uma vez."
"Uma aranha gigante?"
"O quão gigante é gigante?"
"Era maior que o seu polegar?"
"Não."
"Então só uma aranha normal."
"Certo. Só uma aranha normal."
Acho que ele pensou que eu estava decepcionada com ele, então. Mas acho que uma parte de mim ficou feliz por ele ser tão~qual é a palavra?
Puro. É. Tão puro.
Ele já era inseguro, e eu não queria aumentar isso. Então decidi ali mesmo meio que colocar a Hekara no bolso por enquanto. Tínhamos Eternos para lidar, e ele precisava de mim agora. Eu sofreria depois.
Eu sofreria para sempre.
"Fico feliz por você não ser um assassino", eu disse.
"Uh~obrigado. Nunca tinha surgido o assunto antes."
Enfim, tentamos evitar os contingentes maiores, mas fomos ótimos contra Eternos individuais ou pequenos grupos deles. A Senhora Kaya fazia o trabalho pesado, por assim dizer. As criaturas pareciam particularmente vulneráveis às suas adagas fantasmagóricas. E não conseguiam tocá-la quando ela estava incorpórea. Mas ainda conseguiam vê-la, e isso tornava ela e o Teyo — com seus grandes escudos brancos brilhantes — ótimas distrações para mim. Porque, sério, nenhum dos Eternos me dava muita atenção a menos que eu já estivesse matando eles.
Forma Fantasmagórica de Kaya | Arte de: Johan Grenier
Eu saía de trás de um dos escudos em forma de diamante do Teyo, desviava de dois ou três Eternos e então esfaqueava um que não tivesse me visto chegar, geralmente cravando ambas as adagas em seus olhos e fundo no cérebro. Aí eu já tinha sumido antes dele atingir o chão.
Entre um par dessas escaramuças, enquanto atravessávamos uma rua larga porém vazia — vazia de tudo exceto por um punhado de cadáveres que provavam que os Eternos já tinham passado por ali — Teyo virou-se para Kaya e perguntou: "Então nós somos Sentinelas agora?"
"Não sei", ela respondeu. "Nunca ouvi falar de 'Sentinelas' antes de hoje. Não está totalmente claro o que é."
Eu disse: "Os mocinhos, eu acho."
Teyo assentiu. "O equivalente em Ravnica à Ordem dos Magos de Escudo."
Kaya balançou a cabeça. "Não acho que eles se limitem a Ravnica. Todos os membros são Planeswalkers. Talvez sejam o equivalente do Multiverso para a sua Ordem."
Dei de ombros. "Então~os mocinhos."
"Sim."
"Então acho que vocês dois são Sentinelas", eu disse. "Eu não, claro. Não sou uma walker." Ri então, quando um pensamento atingiu meu cérebro de Rat: Não sou Sentinela; sou Sem-guilda. Essa é a Rat. Sempre Sem-guilda.
"Você matou mais Eternos do que eu", disse Teyo. Tentei não revirar os olhos, já que ele não tinha matado nenhum.
Em vez disso, disse: "Isso é uma coisa tão doce de se dizer, Teyo. Você é um garoto tão doce. Não é um garoto doce, Senhora Kaya?"
"Muito doce."
Ele me olhou meio feio e disse: "Tenho quase certeza de que sou mais velho que você."
Ignorei-o, dizendo à Senhora Kaya: "Foi por isso que adotei ele logo de cara." Ele começou a protestar ou algo assim, mas eu o cortei. "Como está esse corte? Não consigo ver uma cicatriz."
Meio desorientado, ele esfregou a cabeça onde costumava estar o corte. "Bem, eu acho. Não sinto nada."
"Foi gentil do Senhor Juba d'Ouro curar para você. Não é como se ele não estivesse ocupado com outras coisas, com todos os Eternos que ele estava matando para todo lado. Não foi gentil do Senhor Juba d'Ouro, Senhora Kaya?"
"Muito gentil", disse ela.
A essa altura, já conseguíamos ver as agulhas pontiagudas da Catedral Opulenta assomando sobre prédios mais próximos e baixos. De repente, a Senhora Kaya saiu em disparada por um beco que corria diagonalmente entre dois prédios. Pareceu uma escolha estranha, mas imaginei que ela soubesse o que estava fazendo, então agarrei a mão do Teyo e a seguimos.
A uns cem metros para dentro percebi que ela estava apenas olhando para cima, em direção à catedral, pegando a rota mais direta. Gemi internamente e disse: "Acho que não queremos ir por aqui."
"Queremos sim", ela respondeu, "se isso nos levar a Orzhova mais rápido."
"É um beco sem saída."
Ela parou bruscamente e virou-se para me encarar. "Você poderia ter mencionado isso antes."
"Você parecia tão confiante. Achei que talvez conhecesse uma passagem secreta. Digo, tem um monte de passagens secretas por Ravnica. Um monte. E eu conheço praticamente todas — ou a maioria delas, enfim. Mas imaginei que a Mestre de Guilda Kaya pudesse conhecer uma ou duas que eu não conheço, né?"
"Rat, sou mestre de guilda há apenas algumas semanas. Estou em Ravnica há apenas alguns meses. Mal conheço esta cidade melhor que o Teyo aqui."
"Só cheguei hoje de manhã", disse Teyo, de forma bem desnecessária.
"Eu sei disso", a Senhora Kaya rosnou.
Assenti para ela. "Certo, certo. Então de agora em diante, a nativa navega. Por aqui."
Ainda segurando a mão do Teyo — não sei bem por que, acho que só gostava de segurá-la — puxei-o de volta pelo caminho de onde viemos. Ele se deixou ser arrastado atrás de mim. A Senhora Kaya nos seguiu.
Ouvi eles chegando antes de vê-los.
Avanço Implacável | Arte de: Stanton Feng
"Ok", eu disse, "talvez pelo outro caminho."
"Por quê?" ela perguntou. Mas uma fração de segundo depois ela soube. Outro grupo de Eternos entrara na boca do beco. Muitos para lutarmos naquele espaço fechado. No minuto em que nos avistaram, carregaram. Viramos e corremos.
A Senhora Kaya gritou: "Você disse que era um beco sem saída!"
"E é!"
"Então para onde estamos correndo?"
"Tem uma porta para um bar clandestino no fim do beco. Não vai nos levar à catedral, mas se entrarmos talvez os esquisitões esqueçam da gente."
É uma solução tão boa quanto qualquer outra.
Os Eternos eram rápidos, mas não estavam correndo por suas vidas. Ganhamos deles com certa folga até o fim do beco e a pesada porta de ferro do Krumnen's. Soltando finalmente o Teyo, tentei a maçaneta. Estava trancada.
Claro. Por que estaria aberta à luz do dia?
Bati na porta com ambos os punhos. Sem resposta. Ajoelhei-me e disse: "Tudo bem. Consigo arrombar a fechadura."
"Eu também", Kaya disse, "mas não acho que tenhamos tempo."
"Eu ganho o tempo", declarou Teyo. Olhei por cima do ombro e o vi entoar um escudo de diamante razoavelmente grande de luz branca, separando-nos dos Eternos apenas um segundo ou dois antes de eles colidirem com ele. Ele grunhiu de dor mas conseguiu manter o escudo, até expandi-lo em um retângulo que cobria toda a largura do beco para que nenhuma das criaturas pudesse deslizar por ele.
"Não sabia que você conseguia fazer isso", eu disse, enquanto trabalhava na fechadura.
"Nem eu. Nunca fiz antes. Mas consigo usar as paredes do beco para substituir a geometria. É como se apoiar nelas."
"Se você diz."
Eu ouvia as armas dos Eternos batendo contra o escudo dele, ouvia-o entoando sob sua respiração e ouvia-o grunhir um pouco a cada golpe. Não sabia quanto tempo ele conseguiria manter aquilo.
Algo clicou suavemente. "Consegui", eu disse, levantando-me. Agarrei a maçaneta da porta, mas ela ainda não se movia. "Está destrancada! Deve estar trancada por dentro!"
A Senhora Kaya disse: "Deixa comigo", e atravessou a porta como um fantasma. Não demorou muito para a cabeça dela atravessar de volta e ela disse: "Vou conseguir abrir, mas vocês precisam aguentar mais um pouco."
Olhei para o Teyo. Ele não disse nada. Mas seus olhos se apertaram fechados e ele assentiu uma vez. Não estava mais entoando. Apenas rangendo os dentes e inclinando-se em direção ao seu escudo com ambas as mãos, enquanto um minotauro de lazotep dava cabeçadas nele repetidamente, enquanto o restante dos Eternos esmagava manguais contra ele ou os cabos de suas espadas em forma de foice. Luz branca brilhava a cada impacto. O escudo não ia aguentar.
A Senhora Kaya deve ter tido o mesmo pensamento. Ela atravessou o corpo de volta para o beco e sacou suas adagas, pronta para lutar.
Felizmente, a ajuda veio. Mais uma vez, ouvi os recém-chegados antes de vê-los. Ouvi-os dando vivas e urros. Sorri e coloquei a mão no obmro do Teyo. "Só mais alguns segundos. Vai ficar tudo bem."
Guerreiros Gruul — Gan Shokta, Domri Rade, Akamal Cray, Govan Radley, Sheeza e Jahdeera, Bombop e outros — atacaram os Eternos por trás, machados cortando o lazotep. Presas perfurando. Martelos chovendo. Gan Shokta esmagou as cabeças de dois Eternos uma contra a outra com força suficiente para estilhaçar seus crânios em fragmentos de lazotep e osso.
Os Eternos instantaneamente se esqueceram de nós e viraram-se para encarar os Gruul. Teyo desabou, baixando seu escudo. Coloquei-me sobre ele protetoramente com minhas adagas em punho, enquanto a Senhora Kaya começava a atacar os esquisitões por trás.
Domri decepou a cabeça de um Eterno com sua foice longa e pesada. Ele olhou para o lado e cacarejou: "Você deve ser a Mestre de Guilda Kaya, a todo-poderosa assassina de fantasmas. Sorte sua que Domri Rade estava aqui, apreciando o caos sangrento!"
"Você é o Rade?" a Senhora Kaya perguntou.
Tive que suprimir um risinho, pois Domri pareceu instantaneamente insultado: "Claro que sou o Rade! Quem mais?"
Domri sempre fora um babuinozinho burro. Eu ainda não conseguia acreditar que ele substituíra um guerreiro de verdade como Borborigmo como o novo mestre de guilda dos Gruul. E eu realmente não conseguia acreditar que Gan Shokta o estava seguindo. Por outro lado, eu estava feliz que Domri trouxera todos para cá quando trouxe.
A Senhora Kaya também estava. "Sou grata", disse ela relutantemente.
"Pode apostar que é!" disse ele, bem satisfeito consigo mesmo. A essa altura, a maioria dos Eternos estava em pedaços no chão. Domri bufou e gritou para seus guerreiros: "Ok, parceiros, a diversão acabou aqui. Vamos achar mais!"
Os Gruul começaram a segui-lo de volta pelo beco, com Gan Shokta na retaguarda. Infelizmente, um dos Eternos não estava morto o suficiente. Faltava-lhe um braço, mas isso não parecia incomodá-lo muito, e ele saltou de pé com uma espada na mão restante, preparado para esfaquear Gan Shokta pelas costas.
Teyo reagiu antes mesmo de mim, estendendo uma mão e lançando uma pequena porém sólida esfera de luz branca na nuca da criatura. O impacto foi forte, e o Eterno tropeçou brevemente, fazendo barulho suficiente para alertar Gan Shokta sobre o perigo. Ele se virou a tempo de ver Teyo atingir o esquisitão com outra esfera.
Então a Senhora Kaya estava sobre a coisa, esfaqueando-lhe as tripas com ambas as facas. O Eterno estava morrendo — mas ainda não parecia saber. Continuava balançando sua espada contra Gan Shokta.
Então pulei nos ombros do esquisitão e enterrei minhas adagas em seus olhos e fundo em seu crânio. Ele desabou sob mim.
Gan Shokta~franziu o cenho. Eu sabia que ele odiava ser salvo por forasteiros. Com certa relutância, ele grunhiu um agradecimento tanto para a Senhora Kaya quanto para o Teyo. Ignorando-me, ele se virou e trotou para alcançar Domri e o resto.
"Quem era aquele?" Teyo perguntou.
Dei de ombros. "O grandalhão? Aquele é Gan Shokta. Meu pai."
Então agora estávamos viajando em bandos, eu acho.
Eu e Teyo Verada e a Senhora Kaya estávamos agora na companhia de Gan Shokta, os ogros Govan e Bombop, Akamal, Sheeza e Jahdeera (as gêmeas viashino) e um punhado de outros guerreiros, xamãs e druidas Gruul, todos liderados pelo Mestre Domri Rade.
Logo topamos com uma falange de Eternos e, no meio da luta, o inimigo ficou todo prensado entre os Simic na esquerda e os Izzet na direita.
"Quem são eles?" Teyo perguntou.
Assenti para a esquerda: "Aqueles são as forças do Conluio Simic. Terraformadores, super-soldados e tritões liderados pelo Biomante Vorel." Então assenti para a direita: "E aqueles são os meca-magos da Liga Izzet — a guilda do Mestre Zarek — liderados por sua segunda em comando, a Camareira Maree."
"Qual é a Maree?"
"A goblin."
"Ok."
"Vou te testar em todos esses nomes depois."
Ele me lançou um olhar em pânico antes de perceber que eu estava brincando. Então ele olhou feio de brincadeira.
Acho que ele gosta quando eu o provoco, sabe?
Acabamos rápido com aquela falange, e agora estávamos com três guildas fortes. Mas o bando continuava crescendo.
Outra batalha trouxe mais ajuda: Planeswalkers desta vez, uma mulher tritã chamada Kiora de um mundo chamado Zendikar, e uma jovem humana chamada Samut de algum lugar chamado Amonkhet, que era aparentemente de onde todos esses Eternos vinham originalmente.
"Você não podia simplesmente ter deixado eles lá", perguntei a ela, o mais sarcasticamente que consegui.
Ela ignorou o comentário e a mim. Acho que ela estava um pouco ocupada demais lutando e sofrendo, sofrendo e lutando. Ela sabia os nomes de cada Eterno que matava, sabia-os acho que de quando eram amigos dela. (Observando a dor dela, era difícil não pensar na Hekara.) Ela matava um e dizia sombriamente: "Você está livre, Eknet." Então matava mais dois e dizia: "Você está livre, Temmet. Você está livre, Neit."
Fiquei imaginando se a Hekara aparecesse como um Eterno sem mente e assassino se eu seria capaz de matá-la.
Ou se seria mais fácil deixar ela me matar?
Quando a batalha terminou, continuamos nosso caminho, cercados por essa multidão de aliados.
A Senhora Kaya ainda tentava nos levar a Orzhova.
Teyo estava encarando a Kiora enquanto tentava desesperadamente não deixar muito óbvio.
Balançando a cabeça, dei um risinho.
"O quê?" ele perguntou.
"Você nunca viu tritões antes?"
"Não temos muita água em Gobakhan."
Ri e apontei para um dos meca-magos Izzet. "Você nunca viu um vedalken?"
"Conheço pessoas com pele preta, pele marrom, pele bronzeada e pele clara, mas nunca vi ninguém com pele azul antes."
Rindo mais ainda, assenti na direção da Jahdeera. "Você nunca viu um viashino?"
"Talvez alguns dos nossos lagartos cresçam para ser viashinos?"
"Já viu uma rata antes?"
"Vi muitas ratazanas em Gobakhan. Nenhuma como você."
Ri de novo e dei um soco bem gentil no braço dele.
Lancei um olhar para o Gan Shokta, que marchava logo atrás do Domri e nada feliz com isso. Meu pai estava acostumado a seguir Borborigmo, alguém que ele podia respeitar como líder e guerreiro. Claramente o irritava agir como tenente do Mestre Rade, e ele encarava o Domri pelas costas. Quis tranquilizá-lo dizendo que o burro do Domri era um asno, que perderia o controle dos Gruul logo, logo. Mas não consegui imaginar um jeito de conduzir aquela conversa naquele momento. Então só suspirei e continuei andando entre o Teyo e a Senhora Kaya.
Além do mais, logo estávamos em outra luta.
Tínhamos chegado a uma colina coberta de paralelepípedos, onde a Horda Terrível tinha a vantagem do terreno.
O Senhor Vorel gritou um comando: "Peguem eles! Peguem todos!"
A Camareira Maree pareceu pronta para dizer ao Senhor Vorel o que ele podia fazer com as ordens dele, mas o Burro do Domri se antecipou com uns palavrões Gruul bem escolhidos, o que foi meio inútil, porque a próxima coisa que ele fez foi correr morro acima, gritando: "Vamos lá, parceiros! Não precisamos desses ratos de laboratório nos ensinando a quebrar cabeças!"
Eu conseguia ler a Camareira Maree fácil, fácil. Ela decidiu que preferia ser aliada do Senhor Vorel do que seguir o exemplo do Burro do Domri.
Então não foi o mais coordenado dos ataques, mas Gruul, Simic e Izzet ainda assim tomaram a colina juntos, o que era algum progresso pan-guilda limitado, eu acho.
Claro que fomos com eles: eu e Teyo e Senhora Kaya e Senhorita Kiora. Procurei pela Senhorita Samut, mas ela já estava à frente do bando, gritando: "Você está livre, Haq. Você está livre, Kawit."
Exatamente quando Teyo e eu alcançamos o cume, mais duas mulheres se materializaram ao alcance dos nossos braços. Ambas Planeswalkers tinham pele marrom quente, mas de resto a Senhorita Huatli e a Senhorita Saheeli Rai (aprendi os nomes delas depois) não podiam parecer menos parecidas. A Senhorita Huatli estava blindada e armada, com um longo rabo-de-cavalo preto trançado apertado saindo debaixo de seu elmo. Ela era baixa — quase tão baixa quanto eu — mas poderosamente musculosa, com olhos penetrantes e uma boca severa. A Senhorita Rai vestia um longo vestido esvoaçante, decorado com filigranas de ouro brilhantes. Ela era mais alta que até a Senhora Kaya e usava o cabelo em redemoinhos no topo da cabeça, o que a fazia parecer mais alta ainda. Era ágil e graciosa, com olhos curiosos e uma boca sorridente.
Diferentes como eram, eram claramente amigas. Tentando avaliar a situação, trocaram um olhar rápido mas ficaram ali paradas sem fazer nada, um pouco sem saber de que lado deveriam estar. Teyo mais ou menos respondeu à pergunta não dita erguendo um escudo para bloquear o machado de um Eterno que, de outra forma, poderia ter partido o crânio da Senhorita Rai.
"Obrigada", disse ela.
"Sim, meus agradecimentos", ecoou a Senhorita Huatli.
Eu já tinha visto o suficiente, então corri por entre as duas para chegar à luta. Matei um Eterno exatamente quando uma terceira Planeswalker apareceu. Esta parecia estar de alguma forma informada da situação e imediatamente se juntou à batalha, usando sua magia para assumir o controle de um dos esquisitões e jogando-o contra todos os outros. Tinha longos cabelos loiro-mel, um manto com capuz azul e branco e um longo cajado-gancho. Disse à Senhorita Kiora que seu nome era Senhorita Kasmina ou Senhorita Kasmiri ou Senhora Kasmagorica ou algo assim. (Ok, não era Senhora Kasmagorica.)
Transmutação de Kasmina | Arte de: Uriah Voth
Mas, sim, até eu estava tendo problemas em lembrar o nome de todo mundo a essa altura.
Perdi o rastro dela logo depois, mas ela causou um belo estrago com seu Eterno escravizado ali mesmo.
O mesmo fez a Senhorita Huatli, que se deu muito bem com a matança de esquisitões.
E aquele passarinho de ouro brilhante que a Senhorita Saheeli soltou atravessou direto a testa de um Eterno e saiu por trás do seu crânio. O Eterno cambaleou e caiu. Eu quis pegar e guardar aquele troço brilhante útil, mas o pássaro nunca diminuiu a velocidade. Repetiu o ataque em outro Eterno e em outro. #linebreak #linebreak Não era tudo notícia boa. O pobre Bombop avançou demais na frente do resto de nós. Ele esmagou cinco ou seis crânios de lazotep com seu martelo de pedra, mas os Eternos logo o cercaram, derrubando-o para esfaqueá-lo umas trinta vezes antes que qualquer um de nós pudesse alcançá-lo para ajudar.
Houve também uma xamã Simic — nunca soube o nome dela — que demorou um momento a mais para lançar seu feitiço e acabou decapitada. A cabeça caída conseguiu grasnar as últimas sílabas necessárias antes de expirar, e o esquisitão que a matou explodiu em uma chuva de lazotep e gosma.
Então, é. Contratempos, sabe?
Mas a batalha acabou logo. Tínhamos vencido, e nem um único Eterno continuava vivo — nem mesmo morto-vivo.
Nosso bando parou para recuperar o fôlego coletivo — e então os fôlegos foram roubados ao som de um CRACK! remoto porém ensurdecedor. Todos nos viramos, e do topo daquela colina conquistada a duras penas, pudemos ver quatro Eternos imensos emergindo do rasgo no mundo para se agigantarem sobre a distante Praça do Décimo Distrito.
Engoli em seco e murmurei: "Uau. Grandes."
A Senhorita Samut amaldiçoou.
A Senhora Kaya perguntou: "O que são eles?"
"Eles são os nossos deuses", a Senhorita Samut disse amargamente. "Mas Bolas os matou ou mandou matá-los. Agora eles são dele. Seus Deuses-Eternos."
Pois sim. Claro. Era o que faltava no dia. DEUSES-Eternos.
Assistimos em silêncio por um tempo enquanto os quatro Deuses-Esquisitões despedaçavam o que parecia ser Vitu-Ghazi, o que era estranho e terrível por todo tipo de razões, inclusive o fato de que eu não conseguia entender como a Árvore-Mundo tinha ido parar na praça vindo da sua casa em território Selesnyano para começo de conversa.
Senti vontade de chorar de novo.
E então senti vontade de bater no Burro do Domri quando ele de fato comemorou: "Uhuul! Vocês viram isso! Foi Vitu-Ghazi que eles detonaram! Krokt, deram uma lição naqueles molengas Selesnya!"
Alguns dos seus puxa-sacos assentiram ou grunhiram em concordância, mas o resto de nós só ficou olhando para ele, atônitos.
Ele disse: "Gruul, estamos lutando no lado errado! Esse dragão está agitando as coisas! Ele vai derrubar as guildas! Vai derrubar Ravnica! Não é o que a gente sempre quis? Quando as guildas caírem, o caos reinará, e quando o caos reinar, os Gruul governarão! Ouviram? Estamos nos juntando ao dragão!"
Lutei contra o impulso de esfaquear o Burro do Domri nos olhos olhando para ver o que meu pai faria. Gan Shokta não decepcionou. Ele fez uma pausa, olhando feio, e então disse: "Rade, você serviria a esse mestre?"
"Parceiro, colega, não servo!"
"Você não sabe a diferença, garoto. Você não é líder de clã nenhum. Você é um seguidor. Vou voltar para o Borborigmo."
O Burro do Domri pareceu chocado. Gan Shokta olhou com desprezo para ele, então se virou e foi embora. Eu o observei partir, cheia de orgulho Gruul.
Bem, tem sido um dia bem Gruul para mim.
Teyo olhou para mim. Ocorreu-me que ele achava que Gan Shokta deveria ter prestado mais atenção na filha dele. Dei de ombros. Teyo é um bom garoto, mas não entendia nada da minha situação familiar.
O que é totalmente compreensível, porque é meio bizarro, e eu não tinha contado nada para ele na verdade.
Eu não estava acostumada a contar às pessoas sobre isso, francamente, e não tinha muita certeza de como faria isso. Mas imaginei que ele sacaria eventualmente.
Enfim, o Burro do Domri amuou por um segundo ou dois, antes de gritar: "Esqueçam o Gan Shokta. Ele é outro molenga! Este é o nosso momento, entendem?"
A Senhora Kaya disse: "Você é um tolo, Rade. Bolas não guarda fé com aqueles com quem ele escolhe negociar. Você realmente acredita que pode ganhar o favor dele sem ser chamado?"
Mas o Burro do Domri a ignorou, liderando seus guerreiros colina abaixo em direção à praça, gritando: "A ajuda está chegando, dragão! Vamos derrubar todos eles juntos!"
Domri, Anarquista de Bolas | Arte de: Raymond Swanland
Kaya parecia brava o suficiente para segui-lo e arrastá-lo de volta, e eu estava brava o suficiente para arrancar a língua daquele idiota.
Mas outro grupo de Eternos estava subindo o outro lado da colina. Então, com um suspiro coletivo, todos nos preparamos para outra luta.
Eu não conseguia ouvir as palavras — eram destinadas a Planeswalkers, não a alguém que fosse como eu — mas senti o toque mental do Senhor Beleren como uma pedra saltando sobre a superfície líquida da minha psique.
Mas para a Senhora Kaya, foi claramente mais intenso. Distraída — até mesmo um pouco dolorida — pelo que quer que o Senhor Beleren tivesse projetado, ela foi quase partida ao meio pelo machado de mais um minotauro Eterno antes que eu a puxasse para fora do caminho.
"Você ouviu isso?" Teyo perguntou, confuso.
"Ouvi o quê?" instiguei, enquanto pulava nas costas do minotauro e — incapaz de alcançar por entre seus chifres para esfaqueá-lo pelas órbitas oculares — enterrava minhas duas adagas no seu pescoço.
Ainda estávamos no meio do bando. Os Gruul tinham ido embora. Alguns seguiram o Burro do Domri. Alguns seguiram meu pai. Mas os lutadores Simic e Izzet ainda estavam conosco, assim como a Senhorita Samut, a Senhorita Kiora, a Senhorita Rai e a Senhorita Huatli.
Meu ataque ao Eterno com cabeça de touro causou pouco dano, mas tirou a atenção do esquisitão da Senhora Kaya, que era meu principal objetivo de qualquer maneira. Pulei fora e corri para me esconder atrás de um dos escudos do Teyo.
O minotauro confuso procurou por, bem~mim. Deu tempo para a Senhora Kaya se recuperar e usar suas próprias adagas espectrais para enviar aquele Eterno para o seu descanso eterno.
De repente, outro Planeswalker — um grande viashino com pele verde-limão — materializou-se bem na nossa frente.
Ele teve tempo apenas de sisear: "O que é issssso?" antes de uma Eterna agarrá-lo por trás. A Eterna não usou arma nenhuma no homem-lagarto, mas o que se seguiu foi puro show de horrores: a esquisitona pareceu sugar a força vital do viashino direto das costas dele, como um ventilador Izzet sugando uma chama. Ela absorveu aquele fogo até que ele brilhou de dentro do seu corpo de lazotep, brilhou forte o suficiente para criar — ou pelo menos destacar — rachaduras em sua casca de lazotep.
O viashino caiu, uma casca sem vida, conforme a Eterna explodiu em chamas de dentro para fora. Então aquele fogo disparou para o ar, cruzando como um cometa em direção à Praça do Décimo Distrito e ao dragão. A Eterna queimada desabou sobre o lagarto morto, como se tivessem sido amantes, morrendo juntos em um abraço final.
Tivemos sorte da Senhorita Huatli já estar matando o último esquisitão desse grupo em particular, porque todo mundo ficou ali parado em choque total.
Nisso, senti o toque mental do Senhor Beleren de novo. Olhei para o Teyo, que fazia uma careta e leu meus olhos interrogadores e disse: "Foi Beleren das Sentinelas. Ele disse: 'Recuar. Precisamos de um plano. Contatem cada Planeswalker e mestre de guilda que encontrarem. Encontrem-nos no Senado Azorius. Agora'."
Acho que temos novas ordens~
22 de Maio de 2019 | Por Greg Weisman
Reunindo os Relutantes
#align(center)[I.]
O Senhor Jace Beleren, o antigo Pacto das Guildas Vivo, dera a ordem telepática: Recuar. Precisamos de um plano. Contatem cada Planeswalker e mestre de guilda que encontrarem. Encontrem-nos no Senado Azorius. Agora.
Bem, existe o agora, e existe o agora.
A Senhora Kaya ainda estava determinada a chegar primeiro em Orzhova e, cerca de dez minutos depois, comigo e com o Teyo ainda a tiracolo, ela conseguiu.
Mas logo pareceu que seria a única coisa em que ela teria sucesso.
Ela foi imediatamente recebida pela Madame Blaise, sua serva-chefe. Em uma tentativa de reunir os Orzhov para lutar contra Bolas e seus Eternos, a Senhora Kaya pediu que Madame Blaise convocasse uma reunião com as autoridades do Sindicato, começando pela Matriarca Teysa Karlov, chefe da principal família de oligarcas dos Orzhov.
Cinco minutos depois, a Matriarca Karlov enviou seus pedidos de desculpas, alegando que ainda estava confinada em seus aposentos, mas já tendo providenciado para que uma (já frustrada e brava) Senhora Kaya se encontrasse com um trio de figurões, cada um dos quais tinha, eu acho, assumido mais poder sobre a igreja desde que Kaya assassinara seus antigos governantes, o conselho fantasmagórico Obzedat. Conhecidos coletivamente como o Triunvirato, esses figurões entraram um de cada vez, cada um acompanhado por um pequeno thrull em uma coleira que não fazia nada — até onde eu podia ver — exceto fazer seus mestres parecerem mais importantes.
O Pontífice Armin Morov era um humano, o patriarca dos oligarcas Morov. Ele era muito velho, com a pele acinzentada e absolutamente nenhum cabelo, parecendo muito bem preparado para se juntar a um Obzedat reformado. O Mestre do Dízimo Slavomir Zoltan era um vampiro perigosamente atraente. E a Senhora Maladola era uma anjo, uma desertora de longa data da Legião Boros, que agora atuava como a principal guerreira-executora dos Orzhov.
A Senhora Kaya também pediu para Madame Blaise buscar o Senhor Tomik Vrona, que era o assistente da Matriarca Karlov. Mas Madame Blaise voltou para relatar que o Senhor Vrona não pôde ser encontrado e aparentemente não estava dentro das paredes da catedral. Eu sabia, por seguir o Mestre Zarek e a Senhora Kaya para a Hekara, que Tomik era amigo de Kaya, e pude ver e sentir a frustração dela desaparecer, instantaneamente substituída por preocupação, dadas as condições atuais das ruas de Ravnica.
Então, com o Senhor Vrona ausente e a Matriarca Karlov se abstendo, nós seis — ou nove, se você contar os thrulls — entramos em um Gabinete Grande, grande o suficiente para comportar dez vezes aquela quantidade de gente. E o Triunvirato não se sentou perto — nem da Senhora Kaya nem uns dos outros — forçando todos a gritar tudo o que era dito para serem ouvidos sobre seus próprios ecos.
A Senhora Kaya tentou explicar sobre os perigos que Bolas e os Eternos representavam para Ravnica, as guildas e os Planeswalkers.
O Pontífice Morov, em meio a um elaborado pedido de desculpas à sua nova mestre de guilda planeswalker, não via por que Planeswalkers deveriam ser de qualquer preocupação para os Orzhov. "Ainda assim", concluiu ele, "fico feliz em emitir um edito da igreja condenando a colheita destas~'Centelhas de Planeswalker' por parte dos Eternos? É esse o termo correto? Bem, não importa. Vamos ajustar a redação."
O Mestre do Dízimo Zoltan não conseguia justificar o gasto de se juntar à batalha. "Os dízimos caíram nestes tempos difíceis. E não ajudou que você continue perdoando dívidas, mestre de guilda. Vamos deixar as coisas se assentarem, sim? A economia da guerra pode parecer muito melhor depois que ela acabar. Uma fase de reconstrução na cidade sempre traz mais receita."
A Senhora Maladola foi a única dos três que pareceu mesmo que vagamente inclinada a ajudar. De qualquer forma, ela falou brevemente de sua vontade de se juntar à luta. Mas o Mestre do Dízimo Zoltan lançou-lhe um olhar de sobrancelha erguida, e o Pontífice Morov balançou sua cabeça bochechuda muito levemente, e a executora mudou rapidamente de tom. "Se nossa nova mestre de guilda liderar a carga, tenho certeza de que os executores da igreja ficarão satisfeitos em fornecer a ela uma guarda de honra — ao menos para acompanhá-la até a reunião de cúpula no Senado Azorius."
"Não preciso de uma guarda simbólica. Sei me cuidar. Vocês não estão entendo o—"
"Por favor, mestre de guilda. Nós insistimos. Não é mesmo?"
O Mestre do Dízimo Zoltan e o Pontífice Morov concordaram que sim, com o vampiro acrescentando que "as aparências, ao menos, exigem que você seja acompanhada até o Senado."
E nem um passo além. . .
A Senhora Kaya olhou tão furiosa que achei que ela pudesse pegar fogo. "Ouçam-me", disse ela, tentando esfriar sua raiva. "Vocês não parecem compreender o perigo que este mundo inteiro está enfrentando."
O pontífice disse: "Imagino que se as coisas forem tão graves, o Pacto das Guildas Vivo finalmente mostrará o rosto e resolverá as coisas."
"Beleren já mostrou o rosto. Ele está aqui e lutando ao lado de todos nós. Ele faz parte desta organização, as Sentinelas, que pelo que entendi~protege o Multiverso de ameaças como Bolas. Ele e outro Planeswalker, Gideon Jura, estão fazendo o melhor para liderar as forças que se opõem ao Bolas. Mas como Pacto das Guildas Vivo ele perdeu sua autoridade, seus poderes. Ele não pode simplesmente resolver isso para nós. Depende de—"
A anjo franziu a testa e disse: "Sem sua autoridade e poder, de que serve o homem?"
"De fato", disse o vampiro, "Por que seguiríamos alguém que desperdiçou tais oportunidades?"
O companheiro humano deles acrescentou: "Talvez o mais prudente seria recuar nossas forças para uma posição defensiva aqui na Catedral Opulenta e esperar as coisas passarem. Em alguns dias, a situação pode parecer muito diferente."
"Em alguns dias", a Senhora Kaya fervia, "'a situação' pode parecer irrecuperável."
"Bem", o pontífice concluiu, "suponho que saberemos em breve, mestre de guilda."
Saímos do gabinete juntos, mais ou menos. O Triunvirato estava ansioso para seguir seus caminhos mas se atrasou quando as coleiras dos thrulls do pontífice e do mestre do dízimo se emaranharam.
Enquanto eles resolviam aquilo — com uma dificuldade quase cômica — ouvi um som de passos pesados atrás de mim. Virando-me, vi um gigante blindado — com uns três metros e meio de altura e um elmo que não revelava traço algum — se aproximar da Senhora Kaya.
"Mestre de guilda", ele trovejou através do elmo, "sou Bilagru, executor-chefe da Igreja Militante. Me disseram que a senhora poderia precisar dos meus serviços."
Gigante Portador de Dízimo | Arte de: Wisnu Tan
A Senhora Maladola disse: "Bem, mestre de guilda, talvez possamos construir sua Guarda de Honra ao redor deste grande pilar."
Tanto a Senhora Kaya quanto o gigante a ignoraram. Ela disse: "Você é um executor, encarregado de cobrar as dívidas do Sindicato?"
"Precisamente, mestre de guilda."
"Você não concordaria então que as dívidas da guilda serão consideravelmente mais difíceis de cobrar se os Eternos do dragão assassinarem cada devedor em Ravnica~junto com cada descendente dos devedores — sem mencionar cada membro do Sindicato?"
O Senhor Bilagru assentiu para ela e resmungou: "Fantasmas e espíritos comandam as coisas dentro de Orzhova há tanto tempo que todos esquecem que a maior parte da cobrança é feita pelos vivos. Posso levar meus executores — e o que eu puder reunir do poderio militar do Sindicato — para as ruas~para 'proteger' os investimentos dos Orzhov."
"Isso, Executor-Chefe, seria muito apreciado por sua mestre de guilda."
"Vivo para servir."
O Pontífice Morov começou a objetar, mas a Senhora Kaya virou-se para ele rapidamente: "Há, é claro, outra alternativa. Posso tornar toda cobrança de dívidas irrelevante, perdoando cada uma das dívidas neste exato instante."
O pontífice, parecendo ligeiramente em pânico, imediatamente (e literalmente) recuou — quase tropeçando em seu thrull emaranhado no processo. "Não, mestre de guilda. Nada tão extremo será necessário."
"Muito do que é extremo será necessário antes que este dia termine", ela rebateu, conforme — com os thrulls finalmente desenredados — o Triunvirato se retirava.
A Senhora Kaya virou-se para Teyo e para mim. "Hora de ir."
Senti-me muito importante — e também bem sozinha — ao entrar no Senado ao lado da Senhora Kaya e do Teyo. Eu ansiava por encontrar a Hekara no meio da multidão, descobrir que tudo tinha sido um grande erro e que ela ainda estava viva.
Mas não apenas ela não estava lá, como ninguém do Culto de Rakdos apareceu para a cúpula. Nos disseram que o Lorde Rakdos culpava o Mestre Zarek, a Senhora Kaya, a Senhorita Lavínia e a Senhora Vraska (que também não estava lá) pela morte da Emissária Hekara e se recusara a enviar qualquer representante em protesto.
Da mesma forma, com a Senhora Vraska sumida, não havia ninguém do Enxame Golgari. E corria o boato pela câmara de que o Burro do Domri estava morto. Acontece que ele era um Planeswalker e teve sua Centelha colhida por um Eterno. (Akamal e as gêmeas foram com ele. Fiquei imaginando se eles morreram também.) Enfim, ninguém dos Clãs Gruul estava aqui tampouco. Como tanto Golgari quanto Gruul tinham ficado sem líderes, sem ninguém — ou gente demais — assumindo o comando, suponho que não conseguiram convocar ninguém para a cúpula.
A Casa Dimir também parecia não ter vindo, e o Conclave Selesnyano tinha recuado para trás de suas fronteiras. O que significava que metade das dez guildas não estava oferecendo ajuda nenhuma para a causa.
Olha, se eu, uma Sem-guilda, sou a pessoa mais próxima de ser uma embaixadora Gruul, Rakdos ou Selesnyana, estamos todos encrencados. Apresentável eu não sou~
As coisas não estavam muito melhores com as outras guildas também.
O mestre de guilda do Senado Azorius, o já infame Dovin Baan, estivera — como a Senhora Vraska — trabalhando com o Bolas. Ele não estava presente na cúpula, mesmo em sua própria sede de poder. A Senhorita Lavínia e alguns Azorius das antigas estavam aqui, tendo desautorizado formalmente Baan e sua liderança. Mas eles não tinham autoridade real sobre sua guilda. Os estatutos do Senado ainda listavam Baan como mestre de guilda, e os Azorius adoram seus estatutos.
Dovin, Mão de Controle | Arte de: Kieran Yanner
E o Sindicato Orzhov? Bem, a Senhora Kaya conseguiu a Guarda de Honra que não pedira, e chuto que o Chefe Bilagru levara seus executores para as ruas para matar Eternos. Mas de resto, a Matriarca Karlov e o Triunvirato mal fingiam estar do lado de sua mestre de guilda. Como o Mestre Zarek comentou pesarosamente, os Orzhov eram "pão-duros para pagar qualquer coisa, fingimento inclusive."
Contando tudo, isso significava que apenas a Liga Izzet (liderada pelo Mestre Zarek e pela Camareira Maree), a Legião Boros (liderada por sua mestre de guilda, a Senhora Aurélia) e o Conluio Simic (liderado pelo Senhor Vorel, teoricamente com o apoio total de sua mestre de guilda, a Oradora Primária Vannifar) tinham comparecido em peso.
Eu estava bisbilhotando o Mestre Zarek — ainda honrando o pedido da Hekara sem motivo nenhum — quando ele perguntou à Camareira Maree: "Cinquenta por cento não será o suficiente, não importa como a gente esprema isso, vai?"
Ela olhou para ele com gravidade. "Sinto muito, mestre de guilda. Mas nem noventa por cento será o suficiente. Tentamos jogar com as porcentagens da última vez. Quando Niv-Mizzet estava vivo, poderíamos ter conseguido com oito das dez guildas. Com ele morto~"
Então o Mestre Niv-Mizzet também morreu~
Parecia que tinha todo tipo de gente que eu vira recentemente — Hekara, Niv-Mizzet, o Burro do Domri — que saía e morria logo depois. Decidi ficar o mais perto possível do Teyo e da Senhora Kaya.
O Mestre Zarek disse: "Com a Mente de Fogo morta, a única opção é a Operação Desespero."
Operação Desespero?
"E para que ela tenha sucesso", a Camareira Maree acrescentou, "você precisará da cooperação das dez entre dez guildas. Não pode haver exceções."
O Mestre Zarek assentiu. "Traga-me opções", foi tudo o que ele disse, embora não parecesse exatamente esperançoso de que haveria alguma.
Mas a camareira assentiu secamente e se afastou cumprindo seu dever.
O Senhor Jura e o Senhor Beleren estavam parados em frente à falecida Senhora Isperia, antiga mestre de guilda do Senado Azorius, atual estátua decorando o Salão do Senado.
Eu estava bisbilhotando de novo — e não precisa me dizer que é um hábito feio, eu já sei.
Mas também é um hábito útil. Às vezes, um necessário~
O Senhor Beleren resmungou: "Esfinges. Causam mais problemas que dragões."
O Senhor Jura ergueu uma sobrancelha.
O Senhor Beleren corrigiu-se tardia e relutantemente: "Que todos os dragões, menos um."
"Não sabia que você tinha tanto problema com esfinges."
"Alhammarret. Azor. Isperia. Nunca conheci uma esfinge que não fosse arrogante, indiferente e um pé no meu—"
"Calma, calma. Isperia fez muito bem em Ravnica. Na verdade, se Vraska não tivesse transformado ela em pedra, poderíamos estar em uma situação muito melhor—"
"A vingança de Vraska foi bem merecida!" A voz do Senhor Beleren era um sussurro baixo e quieto — que me forçou a chegar um pouco mais perto para ouvir — mas sua paixão era óbvia. "Você não a conhece. Você não conhece a história dela."
"Suponho que não conheça", o Senhor Jura disse com certa surpresa.
Ocorreu-me então que o Senhor Beleren estava ao menos um pouquinho apaixonado pela Senhora Vraska. Pensei sobre isso e achei que eles formariam um casal bem fofo.
O Senhor Jura colocou uma mão calmante no ombro do Senhor Beleren. No começo, este último cavalheiro pareceu pronto para mandar ele parar~mas ele respirou fundo e até conseguiu um sorriso fraco.
"Precisamos começar", disse o Senhor Jura. "Quanto mais tempo ficarmos sequestrados aqui dentro, mais estrago o Bolas e seu exército podem fazer lá fora. Então tire um minuto. Componha seus pensamentos, e vamos dar início a esta reunião."
O Senhor Beleren assentiu e começou a se afastar — antes de parar para dizer: "Você é um bom amigo, Gideon. Não sei se já te disse isso."
O Senhor Jura riu. "Tenho certeza que não disse. Mas para ser justo, acho que também nunca disse isso para você~velho amigo."
O Senhor Beleren sorriu de novo, parecendo simultaneamente um garoto e um velho. Ele era magro, em forma, bronzeado e aparentemente apaixonado. Mas o peso do ataque de Bolas claramente pesava em seus ombros levemente curvados, e isso revelava a idade em seu rosto.
Observando-o ir, o Senhor Jura empertigou as costas e depois virou-se para varrer a multidão, que era escassa em representação das guildas — mas pesada em Planeswalkers, incluindo ele mesmo e o Senhor Beleren, o Mestre Zarek, a Senhora Kaya, o Teyo e muitos, muitos mais — muitos cujos nomes eu ainda não tinha pegado. Um dos Planeswalkers tinha até trazido o cachorro dele, que tinha duas caudas e o pelo mais macio.
Mowu, Companheiro Leal | Arte de: Kimonas Theodossiou
O Senhor Dack Fayden, um psicometrista e ladrão local, cujo excelente trabalho nesta última disciplina eu vinha estudando furtivamente nos últimos anos, revelou ser outro Planeswalker, meio que explicando como eu perdi o rastro dele em mais de uma ocasião. Ele estava flertando um pouco com a Senhorita Rai, elogiando o estilo e o corte do vestido dela — enquanto olhava as joias de filigrana de ouro que ela usava por toda a pessoa. Ela parecia ao mesmo tempo lisonjeada e cautelosa, o que parecia apropriado.
O Senhor Beleren voltou, assentindo para o Senhor Jura, que assentiu de volta. Era a hora, suponho. Então corri de volta para o Teyo e a Senhora Kaya.
Teyo perguntou: "O que você estava conversando com eles?"
"Eu ouvi mais do que falei."
Ele sorriu para mim. "Você? Ouviu? Sério?"
Dei uma cotovelada nas costelas dele. Ele disse: "Ai", mas não perdeu o sorriso. É um sorriso muito bonito.
Oh, puxa. Não se acostume, Araithia. Ele é um walker, e quando essa luta acabar, ele vai simplesmente 'walk' para longe. . .
Juntos, observamos o Senhor Beleren e o Senhor Jura darem um passo à frente no estrado. O Senhor Beleren amplificou sua voz magicamente para preencher o salão: "Vamos dar início à ordem, por favor. Precisamos de um plano."
"E vocês dois gênios estratégicos acham que conseguem bolar um?" A voz cavernosa, destilando sarcasmo, não precisou de amplificação nenhuma para ser ouvida. Veio de um homem-demônio no canto, um Planeswalker. Ob Nixilis, chamavam-no, e quase todo mundo estava dando uma larga distância dele — exceto o Senhor Planeswalker-de-Bigodinho-de-Lápis, que mais cedo tinha feito um esforço sincero (com motivos insinceros, talvez) para se tornar amiguinho do Senhor Ob-Feioso.
Um murmúrio baixo subiu da multidão. Ninguém parecia gostar do homem-demônio, mas ficou claro que muitos compartilhavam da opinião dele. O mandato do Senhor Beleren como Pacto das Guildas Vivo fora~inconsistente, e sua liderança não era universalmente reconhecida pelos Ravnicanos. Ou pelos Planeswalkers, aparentemente.
O Senhor Jura deu um passo à frente e falou com sua própria voz profunda e alta (sem necessidade de amplificação): "Haverá tempo para que todos deem sua opinião. Mas ficar aqui parados resmungando uns com os outros não vai nos levar a lugar nenhum. Então que tal guardarmos os comentários maldosos por enquanto e ouvirmos?"
Houve outro murmúrio coletivo, mais breve, mas foi seguido por um silêncio desconfortável que o Senhor Beleren aproveitou: "Enfrentamos uma série de problemas. Cinco, para ser exata. Alguns de vocês estão cientes de todos eles, mas muitos acabaram de chegar e não tiveram a oportunidade de entender a imagem completa. Então permitam-me oferecer alguma clareza agora."
Ele lançou um olhar para o Mestre Zarek, que deu de ombros. Então o Senhor Beleren continuou: "Um. O Farol dos Izzet está atraindo cada vez mais Planeswalkers desavisados para Ravnica, onde correm o risco de se tornarem mais combustível para o poder de Bolas."
Como se combinado, outro Planeswalker se materializou no meio da multidão em meio a um clarão de luz turquesa. Era um homem mais velho com olhos turquesa e uma barba branca cuidadosamente aparada. O Senhor Jura inclinou-se e sussurrou algo para o Senhor Beleren, mas eu estava longe demais para ouvir.
O Senhor Senhor Beleren suspirou pesadamente e prosseguiu: "Precisamos desativar o Farol, que está sob guarda dos Izzet e Azorius na apropriadamente chamada Torre do Farol. Chegar lá pode ser difícil, mas o problema real é a máquina em si, que foi construída com salvaguardas para impedir que Bolas a desligasse."
"Brilhante", bufou o minotauro planeswalker que eu vira se materializar na praça mais cedo naquele dia. "Como vocês tolos amam fazer exatamente o jogo do dragão."
Do outro lado da sala, a Senhorita Huatli rebateu: "Como você fez ao vir para cá?"
O minotauro bufou de novo — mas não disse mais nada. Decidi que gostava bastante da Senhorita Huatli.
Huatli, Coração do Sol | Arte de: Lius Lasahido
O Senhor Beleren voltou à carga: "Problema número dois. O Sol Imortal. Uma vez que o Farol convoca os Planeswalkers para Ravnica, o Sol os mantém presos aqui. Então, como o Farol, precisamos desligar o Sol. Ele não fica longe daqui em uma das torres de Nova Prahv, guardado pelo novo mestre de guilda Azorius, Dovin Baan, que descobrimos ser um lacaio de Nicol Bolas.
"Três. A Ponte Interplanar de Amonkhet permite que um exército aparentemente sem fim de Eternos entre em Ravnica e mate os Planeswalkers atraídos pelo Farol e mantidos pelo Sol. Temos que desligá-la, e só podemos fazer isso do lado de Amonkhet."
A Senhorita Samut gritou: "Mas como? Tentei transplanar de volta para Amonkhet, mas o Sol Imortal—"
O Senhor Beleren ergueu uma mão, dizendo: "Eu sei. E não podemos esperar que o problema dois seja resolvido. Então usaremos o próprio portal~para viajar até Amonkhet."
A Senhorita Ballard zombou: "Enquanto os Eternos marcham para fora dele? Isso parece um ótimo plano para cometer suicídio."
O Senhor Beleren de fato sorriu com isso. "Há passos que poderíamos tomar para tornar isso apenas um plano medíocre para cometer suicídio."
"Tô dentro", disse a Senhorita Samut.
O Senhor Beleren agradeceu-lhe com outro sorriso. Mas, virando-se para o Senhor Jura, seu sorriso desapareceu rapidamente, e quando falou novamente, foi como se estivesse dirigindo seu próximo ponto apenas ao Senhor Jura, como se meio que esperasse que ele o desafiasse. "Problema quatro. Liliana Vess. Ela está claramente controlando os Eternos para o Bolas."
Ah. O nome da Senhorita Cabelos-de-Corvo é Liliana Vess. Bom saber.
"Precisamos garantir que ela não possa mais fazer isso. Nunca mais."
O Senhor Jura nada disse.
O Senhor Beleren exalou em alívio, ruidosamente — suas cordas vocais amplificadas magicamente tornavam cada pequeno som ridiculamente audível. "Finalmente, cinco. Bolas, ele mesmo. Embora se não conseguirmos lidar com os quatro primeiros problemas, o quinto é bem desesperador."
Outra onda de murmúrios ecoou aquele sentimento de desesperança.
O Senhor Jura deu um passo à frente: "Existe um sexto problema. Temos a responsabilidade de proteger os Ravnicanos comuns, já que nenhum estaria em perigo se não fosse pela fome de Bolas por Centelhas de Planeswalker."
O Senhor Beleren colocou a mão no ombro dele. "Está certo. Seis problemas."
"Sete." Foi o Mestre Zarek. "Precisamos reconstituir o Pacto das Guildas unindo as dez guildas. Sem o poder combinado do Pacto das Guildas, nunca teremos uma chance real contra o dragão."
"Você já tentou isso", gritou o Senhor Vorel, apontando para os restos da Senhora Isperia. "Olhe o resultado. Isperia está morta, e hoje você não conseguiu reunir nem representantes de todas as dez guildas durante o momento de maior crise de Ravnica. O que no mundo faz você pensar que consegue reconstituir o Pacto das Guildas agora?"
Outra onda de murmúrios ameaçou se tornar um rugido, mas o Mestre Zarek amplificou sua própria voz com magia. Ela zumbia e estalava conforme ele falava sobre a multidão: "Honestamente não tenho certeza se conseguimos. Mas devemos tentar. A Mente de Fogo deixou para trás um estratagema final. É um pouco desesperado—"
"Mais desesperado que o último estratagema dele?" o Senhor Vorel perguntou, incrédulo.
"Sim, de fato", o Mestre Zarek reconheceu. "Mas pode ser nossa única chance."
"Tudo bem", disse o Senhor Beleren, antes que a multidão pudesse se fragmentar em facções discutindo. "Sete objetivos — ou seis, de qualquer forma, se subtrairmos ir atrás do Bolas por enquanto. Proponho dividir nossas forças coletivas para alcançar esses objetivos."
Os murmúrios recomeçaram instantaneamente. E o burburinho não era nada entusiasmado. Um Planeswalker, um aven cujo nome eu não sabia, disse: "E se nos rendêssemos? Nos lançássemos à misericórdia de Bolas."
O Senhor Fayden virou-se para o aven e disse: "Não acho que Bolas seja do tipo misericordioso. Você provavelmente não viu, mas um Planeswalker chamado Domri Rade tentou mudar de lado e se aliar ao dragão. Ele foi o primeiro Planeswalker colhido."
Outra Planeswalker, uma mulher com cabelos negros como piche e olhos verdes brilhantes, disse: "Então vamos nos esconder. Em algum momento, o próprio Bolas vai querer transplanar. Ele fará Baan desligar o Sol Imortal, e todos nós poderemos escapar."
O Senhor Vorel, ficando mais bravo a cada minuto, gritou: "Essa é a sua solução? Esconder-se e abandonar Ravnica para os Eternos e o dragão? Vocês Planeswalkers são a razão de Bolas estar aqui, a razão de Ravnica estar em perigo." Ele virou-se para o aven. "Mas gosto da sua ideia. A rendição — uma rendição forçada, se necessário — do seu tipo permitiria que Bolas comesse até se fartar. Uma vez saciado, ele deixará Ravnica em paz."
"Bolas nunca se sacia", disse uma voz amargamente. Era mais uma Planeswalker. Uma mulher carregando um arco longo.
Uma Senhorita Samut igualmente amarga concordou. "Essa é a verdade."
"Certo", disse o Senhor Vorel. "Mas deixem-me ser claro. Se vocês Planeswalkers se esconderem enquanto Ravnica queima, encontrarão pouca ajuda ou socorro de seus cidadãos e guildas."
De repente, o Senhor Jura virou-se para o Senhor Beleren e disse: "Talvez nós devêssemos nos render."
O Senhor Beleren parecia bem exasperado. Fiquei com pena dele, sabe?
A Senhorita Samut deu um passo à frente. "Gideon Jura, é nobre da sua parte desejar fazer tal sacrifício. Mas não se esqueça do destino de Amonkhet." Ela virou-se para encarar a multidão. "Bolas deixou o meu mundo completamente desolado. Mesmo agora, um punhado de sobreviventes luta para derrotar os monstros que Nicol Bolas deixou para trás para nos massacrar. Bolas não deixará Ravnica como a encontrou."
"Bolas. Nunca. Se. Sacia", a Senhorita do Arco Longo repetiu. "Não restou literalmente nada do meu mundo, Skalla, graças a ele. O dragão deve morrer."
Houve gritos de "SIM!" com isso — seguidos por mais gritos que foram, sabe, menos apoiadores e menos educados. Estava tudo desmoronando.
A Senhorita Lavínia tomou a palavra: "Uma coisa é certa. Se lutarmos entre nós, não teremos chance contra Bolas."
A Senhora Aurélia gritou: "Apoiado, apoiado! O destino de Amonkhet e Skalla não deve recair sobre Ravnica."
Notei o Senhor Juba d'Ouro estender a mão para o Senhor Jura, que a pegou e desceu do estrado. O Senhor Juba d'Ouro disse: "Lembre-se do seu Juramento. O Juramento das Sentinelas. A rendição não é a resposta, meu amigo. A arqueira está certa, e você sabe disso. Alguém como Bolas nunca ficará saciado, nem mostrará misericórdia. Ele vê tais coisas como fraqueza, e qualquer tentativa de tal apelo apenas aumentaria seus apetites."
O Senhor Jura absorveu aquilo e assentiu. Então ele caminhou até o centro da multidão, movendo-se entre Planeswalkers e membros de guilda por igual. Ele falou, e todos ouvimos. "Agora que todos sabem da nossa existência, vocês poderiam ser perdoados por acreditarem que nossa habilidade de atravessar mundos é uma desculpa para um Planeswalker sempre fugir de uma luta. Mas nós das Sentinelas fizemos um Juramento de sempre ficar. Foi uma escolha que tínhamos o luxo de fazer e, de alguma forma, pensamos que essa escolha nos tornava superiores. Agora estamos entre vocês com essa escolha tirada de nós. Agora a escolha é se vamos lutar."
Ele desembainhou sua espada larga preta com um bocado de estilo. "Esta é a Lâmina Negra. Ela já matou um Dragão Ancião e pode destruir Bolas também. Com ela, por meio desta juro retomar este mundo. Quem está comigo?"
Seu discurso despertou a multidão inteira — ou quase toda. As pessoas começaram a se reunir ao redor dele. O Senhor Juba d'Ouro colocou a mão no ombro dele, e esse simples gesto pareceu agir como um tipo de gatilho. De todos os lados, Planeswalkers e Ravnicanos estenderam as mãos para tocar o Senhor Jura ou — se mais atrás, como o Teyo, a Senhora Kaya e eu — para tocar alguém que o estivesse tocando, como se para extrair força da força da convicção dele.
Foi bem legal. Todos tivemos um momento real ali por um segundo ou dois.
Bem, todos nós menos o Senhor Fayden, que se esgueirou por trás da Senhorita Kiora para afanar um toque sem luva no seu bidente chique e brilhante com sua psicometria — e acabou ficando com uma cara de quem se arrependeu de cada escolha de vida que já fez.
Eu estava meio que dando um risinho com aquilo quando um pequeno goblin Izzet entrou por uma porta de sacada, gritando: "Mestres, um daqueles Deuses-Eternos se aproxima, à frente de um pequeno exército daqueles esquisitões mortos-vivos! Vocês têm uns onze minutos e meio antes que eles cheguem aqui!"
O Senhor Beleren gritou: "Seis desafios! Seis missões! Precisamos de voluntários! Agora!"
A Senhora Kaya começou a ir à frente — mas o Mestre Zarek a interceptou: "Preciso da sua ajuda para a missão sete."
"Desculpe", disse ela, "perdi a conta. Qual é a sete?"
"Operação Desespero."
29 de Maio de 2019 | Por Greg Weisman
Agentes Desesperados
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Encontrar uma maneira de recrutar o Senado Azorius — com seu mestre de guilda colaborador do dragão malvado, Dovin Baan — e de contatar a Casa Dimir — com seu misterioso mestre de guilda metamorfo, Lazav — foi designado, suponho, a outros voluntários.
Mas o Mestre Zarek e o Senhor Beleren encarregaram a Senhora Kaya de trazer as outras quatro guildas desgarradas — o Enxame Golgari, o Culto de Rakdos, os Clãs Gruul e o Conclave Selesnya — para a mesa para a Operação Desespero.
Seja lá o que for isso~
Eles alegaram que, por ser uma forasteira, ela traria menos bagagem (e suspeita) para o esforço do que o próprio Mestre Zarek traria. Mas como mestre de guilda, ela ainda traria autoridade e prestígio suficientes para comandar — ou pelo menos ter concedidas — as audiências necessárias com cada guilda.
Pude ver que a Senhora Kaya estava relutante, duvidosa de suas chances de sucesso. Inclinei-me e sussurrei para ela aceitar. "Posso te ajudar com os Gruul, Selesnya e—" eu estava prestes a adicionar Rakdos, mas me detive. Com a Hekara morta, eu não tinha mais entrada no Culto. Terminei sem jeito: "É, com os Gruul e Selesnya."
Nossa primeira parada seria Selesnya, que a Senhora Kaya esperava ser a mais fácil das quatro. Teyo e eu estávamos com ela, é claro.
Digo, "É claro." Mas é estranho como parece tão automático. Nos tornamos o séquito leal dela em questão de horas.
E a Senhorita Nissa Revane veio conosco também, pois o Senhor Beleren esperava que ela se desse bem com a Milady Emmara Tandris, campeã élfica e mestre de guilda interina de Selesnya.
Infelizmente, conseguir uma audiência com a Milady Emmara estava se provando difícil. Para começar, tínhamos que evitar a quantidade substancial de esquisitões liderados por um Deus-Esquisitão chamado Rhonas que estava a poucos minutos de atropelar o apinhado Senado e eliminar toda a oposição significativa de Bolas de uma só vez.
Mas eu sou útil às vezes. Como disse à Senhora Kaya, conheço a maioria das rotas secretas por Ravnica e consegui liderar nosso pequeno quarteto por passagens, becos e atalhos que os invasores de Amonkhet não tinham como conhecer.
A Senhorita Revane, que geralmente falava muito pouco — ou quase nada, na verdade — pareceu impressionada o suficiente com a velocidade do nosso progresso para de fato dizer algumas palavras. "Você conhece bem a cidade", disse ela à Senhora Kaya, que estava logo atrás de mim. Acho que a Senhora Kaya achou que a Senhorita Revane estava falando comigo, então nem se deu ao trabalho de responder. Por meus próprios motivos, eu também não respondi.
Topamos com um único — e inevitável — grupo de Eternos, procurando por mais vítimas, suponho. O Teyo ergueu um escudo e, por trás dele, a Senhorita Revane pediu permissão a uma velha bétula, que prontamente fez crescer múltiplos galhos que perfuraram os cérebros de cada crânio de lazotep antes de se retraírem. O ataque foi tão rápido que dois ou três segundos se passaram antes que os esquisitões começassem a cair no chão, bem mortos mesmo.
Encontramos o Conclave bem fortificado. E pouco hospitaleiro. Uma longa linha de guardiões Ledev e arqueiros sagitários bloqueava nosso caminho. Ninguém nos deixava passar, mesmo em nossa missão diplomática. A Senhorita Revane, em particular, parecia ser a inimiga número um por ter despertado Vitu-Ghazi, resultando na partida, desmembramento e destruição quase completa da Árvore-Mundo.
Então foi assim que Vitu-Ghazi foi parar na Praça do Décimo Distrito! A Senhorita Revane é mais impressionante do que parece. E para mim ela já parece bem impressionante.
Achei melhor começar a fazer algo impressionante — ou pelo menos semi-impressionante — se eu fosse honrar minha gabolice de antes. Contornei a linha Ledev e então me esgueirei para dentro entre dois guardiões distraídos. Não precisei ir muito longe.
Ele já estava saindo: meu padrinho, Guardião da minha Promessa de Vida, o mestre de lanças Selesnyano Boruvo. O centauro tinha sido do Clã Gruul uma vez — e o melhor amigo dos meus pais — mas encontrara um chamado em Selesnya e mudara de guilda há uns dez anos. Isso criou uma rachadura, espero que não permanente, com o meu pessoal, mas para mim foi uma benção. O Mestre de Lanças Boruvo estava sempre tentando me convencer a me juntar a Selesnya. Ele deixava bem claro que não acreditava que os Gruul fossem o lugar certo para mim. (O que também não ajudava muito o relacionamento dele com minha Ari e o Gan Shokta.) Continuei Sem-guilda, mas ele e eu ficamos muito próximos. (O que especificamente não ajudava muito o relacionamento dele com meu pai.) Agora, precisando da ajuda dele, gritei: "Padrinho!"
Ele se virou, e sua expressão severa (normalmente parecida com a de um Gruul) simplesmente se iluminou! "Afilhada", disse ele. "Você não deveria estar por aí. São tempos perigosos."
"Acho que estou tão segura quanto qualquer um. Mais segura que a maioria."
"É, suponho que sim."
"Preciso de um favor, padrinho."
"Qualquer coisa, criança."
"Venha comigo cumprimentar a nova mestre de guilda Orzhov, por favor."
Ele gemeu.
"Ela é minha amiga, padrinho."
Ele ergueu uma sobrancelha, intrigado. "Hum. Sobe aí", disse ele.
"Sério?"
Ele não respondeu, apenas se abaixou e me balançou para cima, nas costas dele, como costumava fazer quando eu era criança. Dei um risinho alegre como se eu ainda fosse criança. E ele trotou até a linha de guardas.
Ouvi o Teyo gritar: "Cadê a Araithia?"
A Senhorita Revane perguntou: "Quem?"
Antes que a coisa ficasse confusa, gritei: "Aqui!"
O Teyo e a Senhora Kaya se viraram para me ver cavalgando no centauro atrás da linha Ledev. A Senhora Kaya pareceu chocada. Os guardiões Ledev se abriram, curvando-se, para deixar o centauro passar.
Eu disse: "Senhora Kaya, Teyo Verada~e Senhorita Revane, permitam-me apresentar meu padrinho, o Mestre de Lanças Boruvo."
O centauro curvou a cabeça para a Senhora Kaya e para o Teyo, sucessivamente, mas pareceu fazer questão de não se curvar para a elfa, que observava tudo em silêncio, parecendo extremamente desconfortável o tempo todo.
Acho que comecei a tagarelar então: "Boruvo foi do Clã Gruul uma vez, antes de se juntar a Selesnya. Ele é um bom amigo dos meus pais. E eles fizeram dele meu padrinho. Digo, ele era a escolha óbvia, a única escolha prática, quando se para pra pensar. Acho que meu pai sempre teve um pouco de ciúmes da minha relação com o Boruvo. Não que tenha sido por isso que o Boruvo deixou o Clã. Ele teve um chamado, entende. Ele acha que eu tenho um também, e quer muito que eu deixe os Gruul e me junte a Selesnya. E às vezes sinto que esse é o caminho certo para mim. Mas acho que sou bem indecisa quando se trata de—"
O Mestre de Lanças Boruvo limpou a garganta e disse: "Afilhada."
"Estou divagando de novo, né?"
"É compreensível. Mas acredito que temos negócios a tratar." Ele se voltou para a Senhora Kaya e para o Teyo, dizendo: "Quem tem o bom gosto de notar a nossa Araithia merece uma chance de ser ouvido."
Mais uma vez, a Senhorita Revane inclinou-se para sussurrar: "Quem é essa Araithia?"
Nissa, Abaladora de Mundos | Arte de: Chris Rallis
Pude ver que a Senhora Kaya estava prestes a dizer a ela que "Araithia" era eu, a Rat. Mas eu só sorri e balancei a cabeça, e a Senhora Kaya virou-se para observar a Senhorita Revane. Ela estava olhando diretamente para mim e no entanto olhando direto através de mim, como se eu nem estivesse ali.
E então — puf — finalmente caiu a ficha para a Senhora Kaya. De repente ocorreu a ela que eu era basicamente invisível para a Senhorita Revane. Eu conseguia praticamente ver a Senhora Kaya lembrando de todas as nossas interações recentes. (Além disso, eu conseguia ler mais ou menos o resumo dos pensamentos dela.) Ela pensou na reação ou não reação do Mestre Zarek em relação a mim — e na maneira como todo mundo combinava o meu nome e o do Teyo quando ele nos apresentava. Ela estava começando a sacar que eu era meio invisível para todo mundo, exceto para o Teyo, o Boruvo e ela mesma. Meio invisível até para o meu próprio pai.
Eu disse: "Não é invisibilidade exatamente. Explico depois."
Isso foi meio que outra pista. Agora, a Senhora Kaya estava começando a suspeitar que eu era um pouquinho psíquica, o que eu sou. Não que ela tivesse certeza ainda. Ela estava acostumada com magos da mente como o Senhor Beleren e seus comandos psíquicos gritados e ilusões psíquicas realistas, e pude ver que ela estava se perguntando se este último era o que eu estava usando agora com a Senhorita Revane.
O que é claro que eu não estava fazendo. Nunca faria!
"Mande a elfa embora", disse Boruvo, comandando imediatamente a atenção total da Senhora Kaya. Ele encarava a Senhorita Revane com intenso desprezo. "Mande-a embora, e eu escoltarei os demais para falarem com Emmara Tandris."
A Senhora Kaya ia protestar. Afinal, a Senhorita Revane deveria ser nossa arma secreta para ganhar o favor da Milady Emmara.
Mas a Senhorita Revane já estava recuando, parecendo um tanto aliviada. Ela disse: "Nunca fui muito boa em conversar. Vocês dois vão com o centauro. Eu me juntarei ao Gideon."
Em segundos, ela se fora.
Inclinei-me para frente e sussurrei: "Isso foi muito rude, padrinho."
"Criança~"
"Muito rude."
Ele resmungou: "Bem~sinto muito."
"Está perdoado", eu disse com muita satisfação.
Ele resmungou mais alguma coisa ininteligível. Mas também não conseguiu evitar um sorrisinho.
Não é exatamente sobre muita gente que eu tenho esse tipo de poder, sabe? Então claro, talvez às vezes eu abuse um pouquinho. Pode me culpar?
Conforme avançávamos mais em Selesnya, observei os olhos do Teyo ficarem progressivamente mais e mais arregalados. Acho que ele nunca vira nada parecido naquele mundo desértico de onde veio. Aquele Gobakhan. Tudo em Ravnica parecia maravilhá-lo, o que era adorável.
Acho que às vezes não damos valor aos nossos mundos — até que os vemos pelos olhos de outra pessoa. Deve ser por isso que ainda sou Sem-guilda. Quando vejo Selesnya pelos olhos do meu padrinho, ou os Gruul pelos olhos da minha mãe, ou quando vejo — via — os Rakdos pelos olhos da Hekara, sempre parece — parecia — novo e rico e maravilhoso.
Enfim, eu ainda estava montada nas costas do Mestre de Lanças Boruvo enquanto ele guiava a Senhora Kaya e o Teyo para a audiência com a Milady Emmara. Os corredores de mármore quase brilhante estavam alinhados com arqueiros e soldados, todos vestindo armaduras decoradas para parecerem folhas ou lâminas de grama. Muitos eram elfos. Todos baixavam a cabeça em breves mesuras para reconhecer o seu mestre de lanças. Todos olhavam para a Senhora Kaya e para o Teyo com a menor pontinha de ameaça. Nenhum deles sequer olhou para mim, é claro. Passamos por um arco guardado por dois imensos loxodontes segurando machados. Mais uma vez, os olhos do Teyo se arregalaram.
Sem loxodontes em Gobakhan, suponho.
Os loxodontes também assentiram para o seu mestre de lanças, olharam feio para a Senhora Kaya e para o Teyo, e não notaram a Rat.
Pude ver que a ficha estava começando a cair para o Teyo quando a Senhora Kaya notou a expressão no rosto dele e inclinou-se para sussurrar: "Só o centauro, você e eu conseguimos ver a Rat. De alguma forma, ela é invisível para todo mundo. Até para o pai dela."
Não era difícil ler os sentimentos do Teyo: Não faz sentido nenhum, e no entanto explica tudo!
Ele estava olhando para mim agora, então sorri de volta para ele e escorreguei das costas do meu padrinho para me enfiar entre meus dois novos amigos. Achei que mereciam tanto uma explicação quanto eu pudesse oferecer: "Não sou invisível. Sou insignificante. Uma ratazana. Uma ratinha. Você vê uma, desvia o olhar. Tenta fingir que não notou. Tenta esquecer que ela está lá até que você realmente esquece. Sua mente rejeita a minha presença."
"Você não é insignificante", a Senhora Kaya protestou.
"Você é um doce de dizer isso, Senhora Kaya, mas eu sou."
"É magia", disse o Teyo.
"Suponho que sim", respondi com um dar de ombros e um sorriso. Embora talvez eu não estivesse convencendo muito com o sorriso. "Magia com a qual nasci. Pouca gente consegue me notar a menos que saiba que estou lá e se concentre. Meu pai é bom nisso, mas ele tem que saber que estou por perto para conseguir. Antes de hoje, só tinha três pessoas que conseguiam me notar consistentemente por conta própria: minha mãe, o Boruvo e a Hekara."
A Senhora Kaya assentiu. "Foi por isso que você ficou tão mal quando eu te disse que a Hekara estava morta."
Balancei a cabeça enfaticamente. "Não. Bem, talvez tenha sido parte disso. Mas fiquei mal principalmente porque a Hekara era legal pra caramba e maravilhosa. Mas é, acho que dói saber que tem uma pessoa a menos que vai me notar. Claro, aí eu encontrei vocês dois."
Cada um deles pegou uma das minhas mãos e me deu apertos tranquilizadores.
Nisso dobramos uma esquina e demos de cara com a Milady Emmara Tandris, parada diante da dríade Trostani, a mestre de guilda dormente de Selesnya com suas três identidades simbióticas crescendo de um único tronco. Sua figura central, a Senhora Cim, estava dormindo. As outras duas estavam de costas uma para a outra. Na esquerda, a Senhora Oba chorava lágrimas quentes. Na direita, a Senhora Ses cruzava os braços irritada.
O Mestre de Lanças Boruvo fez uma reverência profunda, o que era sempre uma visão interessante de se ver em um centauro. Ele disse: "Milady Tandris, a senhora conhece a Mestre de Guilda Kaya do Sindicato Orzhov. Com ela estão seu associado Teyo Verada e minha afilhada, Araithia Shokta, ainda Sem-guilda."
A Milady Emmara estava apertando os olhos, varrendo a sala à minha procura. Ela disse: "Araithia está aqui?"
Acenei, sorrindo. "Aqui, milady!"
A Milady Emmara piscou duas vezes e disse: "Mais uma vez, por favor."
"Estou aqui, bem entre o Teyo e a Senhora Kaya."
O Boruvo deu uma ajuda também. "Ela está entre os outros dois, milady."
"Ah, sim", disse a Milady Emmara, subitamente radiante de prazer. "Oh, criança, queria que não fosse tão difícil. É uma alegria ver o seu rosto e ouvir a sua voz."
"Só porque cada vez é como se fosse a primeira. Acredite, Milady, se a senhora me visse todo dia, ficaria bem cansada dos dois."
"Duvido sinceramente disso."
Dei de ombros de novo. "Poderia provar com cinco minutos de conversa, Milady — mas não é por isso que estamos aqui."
Suspirando pesadamente, ela ficou séria e voltou seus olhos para a Senhora Kaya. "Sei por que vocês estão aqui."
"Emmara, por favor", Kaya disse. "Precisamos unir as guildas. O Ral tem um plano passado pelo Niv para salvar Ravnica, mas não vai funcionar sem a cooperação das dez guildas."
"E pode não funcionar mesmo se as dez guildas cooperarem, correto?"
A Senhora Kaya não respondeu, mas seu silêncio disse tudo.
"Mestre de Guilda Kaya, nós duas sabemos que o Ral Zarek e o Niv-Mizzet amavam seus planos, suas estratégias, seus diagramas. Até agora, cada um deles foi um desastre absoluto para as guildas, para Ravnica e especialmente para Selesnya."
"Mas desta vez—"
"Os Izzet sempre têm nomes para seus projetos. Nada é real para eles a menos que deem um nome, definam, deem limites. É por isso que temos tão pouco em comum. Como o Ral está chamando este?"
A Senhora Kaya hesitou, parecendo quase envergonhada. Mas então empertigou as costas e disse em voz clara: "Operação Desespero."
A Milady Emmara quase deu um risinho. Ela certamente sorriu enquanto balançava a cabeça, do jeito que minha mãe costumava balançar a cabeça para mim quando eu estava sendo muito boba.
Emmara, Alma do Acordo | Arte de: Mark Winters
Mas a Senhora Kaya parecia pronta para aquilo. "Sei como soa, mas tempos desesperados pedem medidas desesperadas. Os Planeswalkers e as guildas devem se unir para derrotar o Bolas."
"Não discordo, Kaya."
"Bem, então—"
A Milady Emmara a interrompeu de novo. Eu estava acostumada com isso. Ela tinha um jeito de interromper que não parecia rude. Ela parecia deslizar para dentro, a voz dela crescendo entre as palavras da Senhora Kaya como lâminas de grama crescem entre as pedras do calçamento. Ela disse: "Sinto muito, mas há pouco apoio para qualquer coisa que lembre unificação dentro de Selesnya. As coisas já estavam ruins antes da perda de Vitu-Ghazi. Mas agora~"
Conforme ela hesitava, eu já estava em movimento, correndo até o meu padrinho. Ele se inclinou para mim, e eu sussurrei no ouvido dele.
Empertigando-se, o mestre de lanças limpou a garganta e disse: "Milady, foram as criaturas de Bolas que devastaram Vitu-Ghazi."
"Sim", disse a Senhora Kaya, "exatamente. E este não seria o primeiro mundo onde Bolas causou estragos. Duas Planeswalkers — Vivien Reid de Skalla, e Samut de Amonkhet — relatam que ambos os seus mundos foram absolutamente devastados por Bolas. Skalla está completamente morto. E os poucos sobreviventes de Amonkhet lutam para, bem, sobreviver, enquanto os monstros de Bolas continuam a assolar o que restou de sua casa. Na verdade, suspeito que os problemas no meu mundo possam ser obra do Bolas também. Não se engane, Emmara. O dragão está transformando toda Ravnica — se não o Multiverso inteiro — em um túmulo."
De repente, a Senhora Cim acordou, soltando um lamento.
Suas formas irmãs voltaram-se para ela, assim como a Milady Emmara com um arquejo e o Boruvo com uma reverência profunda.
O Teyo estava parecendo bem confuso, então deslizei para o lado dele para explicar: "Ela é a dríade Trostani, a verdadeira mestre de guilda de Selesnya, as vozes do seu parun~hum, sabe, o fundador, Mat'Selesnya. A Senhora Cim, no meio, é a dríade da Harmonia. Ela está dormindo e sem resposta há meses. Agora ela acordou."
"É", disse o Teyo sem um pingo de sarcasmo, "eu saquei essa última parte."
"A dríade na esquerda é a Senhora Oba, a dríade da Vida. Na direita é a Senhora Ses, a dríade da Ordem. Sem a Senhora Cim, elas estiveram em desacordo, divididas e incapazes de chegar a uma decisão para a sua guilda. A Milady Tandris tem tentado manter Selesnya unida durante a~hum, ausência da Trostani?"
O lamento da Senhora Cim ficou mais alto, atingiu o pico e diminuiu. Todos esperaram com a respiração suspensa. Finalmente, ela falou — ou foi quase como falar — suas palavras rodopiando por nossas mentes, como uma brisa soprando pelas folhas de uma árvore.
Ouvi a canção que sopra no vento, irmãs. A dríade da Harmonia voltou-se para a dríade da Ordem: Ses, a Ordem do Bolas é a Ordem do Túmulo. Você lutou com sua irmã, mas ela ainda é sua irmã. É verdadeiramente seu desejo vê-la findada? Ver toda a Vida findada?
Com esse encorajamento, a Senhora Oba apelou à Senhora Ses também. Existe uma grande Ordem na Vida. Isso não é o suficiente?
A Senhora Ses ficou em silêncio por um tempo. Olhou para longe de suas irmãs. Olhou para o céu. Olhou para todos os lados, menos para os lados de quem está satisfeita.
Mas, por fim, a Senhora Ses assentiu concordando: Trostani está mais uma vez em Harmonia. É a vontade de Mat'Selesnya que o Conclave se junte às outras guildas para derrotar Nicol Bolas.
"Sim", disse a Senhora Kaya, "eu também sinto. O Ral deve ter conseguido desligar o Farol."
"Planeswalkers ainda podem vir?" perguntei.
"Sim, mas não serão atraídos para cá. Não há mais um chamado para responder."
"E isso é bom?"
"Acho que sim. Somos o suficiente para derrotar o dragão. Ou o suficiente para morrermos tentando, de qualquer forma."
Dei um soco no ombro da Senhora Kaya, dizendo: "Nossa, mas você é um raio de sol, hein?"
Não sei o que deu em mim! Você não dá socos em uma mestre de guilda!!
"Ai."
Mortalmente constrangida, saí correndo na frente, gritando: "Por aqui!"
Ela me mandou calar a boca.
Não sei o que estava acontecendo comigo, mas eu de fato parei e revirei os olhos para ela. "Ninguém mais me ouve. Ninguém mais quer ouvir. Além disso, quase chegamos a Skarrg. Agora, quando chegarmos lá, deixem que eu falo."
"Achei que eles não conseguissem te ouvir", disse o Teyo. Então ele pareceu aflito, com medo de ter ferido meus sentimentos.
Ele é tão doce!
Enfim, só o fato de ter pessoas com quem conversar sobre a minha situação torna tudo mais fácil. Me deixa meio zonza, acho, com todo esse soco e revirar de olhos e tal. Eu disse: "A maioria não consegue. Mas minha mãe, Ari Shokta, consegue. E meu pai consegue se estiver prestando atenção. O mesmo com o Borborygmos. Ele me acha adorável, o que eu sou. Sou uma Rat adorável!" Ri, e o som ecoou pelas paredes curvas do túnel. Eu estava zonza. Digo, olha, estou acostumada comigo. Tenho que estar, porque quase cada hora de cada dia sou tudo o que tenho, sabe? Mas o fato de o Teyo e a Senhora Kaya poderem me ouvir rir e ouvir o eco foi uma magia toda especial. Acho que nunca passei tanto tempo com alguém que pudesse me ver desde que eu era uma menininha com a minha mãe. Nem a Hekara passava um dia inteiro comigo assim.
O Teyo estava me encarando. Acho que devo ter corado um pouco, porque ele corou, provavelmente com vergonha de mim, imagino.
Tentei fingir que ele não tinha me pegado e continuei. Estávamos nos movendo pelos túneis de esgoto como, bem, como Rats! Ha! Estava escuro e úmido e abafado. O Teyo, o bebê do deserto, estava pingando de suor. Fiquei com pena dele. Finalmente chegamos ao fim do longo túnel de tijolos. Aproximei-me da porta de ferro e me ajoelhei diante dela para arrombar a fechadura rapidinho.
Rápido o suficiente para impressionar a Senhora Kaya, que disse: "Você é boa nisso. Melhor do que eu, e eu sou uma espécie de especialista."
Eu de fato revirei os olhos de novo!
O que tem de errado comigo?!
"Por favor", eu disse — com atitude demais. "Aprendi a fazer isso aos seis anos. Quando ninguém sabe que você existe, não destrancam nada para você." Escancarei a porta e instantaneamente ouvi os sons familiares, familiais, de vozes bravas e armas se chocando.
Corri por mais um túnel, e o Teyo e a Senhora Kaya lutaram para me acompanhar.
Este túnel final logo se abriu em Skarrg, o Território da Reunião, um imenso pátio subterrâneo, os restos craterados de um palácio antigo e maciço. Imediatamente, avaliei a situação e soube que precisaria de ajuda. O Gan Shokta estava lutando com o ciclope Borborygmos, com trinta ou quarenta outros guerreiros Gruul se reunindo para assistir. Vários machados vieram voando em direção às nossas cabeças. Um passou raspando por cima do meu couro cabeludo.
Ainda bem que sou baixa. Nem precisei me abaixar.
O Teyo instintivamente ergueu um escudo triangular, e outro machado ricocheteou nele. A Senhora Kaya ficou incorpórea, e um terceiro machado passou direto por ela, cravando uns bons cinco centímetros na parede atrás. Vendo que meus novos amigos podiam cuidar de si mesmos por ao menos um tempinho, disparei para casa.
"Na batalha. Não com as mães deles", disse ela e me deu um cascudo forte. Depois me puxou e me deu um abraço apertado. Minha mãe tem um abraço de urso de verdade, mas eu adoro. "Você fica longe tempo demais, menina. Sinto sua falta, acredite ou não."
"Não!" soltei e ri.
Ela me deu outro cascudo.
"Temos que ir", eu disse. "O Gan Shokta e o Borborygmos estão se matando."
Ela fingiu um bocejo. "De novo?"
"Sim, mas hoje preciso que eles ouçam meus novos amigos."
"Você tem amigos novos, criança?" disse ela com certa esperança zonza dela mesma.
"Eu—Sim. Dois. Mas Ari~a Hekara morreu."
"Eu sei, Araithia. Eu ouvi. Sinto muito mesmo. Ela sabia matar como ninguém. E era uma boa amiga para você. Uma amiga digna."
Não dissemos nada por um tempo.
Então agarrei a mão dela e a puxei atrás de mim. "Vamos, mãe!"
Eu conseguia ouvir o latido bravo do meu pai ecoando pelos túneis conforme nos aproximávamos de Skarrg: "O Borborygmos está meio inclinado a te matar aqui e agora, Assassina de Fantasmas. Ele considera você e o mago da tempestade responsáveis pela queda dele."
"Eu entendo", a Senhora Kaya estava dizendo cautelosamente. E então mais pontualmente: "Por outro lado, o Teyo e eu ajudamos a salvar a sua vida. E além disso, somos amigos da sua—"
Antes que a Senhora Kaya pudesse sequer mencionar meu nome, o Gan Shokta latiu: "Não preciso de lembretes da minha~falha momentânea. Eu lhe devo. Reconheço isso. Mas não pense por um momento que estou mais feliz em te ver do que o ciclope. Acredite, você não podia ter vindo em hora pior."
"Não queremos estar aqui mais do que você nos quer aqui. Mas não tem escolha, Gan Shokta. Não tem escolha, Borborygmos. Precisamos que os Gruul—"
Àquela altura já estávamos na câmara, e a Ari chamou meu pai com uma mistura de elação e urgência: "Ela está aqui, Gan!"
O Gan Shokta virou: "Aqui? Onde?"
A Ari deu um passo à frente com os braços em volta de mim. Minha mãe é consideravelmente mais alta e consideravelmente mais musculosa do que eu. Então a presença dela geralmente ofusca a minha, abraço de urso ou não. Ela também estava armada até os dentes, com uma espada e um machado, duas adagas longas e uma corrente de ferro na cintura como um cinto, enterrando-se na minha coluna. Mas temos o mesmo cabelo escuro e, dizem, o mesmo sorriso. Ela respondeu ao meu pai dizendo: "Bem aqui!"
Todos os olhos ao redor da fogueira se voltaram para a Ari Shokta.
O Gan Shokta apertou os olhos. Ele disse: "Grita aí, menina!"
"Estou aqui, pai", eu disse.
"Ela está aqui nos meus braços, Gan", disse a esposa dele.
Então o Gan Shokta sorriu: "Estou vendo ela."
O Borborygmos grunhiu o seu próprio reconhecimento, e alguns outros na multidão assentiram também, embora a maioria estivesse apenas fingindo me ver para impressionar seus superiores.
Borborygmos Enfurecido | Arte de: Aleksi Briclot
Dirigi-me ao meu pai e ao ciclope com toda a formalidade que a ocasião exigia: "Grande Borborygmos. Legendário Gan Shokta. Vocês devem unir os Clãs e ajudar as outras guildas. Ou será o fim de todos nós."
O Gan Shokta rosnou sua resposta, apontando para o Borborygmos: "É o que venho dizendo a ele. Mas o tolo teimoso não ouve."
O Borborygmos cambaleou em minha direção e estendeu sua mão enorme. Escorreguei dos braços da minha mãe para o aperto dele, que se fechou ao meu redor, praticamente me eclipsando.
Vi o Teyo dar um passo involuntário à frente, desnecessariamente protetor.
É estranho que isso me deixe feliz? Digo, eu não preciso de proteção. Não do Borborygmos de qualquer forma. Na real, não de quase nada. Ainda assim~
A Senhora Kaya colocou a mão no ombro do Teyo e sussurrou algo para detê-lo.
O ciclope me levantou para que eu pudesse sussurrar bem no seu ouvido enorme (e meio ceroso). Eu disse: "Isso é muito importante. Os Gruul — toda Ravnica — dependem de você."
Ele balançou a cabeça violentamente.
Fiz concha com as mãos e sussurrei de novo. Depois beijei a bochecha dele.
Ele corou um pouco, e eu soube que tinha dobrado o velho durão~
"Por favor", disse o Mestre Zarek. "Já chega." Ele tinha nos alcançado, e tínhamos entrado todos juntos em Korozda. "Acabei de passar sessenta e seis minutos inteiros drenando o Farol. Estou cansado e não tenho paciência para as brincadeiras de vocês. Ou para sua amiga imaginária."
"Não é brincadeira", rebateu a Senhora Kaya. "A Rat não é imaginária, e a propósito, abre a sua mente, Ral. Parece que nunca encontrou um feitiço de invisibilidade antes."
"Bem, se ela está usando um feitiço de invisibilidade, diga a ela para parar de usar."
"Não é tão simples com ela. É~inato. Ela não consegue ligar e desligar."
Eu disse: "Provavelmente não vai funcionar, mas~aponta a cabeça dele exatamente para onde eu estou." Eu estava observando o Mestre Zarek, enquanto o Teyo e a Senhora Kaya me ouviam. Ele ainda achava que eles estavam me provocando, imagino, e revirou os olhos para a "pegadinha" patética deles.
"Vale a tentativa", disse a Senhora Kaya, então sem aviso ela atravessou direto por ele como um fantasma, o que imagino que tenha sido bem desconcertante.
"Droga, Kaya, que Krokt você está—"
Por trás, a Senhora Kaya literalmente agarrou o rosto dele com ambas as mãos já solidificadas e o mirou para, bem~mim.
Acenei e disse: "Oi."
A boca dele escancarou, e a mente dele disse algo tipo De onde ela veio?
"Eu vim dos Clãs Gruul, inicialmente. Mas sou Sem-guilda, caso você estivesse se perguntando. Meu nome é Araithia Shokta, mas pode me chamar de Rat. Todo mundo chama. Bem, nem todo mundo. Meus pais e meu padrinho não, mas todo mundo que sabe de mim chama. A Hekara me chamava de Rat. Sinto falta dela. Aposto que você também sente. Sei que você fingia não se importar com ela, mas também sei que valorizava a amizade dela. Ela era uma amiga tão fiel, né? E tão engraçada. Ela me fazia rir e rir e rir. Não tem muita gente que faz isso comigo. Não de propósito, enfim."
Ele tinha que se concentrar para me ver e ouvir, o que significava que ele podia me perder de vista a qualquer segundo, o que talvez explicasse por que eu estava falando sem parar daquele jeito.
Exceto que nós sabemos melhor, né?
"Não se ofenda. A Hekara pediu, e eu faria qualquer coisa por ela. Absolutamente qualquer coisa. Ela sabia que você não me notaria. Digo, acho que inicialmente ela esperava que notasse, mas ficou bem claro bem rápido que você não notava. E o Mestre de Guilda Rakdos tinha dito para ela ficar com você, e você vivia dando o cano nela. Então ela teve que pedir a minha ajuda, na real. A culpa é meio sua. Então eu te rastreei, em quase todo lugar que você foi."
Olhei por cima dele para a Senhora Kaya e disse: "É por isso que estou surpresa que você não tenha me notado."
Ela soltou o Mestre Zarek e veio até mim, dizendo: "A primeira vez que te vi hoje, achei que parecia vagamente familiar, como se eu já tivesse te visto pela cidade. Mas sou estrangeira aqui, então vejo muitos nativos que não chegam a registrar totalmente, desde que não sejam uma ameaça."
"E não tinha como você saber que não era para você conseguir me ver, então você nunca mencionou. Nem deu oi!"
"É, bem, sinto muito por isso."
"É, bem, eu te perdoo", eu disse, imitando a cadência dela de forma bem atrevida e pegando as mãos dela.
Tentando acompanhar, o Mestre Zarek interpelou: "Então você está me seguindo desde que conheci a Hekara?"
"De vez em quando. Ela não precisava dos meus serviços quando ela estava com você. Mas eu tentava ficar por perto, para poder pegar o seu rastro e relatar se e quando você desse o cano nela."
A Senhora Kaya deu um sorrisinho, enquanto o Mestre Zarek processava todas as implicações do que eu estava contando. Isso o fez perder o foco e perder a visão de mim de novo.
O Teyo notou a confusão dele e ofereceu: "Ela ainda está bem ali do lado da Kaya."
O Mestre Zarek focou — e lá estava eu de novo! Ele disse: "Acho que sinto muito por não ter conseguido te ver."
"Estou acostumada. E sério, estou meio impressionada com o que você está fazendo agora. Minha mãe diz que meu pai levou três meses depois que eu nasci para dominar o foco em mim. Você pegou o jeito quase instantaneamente. Você é mais aberto a coisas novas do que pensa que é."
"Eu me acho muito aberto a coisas novas."
"Não acha não. Você quer ser. Mas não acredita que é. Mas você é. Não é estranho?"
O Mestre Zarek pareceu notar então que sua boca estava aberta, então ele a fechou.
A Senhora Kaya ainda estava sorrindo quando disse: "Não tem tempo para se demorar. Precisamos nos mexer."
Ela guiou os três de nós para mais fundo em Korozda, o Labirinto da Decadência, o que significava por definição que estávamos andando em círculos. Círculos concêntricos levando cada vez mais fundo no território do Enxame Golgari. Deixei os dois mestres de guilda liderarem, embora estivesse pronta para corrigir o caminho deles se pegassem uma curva errada. Eu já tinha descido para explorar suas sebes fúngicas em decomposição muitas, muitas vezes e já tinha resolvido o seu enigma há muito tempo.
Nós — ou melhor, os três, já que ninguém me notava, é claro — já tínhamos sido admitidos em Korozda ao passarmos sob a fortaleza de Pevnar, a Fortaleza Suspensa, um castelo de cabeça para baixo com as fundações fixadas no teto. O Mestre Zarek estivera preparado para a oposição dos Krunstraz que guarneciam a fortaleza. Mas os guerreiros kraul semelhantes a insetos simplesmente nos (ou melhor, os três) observaram entrar no labirinto.
Arpueiro Kraul | Arte de: Kev Walker
Agora, conforme nos aproximávamos do centro, ficava claro que não apenas não tínhamos encontrado oposição, como não tínhamos encontrado ninguém. O que significava que éramos (eles eram) esperados. Ou talvez que estivéssemos (estivessem) caminhando para uma armadilha. Ou, sabe, talvez as duas coisas.
Todos varremos os olhos em busca de sinais de emboscada. Observei o Mestre Zarek checar o Acumulador que ele carregava nas costas. Inclinei-me e olhei o mostrador. Estava alguns graus além da capacidade máxima. Drenar o Farol deve ter significado sugar um montão de carga.
Ele acelerou, passando a Kaya para entrar no grande anfiteatro circular, com suas muitas fileiras de assentos de pedra, todos cobertos por um musgo macio e penujoso.
A lich Outrora da Vraska, uma feiticeira Golgari morta-viva, estava esperando para nos (os) receber: "Saudações, Mestre de Guilda Zarek. Saudações, Mestre de Guilda Kaya. O Enxame Golgari dá as boas-vindas a Svogthos." A voz dela soava como folhas secas sendo sopradas sobre um túmulo.
Notei que o Mestre Zarek não conseguia lembrar o nome da lich, então deslizei até ele e sussurrei: "Storrev."
Ele deu um sorriso fino, e ouvi distintamente ele pensar: Obrigado, Rat.
"Não tem de quê."
Com certa formalidade, ele disse: "Agradecemos as saudações, Storrev." A Outrora pareceu levemente surpresa e talvez um pouco lisonjeada por o Mestre Zarek saber o nome dela. E de novo, ele emanou o pensamento claro — e desta vez, talvez um pouco menos relutante — Obrigado, Rat.
Dei um risinho.
"Este é um momento de crise", disse a Senhora Kaya. "Viemos nos encontrar com Mazirek." O Senhor Mazirek, líder dos kraul, fora o braço direito (inseto direito?) da Senhora Vraska — e o candidato mais provável para substituir ela como mestre de guilda dos Golgari.
A Senhora Storrev suspirou, assentiu e disse: "Sigam-me."
Atravessamos o anfiteatro e seguimos a lich para dentro de Svogthos, a sede subterrânea dos Golgari. Outrora uma grande catedral Orzhov, arqueada e magnífica, ela caíra por um sumidouro alguns séculos atrás. Os Orzhov a abandonaram. Os Golgari reivindicaram sua ruína como própria.
A Senhora Storrev nos levou a uma câmara cavernosa, conhecida como o Estatuário. Uma passarela de pedra elevada corria pelo centro, com estátuas enfileiradas de cada lado. Só que as estátuas não eram estátuas de verdade. Eram vítimas. Vítimas da Senhora Vraska. Como a Senhora Isperia, cada uma fora congelada em pedra. Mas diferente da Isperia, cuja expressão final fora de leve surpresa, cada um destes troféus fora capturado em um último olhar de terror, mãos erguidas tarde demais para protegê-los do olhar místico mortal da górgona.
Várias pessoas estavam reunidas na extremidade da passarela, ao redor do maciço trono de pedra da Senhora Vraska — ou suponho que deva dizer, da Rainha Vraska. Era interessante que nenhum destes Golgari estivesse de fato sentado no trono. Seria porque ninguém ainda assumira o lugar da Rainha Vraska como mestre de guilda? Ou seria porque o trono era meio assustador, consistindo inteiramente como consistia de mais inimigos mortos da rainha, entrelaçados e posados antes de serem permanentemente petrificados no lugar.
Conforme nos aproximávamos, pude ver que o Senhor Mazirek não estava entre os figurões Golgari reunidos.
A Senhora Storrev fez uma leve mesura, e o Mestre Zarek, a Senhora Kaya e o Teyo (mas não eu, é claro) foram apresentados ao guerreiro Krunstraz kraul Azdomas, à líder devkarin Matka Izoni, ao troll Varolz e à xamã elfa Cevraya.
"Mazirek?" perguntou o Mestre Zarek.
O Senhor Azdomas fez uma série de estalidos na garganta antes de falar. Havia uma raiva sombria nos estalidos e na voz dele: "Mazirek era outro colaborador do Bolas, revelado pela Rainha Vraska antes de sua partida."
"Vraska o revelou?"
"Sim", disse a Senhora Storrev, com sua voz de folhas, "Vraska libertou os Outrora e nos entregou nosso carrasco Mazirek."
"Ele pagou o preço final por trair o Enxame", acrescentou o Senhor Azdomas com finalidade.
A Senhora Kaya olhou do Senhor Azdomas para a Senhora Storrev, para a Matka Izoni, para a Senhorita Cevraya e depois para cima para encontrar os olhos do enorme troll de pele fúngica, o Senhor Varolz. A assassina de fantasmas parecia estar tomando a medida de cada um — e avaliando o que seria necessário para derrubar cada um se necessário. "Se me permitem perguntar~quem é o novo mestre de guilda de vocês? É com ele que viemos falar."
Todos trocaram olhares perigosos que revelaram a resposta antes mesmo da Senhora Storrev dizer: "Cada um destes indivíduos — exceto eu — tem uma reivindicação ao trono da Vraska."
"Vraska vem reivindicar o trono da Vraska."
Todos nos viramos a tempo de ver uma figura emergindo, surgindo — transplanando, chuto eu — de uma silhueta.
Era a própria Rainha Vraska.
Conforme ela entrava em foco, o Mestre Zarek lembrou de colocar uma mão na frente dos próprios olhos. A Senhora Kaya fez o mesmo. Eu mesma empurrei a mão do Teyo para cima. Eu gostava da Rainha Vraska, mas gostava mais do Teyo — e não queria ele decorando o Estatuário.
Com uma mão ainda levantada, o Mestre Zarek ativou seu Acumulador. A Senhora Kaya sacou uma de suas facas longas. Ambos estavam tão prontos quanto possível para enfrentar a górgona que os traíra.
A Rainha Vraska ignorou os dois e, dirigindo-se aos Golgari, disse: "Alguém desafia meu direito a este trono?"
A Senhora Storrev, o Senhor Azdomas, o Senhor Varolz e a Senhorita Cevraya todos se curvaram imediatamente, dizendo em uníssono: "Não, minha rainha." A Matka Izoni não pareceu muito satisfeita, mas se curvou e proferiu a mesma garantia, apenas meio segundo depois do restante do pessoal Golgari.
O Mestre Zarek arriscou um olhar para a Rainha Vraska e viu o que eu vi. Os olhos dela não estavam brilhando, o que significava que ela não invocara a magia para transformar ninguém em pedra. Foi um pequeno alívio, mas ambos sabíamos que ela podia invocar aquele poder rapidamente. E ela tinha outras habilidades, outras armas também. Por exemplo, a cutela pendurada em seu cinto.
"Você está ridícula", disse o Mestre Zarek para ela, tentando substituir um certo tom de amargura por algo próximo ao desprezo. "O que você deveria ser, uma pirata?"
Uau, uma rainha pirata! Isso na verdade soava bem massa!
Ela continuou a ignorá-lo, passando direto por ele para se sentar em seu trono show de horrores.
"Estou surpresa que você tenha voltado para Ravnica", disse a Senhora Kaya calmamente, "Chocada, na verdade~"
"Abatida", corrigiu o Mestre Zarek.
"Especialmente depois que o Farol foi desligado?" perguntou a Rainha Vraska, como se tentasse provocar seus antigos amigos, seus antigos aliados.
O Mestre Zarek estava carregado e pronto para uma briga. Estática estalava em seu cabelo espetado. "Então qual foi?" ele rosnou. "Você presumiu que Bolas já tinha sido derrotado — ou que ele já tinha triunfado?"
A Rainha Vraska nos liderava pelos túneis Golgari, claramente ciente de que seus dois antigos amigos, o Mestre Zarek e a Senhora Kaya, estavam logo atrás dela, um carregado e pronto para fritá-la, a outra empunhada e pronta para espetá-la.
O Mestre Zarek praticamente siseava para as costas da rainha Golgari: "Vire-se para olhar para mim, e não hesitarei."
Parecia uma situação bem intolerável, então corri até a Senhora Kaya e sussurrei: "A Hekara gostava muito da Senhora Vraska lá no fundo, sabe? Talvez devêssemos dar o benefício da dúvida? Digo, por que você acha que ela voltou?"
Perdendo um pouco o ponto, a Senhora Kaya disse: "Não sei. Vou perguntar."
"Perguntar o quê?" a Rainha Vraska rosnou por cima do ombro.
"Minha amiga Rat quer saber por que você voltou. Ela está inclinada a confiar em você porque a Hekara te considerava uma amiga. Por outro lado, eu também já estive inclinada a confiar em você uma vez~"
Frasear assim não ia nos dar nenhuma resposta útil e, com certeza, a Rainha Vraska ignorou a pergunta e os julgamentos. Ou ao menos tentou. Corri à frente para ler o rosto dela — e talvez pegar um sentido geral dos pensamentos dela. Ela estava definitivamente em conflito, mas senti certeza de que estava determinada a ajudar~ajudar a nós, ajudar a Ravnica e certamente ajudar os Golgari.
Após a chegada dela, o Senhor Azdomas a atualizara rapidamente sobre a situação atual de Ravnica. Pude notar então que ela não tinha nem conhecimento prévio da crise — nem muito do que se surpreender. Oh, exceto a parte sobre o Senhor Beleren ter perdido os poderes do Pacto das Guildas Vivo. Isso pareceu pegá-la bem desprevenida e revelou, para mim pelo menos, que os sentimentos complicados dele por ela eram recíprocos.
O Senhor Azdomas também relatou que civis Golgari, Sem-guilda e de outras guildas estavam presos em vários bolsões da cidade, à mercê dos Eternos do dragão.
A Rainha Vraska fizera uma oferta de ajuda, que o Mestre Zarek rejeitara instantaneamente. A Senhora Kaya começara a rejeitar também. Mas eu meio que interpelei, dizendo: "Precisamos dos Golgari; ela manda nos Golgari, então não temos muitas opções."
"Não podemos confiar nela."
"E no entanto ainda precisamos dela."
"Você não estava lá. Você não sabe. Se ela não tivesse—"
"Eu sei. Eu sei sim. Acredite, eu sei."
"Então como posso—"
"Você testa, chuto eu. Dê a ela a chance de provar que se pode confiar nela. Ou prove que não pode."
Então a Senhora Kaya suspirou pesadamente e voltou-se para a Rainha Vraska para aceitar a ajuda dela. E quando o Mestre Zarek objetou de novo, Kaya o forçou a aceitar relutantemente também.
Então agora aqueles três mestres de guilda, junto comigo, o Teyo, o Senhor Azdomas e a Senhora Storrev, estávamos avançando penosamente pelos canais subterrâneos e esgotos de Ravnica em uma missão de resgate.
A Rainha Vraska parou sob uma imensa grade de ferro. Ela gesticulou com uma das mãos, cuidadosa para não olhar para trás, já que mesmo o seu olhar mais inofensivo poderia disparar um ataque preventivo do Mestre Zarek.
O Senhor Azdomas aproximou-se e arrancou a grade. O som do ferro raspando na pedra ecoou pelos túneis.
Uma voz vinda de cima rugiu: "Quem está aí?"
O Mestre Zarek, esquecendo brevemente sua desconfiança da rainha, deu um passo à frente, dizendo: "É o Juba d'Ouro?" em um sussurro bem alto.
Com certeza, o Senhor Juba d'Ouro enfiou a cabeça no vão para ver. "Zarek?" O leonin identificou imediatamente o mestre de guilda Izzet e falou com certa urgência: "Estive liderando alguns dos outros Planeswalkers para ajudar a evacuar civis. Mas os Eternos nos pegaram de surpresa. Seis ou sete grupos. Estamos encurralados dentro desta velha capela há mais de uma hora. O prédio está completamente cercado. Eles são atraídos por nossas Centelhas e não vão embora. Mantivemos a Horda Terrível sob controle, mas é uma batalha perdida. A Khazi foi colhida quando um Eterno socou a mão direto pela parede e a agarrou pelo pulso."
A Rainha Vraska aproximou-se do Mestre Zarek e disse: "Este é o caminho para fora."
O Senhor Juba d'Ouro apertou os olhos para ela com seu único olho bom e disse: "Você deve ser a Vraska. Jace esperava que você aparecesse. Ele acredita em você."
A Rainha Vraska franziu o cenho mas disse: "Traga todos para baixo. Os Golgari os manterão seguros. Você tem a minha palavra."
Vraska, Eminência do Enxame | Arte de: Anna Steinbauer
O Mestre Zarek bufou alto mas conseguiu não dizer nada.
Sem um som, o rosto do Senhor Juba d'Ouro sumiu da abertura. Um minuto se passou. Depois dois. A rainha e o Mestre Zarek trocaram olhares confusos. Eu estava prestes a subir e ver se podia ajudar, quando o Senhor Juba d'Ouro saltou para baixo. Ele se aproximou da górgona sem medo e disse: "Não fomos apresentados. Sou Ajani Juba d'Ouro das Sentinelas." Ele estendeu a mão.
Ela segurou o antebraço peludo e grosso dele, e ele segurou o dela, liso. Ela disse: "Bem-vindo ao território Golgari, Ajani Juba d'Ouro. Você está seguro aqui."
Ele assentiu, sorrindo. Então voltou-se para o teto do túnel e disse: "Comecem a descê-los."
Um por um, Ravnicanos — crianças, na maioria — foram descidos nos braços do Senhor Juba d'Ouro, do Senhor Azdomas, da Senhora Kaya, do Teyo e da Rainha Vraska. Eu queria ajudar também, é claro, mas poderia ter ficado ali o dia todo e ninguém teria me entregado uma criança. Então apenas tentei ficar fora do caminho, sabe?
Um cauteloso Mestre Zarek ficou para trás também. A Rainha Vraska recebeu uma menininha élfica — de cinco ou seis anos — que se enterrou no peito da górgona, soltando grandes soluços de medo e tristeza. A rainha pareceu aflita. Mas segurou a menina com força.
Houve um barulho vindo de cima. Uma voz gritou lá de baixo: "Eles arrombaram as portas!"
Os últimos Ravnicanos desceram, e foram seguidos por dois dos Planeswalkers que eu vira na cúpula. O Senhor Juba d'Ouro apresentou-os rapidamente como Senhorita Mu Yanling e Senhor Jiang Yanggu. Este último chamou de volta para cima: "Mowu, venha!"
Um cachorrinho saltou nos braços do Senhor Jiang. Era um cachorro muito menor do que o que eu vira no Senado.
Eles trouxeram dois cachorros?
O Senhor Jiang colocou o canino no chão do túnel, e ele começou a crescer, expandindo-se no cachorro de três caudas, tão alto quanto seu dono, que eu vira antes.
Krokt, eu também quero um cachorro mágico!
O Senhor Juba d'Ouro disse: "Onde está a Huatli?"
"Aqui!" a Senhorita Huatli gritou enquanto saltava para baixo. "Sou a última, mas eles estão logo atrás de mim!" Como para provar que ela tinha razão, uma mão e um braço cobertos de lazotep estenderam-se de cima, varrendo o ar e quase pegando a Senhorita Huatli.
A mão sumiu na escuridão acima e foi substituída pelas cabeças de três Eternos. Eles começaram a descer, atrasados apenas porque nenhum deles esperou por nenhum dos outros dois.
Aquele atraso deu à Rainha Vraska o tempo de que precisava. Ela invocou seu poder — eu o vi se acumular atrás de seus olhos — que ela manteve focado no teto para evitar disparar a ira do Mestre Zarek. A górgona puxou a criança elfa que chorava mais para perto do peito e cobriu os olhos da menina com uma das mãos. Então, conforme os três esquisitões preenchiam a abertura, a Rainha Vraska travou os olhos com cada um deles sucessivamente, transformando todos os três em pedra. O som deles se calcificando foi meio satisfatório, e o resultado foi que ela não apenas parou os perseguidores da Senhorita Huatli de atacarem, como também efetivamente selara o buraco e o único caminho dos Eternos para baixo vindos da capela acima.
A Senhora Storrev aproximou-se de sua rainha e sussurrou em seu ouvido. Ela ouviu e voltou-se para o Mestre Zarek, que deu um passo atrás — mas não tentou eletrocutá-la (o que me pareceu um bom sinal). Talvez tenha sido porque os olhos dela não estavam mais brilhando, o que significava que ela não era mais uma ameaça imediata. Ou talvez tenha sido porque ela ainda segurava a menininha elfa que chorava baixinho nos braços. Ou talvez — apenas talvez — porque ela tivesse começado a reconquistar um pouquinho da confiança perdida que outrora compartilharam.
Ela disse: "Por toda a cidade, os Golgari estão abrindo caminhos para a segurança para cada Ravnicano que encontram. Estamos combatendo o exército do Bolas e preservando a vida." E então com um sarcasmo afetado, ela adicionou: "De nada."
O Mestre Zarek nada disse.
Pensei: Três já foram. Falta uma.
A Senhora Kaya disse: "Bom. Agora, tem mais uma coisa que precisamos que você faça~"
05 de Junho de 2019 | Por Greg Weisman
Operação Desespero
#align(center)[I.]
Teyo, a Senhora Kaya, o Mestre Zarek, a Rainha Vraska e eu pegamos os túneis Golgari até onde pudemos. Mas as velhas passagens diretas entre as sedes Golgari e Rakdos estavam fechadas desde que Jarad vod Savo, um antigo mestre de guilda Golgari, foi morto pela primeira vez em Rix Maadi por uma bruxa de sangue Rakdos. Então, no fim, tivemos que subir à superfície e encarar quaisquer esquisitões colhedores de Centelhas que pudessem estar por lá.
Não encontramos nenhum, o que pareceu um bom sinal.
Além disso, do alto de uma colina podíamos ver a Praça do Décimo Distrito, e o portal não estava mais lá. Já sabíamos que o Senhor Jura e o Senhor Juba d'Ouro e a Senhorita Huatli e outros estavam fazendo o seu melhor — agora com a ajuda dos Golgari — para resgatar o máximo de Ravnicanos possível. E o Mestre Zarek tinha desligado o Farol. Agora, estava claro que o Senhor Fayden, o Senhor Karn, a Senhorita Samut e o Homem-Demônio Ob Nixilis tinham fechado com sucesso a Ponte Interplanar também. Eram três das seis primeiras missões do Senhor Beleren cumpridas.
Ou talvez quatro. . .
Meus companheiros pararam todos bruscamente no caminho.
Perguntei ao Teyo o que estava errado, e ele disse que algo tinha mudado.
"O quê?"
"Eu—"
A Rainha Vraska disse: "Caiu. O Sol Imortal foi desligado."
Engolindo em seco, eu disse: "Então vocês estão todos livres para ir, para transplanar . . ."
A Senhora Kaya disse: "Não vamos a lugar nenhum."
O Mestre Zarek disse: "Não. Ainda há trabalho a fazer."
Quatro missões cumpridas. Restavam apenas duas. O assassinato da Senhorita Cabelos-de-Corvo, Liliana Vess. Essa era a missão do Senhor Beleren com o Senhor Teferi, a Senhorita Ballard e a Senhorita Reid.
Então havia a nossa missão: Operação Desespero. O Mestre Zarek nos dissera que a Senhorita Lavínia representaria os Azorius. E o Mestre Lazav dos Dimir prometera que participaria também. Com Boros, Izzet, Simic, Orzhov, Selesnya, Gruul e Golgari já garantidos, só faltavam os Rakdos.
Eu temia descer lá, em Rix Maadi. Não que o lugar me assustasse. Mas sem a Hekara lá no lugar onde ela deveria estar, eu tinha medo de simplesmente . . . dissolver . . . tipo virar uma poça. Esse tipo de coisa não acontece muito comigo. Sou uma Rat bem resiliente, sabe? Na maioria das vezes, tenho que ser. Mas quando eu fico triste ou meio quebrada, tudo bem, porque ninguém vê. Eu mal noto a mim mesma, né? Digo, qual é o ponto de ficar se afundando em toda essa choradeira ou o que quer que seja?
Quem é que isso ajuda?
Mas desta vez haveria testemunhas. O Teyo e a Senhora Kaya — e talvez até o Mestre Zarek — me veriam quebrar. E se eles vissem, então eu teria que ver também. Isso tornaria real. E isso significaria que a Hekara estava . . .
Enfim, nove guildas garantidas. Falta uma. E quatro missões cumpridas. Faltam duas. Bem . . . três, na real. Não dá pra esquecer a missão final. Porque quando toda essa, você sabe, coisa fácil tiver sido tirada do caminho, ainda tem o dragão.
O primeiro malabarista, vestindo couros vermelhos com tachas e fitas que terminavam em anzóis de metal afiados, equilibrava impressionantemente seis tochas flamejantes. O segundo malabarista equilibrava oito crânios humanos. O terceiro equilibrava doze crânios flamejantes. O quarto malabarista era um esqueleto morto-vivo, ossos reforçados com ferro forjado, incluindo quatro chifres de ferro forjado imitando os de seu mestre, Rakdos, o Deflagrador. Ele equilibrava crânios de gatos flamejantes retirados de uma pequena fornalha fumegando dentro de sua própria caixa torácica.
Sem aviso, o esqueleto lançou um desses pequenos crânios ardentes no Teyo, que mal conseguiu erguer um escudo circular de luz branca para impedir que o atingisse no olho. O crânio ricocheteou no escudo e atingiu o esqueleto no rosto. Ele soltou uma risada rouca e sem ar, e o Teyo estremeceu.
A Senhora Kaya tentou tranquilizá-lo. "Eles estão só tentando te intimidar."
O Teyo olhou para o chão e resmungou: "Está funcionando."
O esqueleto sussurrou: "A senhora nos entendeu todo errado, Madame. Estamos só tentando entreter vocês."
O Teyo olhou feio para o esqueleto e resmungou: "Não está funcionando."
O esqueleto riu de novo e disse: "Bem, pelo menos vocês estão me entretendo."
Festim de Mortos | Arte de: David Palumbo
Estávamos descendo os quinhentos degraus do Vestíbulo do Demônio em direção a Rix Maadi. Veios de lava correndo pelas paredes esculpidas por vermes lançavam uma luz vermelha opaca sobre tudo o que eu conseguia ver. Outro artista estava empoleirado a cada quatro ou cinco degraus. Depois dos malabaristas vieram os marionetistas, cada um com um fantoche desenhado para alimentar pesadelos nos não iniciados.
Mas eu não sou uma não iniciada.
Eu descera esses degraus, vira esses mesmos números, tantas vezes com a Hekara. Eram como velhos amigos — velhos amigos determinados a me lembrar que minha amiga mais próxima nunca mais compartilharia esses degraus comigo.
Eu odeio eles! Por que ainda estão aqui quando ela se foi?
Por que eu ainda estou aqui quando ela se foi?
Achei que tivesse visto todos eles, mas o último marionetista me fez arquejar alto. Seu fantoche era uma caricatura brutalmente precisa da Hekara, uma bruxa das lâminas completa com lâminas de verdade.
Eu conseguia praticamente sentir a preocupação vindo da Senhora Kaya, conforme nossos olhos se encontravam, compartilhando um momento de luto mútuo. Era ou gritar ou, sabe, encarar de frente. Sorri tristemente e sussurrei simplesmente: "Não vai ser a mesma coisa aqui sem ela."
Que coisa burra e óbvia de dizer. Mas o que mais há para dizer?
A partida da Hekara fora exatamente o motivo pelo qual a Senhora Kaya sugeriu fortemente que a Rainha Vraska nos acompanhasse a Rix Maadi — e por que Kaya insistira que a górgona viesse sem seus defensores kraul ou Outrora. Se os Cultistas quisessem uma explicação (ou exigissem vingança) pela morte da Emissária Hekara, o Mestre Zarek e a Senhora Kaya queriam a rainha lá para explicar (ou pagar o preço).
Surpreendentemente, Sua Alteza não objetara.
Aparentemente por vontade própria, o fantoche da Hekara lançou lâminas de barbear bem reais contra Zarek e Vraska. As pequenas lâminas não foram lançadas com força suficiente para causar nenhum dano sério nem ao mestre de guilda Izzet nem à rainha Golgari, embora o primeiro tenha ficado com um pequeno corte no braço e o rosto da Rainha tenha sido cortado de leve e estivesse pingando lentamente um fio de sangue pela bochecha. Os pensamentos da Senhora Kaya estavam agora todos cheios de preocupação sobre as lâminas terem sido envenenadas. Balancei a cabeça. "Estão limpas. Mas podem não estar no caminho de volta subindo os degraus . . . dependendo de como isso correr."
Marionetistas deram lugar a horrores enjaulados com diabos mascarados sentados em cima das jaulas, prontos e dispostos a libertar os monstrinhos. Esses horrores em particular, coisas parecidas com aranhas que bufavam e arquejavam e guinchavam e lamentavam, eram apenas do tamanho de filhotes de nodorog, mas, por outro lado, nesta escadaria apertada e claustrofóbica, um horror do tamanho de um filhote poderia causar um dano significativo. Os diabos davam risadinhas histéricas e constantemente faziam menção aos trincos, ameaçando abrir suas jaulas. O Teyo se sobressaltava toda vez, o que só os fazia fazer mais.
As paredes estavam forradas, lambuzadas, com centenas de estandartes rasgados e sobrepostos, alguns anunciando apresentações de séculos atrás, a maioria incorporando algum insulto a uma das outras guildas, sendo Orzhov, Azorius e Boros os alvos mais comuns e populares. A Senhora Kaya parou para encarar um estandarte que parecia tão antigo quanto os outros mas retratava ela mesma, o Mestre Zarek, a Rainha Vraska e a Senhorita Lavínia pendurados como marionetes, cada um por uma única corda enrolada firmemente em suas gargantas. Suas cabeças pendiam, suas línguas de fora, seus membros estavam frouxos, seus rostos inchados e azuis. O marionetista segurando suas quatro cordas tipo forca era uma imagem pintada do fantoche da Hekara, e o marionetista manipulando as cordas da Hekara era o próprio Deflagrador. Não pressagiava nada de bom para a nossa recepção lá embaixo. A Senhora Kaya inspirou, expirou e seguiu em frente. O Teyo parou para olhar também. Ele estava desenvolvendo um tique na bochecha esquerda. Conduzi-o adiante, dizendo: "Pelo menos eles não têm um estandarte de você."
"Ainda", ele emendou nervosamente.
Depois dos diabos e seus horrores vieram os cuspidores de fogo. O Teyo fez menção de criar um escudo, mas parei a mão dele e balancei a cabeça de novo. "Você só vai encorajá-los. Só preste atenção e, quando eles inspirarem, passe por eles."
Durante toda a nossa descida, o Mestre Zarek e a Rainha Vraska permaneceram cautelosos porém estóicos, cada um remoendo profundamente seus próprios pensamentos sombrios, a maioria dos quais — eu conseguia sentir — girava em torno da Hekara. Exceto pelo Teyo, que não a conhecera, estávamos todos de luto pela nossa amiga. Até a Senhora Kaya e o Mestre Zarek, que não tinham nada do que culpar um ao outro, sentiam a perda da Hekara pairando entre eles. Em parte, chuto eu, era porque o Mestre Zarek sempre se mantivera indiferente em relação à Hekara — aproveitando-se dela sem nunca reconhecer verdadeiramente que se importava com ela — embora agora que fosse tarde demais, ele percebia que se importava com ela profundamente. Ele se sentia culpado por isso, e uma parte irracional dele estava brava com a Senhora Kaya por ter sempre tratado a Hekara com calorosa abertura. Mas na maior parte, ele estava apenas bravo consigo mesmo.
Quanto mais fundo íamos, mais quente e abafado o ar ficava, e não apenas por causa dos cuspidores de fogo. Os veios vermelhos nas paredes curvas eram mais largos aqui embaixo e mais líquidos. A lava escaldante pingava nos degraus e precisava ser cuidadosamente evitada se quiséssemos manter nossas botas intactas — ou nossos pés.
Os cuspidores de fogo agora davam lugar a monociclistas, que se equilibravam impressionantemente no lugar, rolando para frente e para trás em um vão de poucos centímetros, em dispositivos que pareciam projetados para uma câmara de tortura: raios de arame farpado, rodas com garras, selins feitos de lâminas de machado. Mais de um dos ciclistas sangrava. Cada ciclista chegava perto de abrir cortes no nosso grupo de cinco. Um ciclista, que não conseguia me ver, quase decepou o meu pé. Mas esse tipo de quase catástrofe era uma ocorrência comum, e eu me treinara para estar muito, muito atenta ao meu redor o tempo todo. Desviei facilmente da ameaça.
Finalmente, chegamos ao último degrau, e o Vestíbulo terminava nos Terrenos do Festival, que eram guardados por dois ogros imensos vestindo máscaras feitas de crânios reais de ogros. A Senhora Kaya hesitou, mas os ogros não deram atenção a mim nem a nenhum dos outros — como se todos os quatro fossem apenas mais quatro Rats. Então a Kaya os ignorou de volta e continuou em frente pelo grande pátio. No centro dele havia uma fonte rachada e pichada apresentando a estátua de um centauro. De um certo ângulo, a estátua era surpreendentemente elegante, mas eu sabia que conforme nos aproximássemos, os outros veriam que pedaços de mármore tinham sido arrancados do homem-cavalo como que por uma marreta. Água escorria de lábios quebrados, e essa água por sua vez escorria da fonte rachada e descia por uma fenda no chão, de onde subia novamente como vapor.
Acima de nós, trapézios desocupados pendiam de ganchos enferrujados, enquanto uma única jovem de trancinhas em um collant de arlequim preto e vermelho deslizava despreocupadamente por uma corda puída. Seus movimentos eram cheios de graça, atraindo o olhar. Ela olhou para baixo para sua nova plateia, e o Teyo arquejou. Seus lábios e pálpebras tinham sido costurados.
Havia jaulas vazias grandes o suficiente para comportar horrores de tamanho humano. E tudo, absolutamente tudo, estava pintado casualmente com respingos de sangue.
Na outra extremidade dos Terrenos do Festival, mais dois ogros com máscaras de crânio montavam guarda diante da ornamentada fachada de pedra de Rix Maadi. Como o primeiro par, esses ogros pareciam não nos notar. Ainda assim, nosso pequeno grupo hesitou diante do brilho vermelho sinistro da entrada — até que a Rainha Vraska resmungou: "Que se dane", e marchou pelo portal gótico em arco. O Mestre Zarek e a Senhora Kaya trocaram um olhar e a seguiram, com o Teyo e eu logo atrás.
A fachada de Rix Maadi era literalmente isso. Por dentro não havia arquitetura — apenas uma imensa caverna vulcânica natural. Vapor subia de um enorme poço central de lava e era expelido acima por chaminés naturais que corriam até a superfície.
Estávamos todos suando muito agora. Até o Teyo, o garoto do deserto. Ele deu de ombros e disse: "Não é o calor; é a umidade."
Passarelas de pedra cruzavam o poço de lava. Cabos de aço cruzavam o teto, sustentando mais jaulas e ganchos enferrujados. Bacias cheias de sangue pontilhavam a paisagem. O mesmo acontecia com cães infernais cochilando, incluindo a favorita da Hekara, Serralha.
Pergunto-me se ela também está de luto pela dona.
As paredes eram pontilhadas com dúzias de portas levando a dúzias de câmaras. Risadas emanavam de algumas. Gritos de outras. Ambas de muitas. À nossa esquerda, ao nível do solo, uma grande abertura na parede estava envolta por uma névoa sobrenatural de sombra pura. Uma brisa fétida soprava lá de dentro. Eu estivera ali muitas vezes antes, mas ainda me dava arrepios.
Deslizei para o lado da Senhora Kaya e sussurrei: "Cadê todo mundo? Rix Maadi costuma estar lotada de artistas. Nunca vi tão vazia."
Ela olhou pela penumbra avermelhada. Exceto pelos cães infernais, e algum rato (de verdade) ocasional correndo, não tinha uma alma por perto, viva ou morta, exceto nós cinco. Então, como que combinado, uma figura surpreendente apareceu em uma explosão de fumaça vermelha.
"Dama Exava", sussurrei. "Bruxa de sangue. Ela é a atual número dois do Deflagrador."
Conforme a fumaça se dissipava lentamente, Dama Exava entrou em foco. Era uma humana alta e musculosa, vestindo uma máscara imensa e elaborada decorada com dois pares de chifres de demônio genuínos. Um corpete apertado acentuava seu peito farto e o abdômen nu. Calçava botas que iam até a coxa e um cinto largo de onde pendiam inúmeros espigões de ferro, todos manchados de sangue. Ela estava sobre um pequeno palco e encarava meus quatro companheiros com desprezo imperial. Ela nunca tinha sido capaz de me ver.
Nunca gostei muito dela.
A Senhora Kaya, o Mestre Zarek e a Rainha Vraska olharam uns para os outros e então curvaram as cabeças em uníssono. O Mestre Zarek proferiu as formalidades: "Nós a honramos, Exava, como uma bruxa de sangue de raro talento, e imploramos uma audiência com seu mestre, o Deflagrador."
Dama Exava os estudou em silêncio. Então olhou para o poço. A lava borbulhou, mas nada mais apareceu, incluindo o demônio.
"Aparentemente", disse ela em um contralto rico, "o Deflagrador não implora por nenhuma audiência com vocês."
Mas naquele momento, a voz estrondosa de Rakdos ecoou por toda a caverna: "ONDE ESTÁ NOSSA EMISSÁRIA?"
Rakdos, o Showman | Arte de: Viktor Titov
O Mestre Zarek encarou a Rainha Vraska, que deu um passo à frente, pronta para aceitar o que quer que viesse em sua direção. Mas antes que pudesse falar, uma voz gritou: "Ela está aqui!"
O quê?! Sério?! Hekara?!
Virei-me para a entrada principal. Era o Senhor Tomik Vrona, liderando um único thrull Orzhov, que carregava um cadáver coberto.
Não. Não, não, no, não, não. . .Por que você faria isso comigo?
O Senhor Vrona sinalizou para o thrull, que parou. Ele descobriu o rosto do cadáver, o rosto da Hekara. Ele disse: "Trouxe a Hekara de volta para o seu povo."
Corri para o lado da Hekara. O thrull era alto, e tive que ficar na ponta dos pés para ver minha amiga e beijar sua bochecha pálida. Era real agora. Honestamente, não saberia dizer se isso tornava as coisas melhores ou piores.
Dama Exava limpou a garganta impacientemente. Disse: "Faça sua criatura colocar a bruxa das lâminas no palco aos meus pés."
O Senhor Vrona gesticulou, e o thrull obedeceu. Eu o segui.
Dama Exava ajoelhou-se ao lado da Hekara e arrancou sua mortalha. Exava a lançou para o ar, e ela irrompeu em chamas dramaticamente — excessivamente dramático. Suas cinzas choveram sobre todos nós.
A bruxa de sangue correu a mão do topo da cabeça da Hekara até as pontas dos dedos pintados dos pés dela em uma carícia perturbadora, quase erótica. Ela disse: "Deveria tê-la trazido de volta antes."
"Peço desculpas", o Senhor Vrona disse com uma reverência. "As coisas estiveram um tanto caóticas na superfície."
"Isso não é preocupação do Culto."
"Mas deveria ser", o Mestre Zarek declarou.
Dama Exava levantou-se, estalando os dedos com desdém. Em segundos, mais seis bruxas de sangue apareceram em mais seis nuvens de fumaça vermelha. Elas vieram preparadas e rapidamente despiram a Hekara e então a adornaram com trapos e sinos. Quando o processo terminou, Dama Exava disse: "Faça seu thrull levar a Hekara para a Cripta do Bobo." Ela apontou um longo e elegante dedo para a abertura nociva.
O Senhor Vrona fez mais dois gestos com as mãos, e o thrull pegou a Hekara. Suponho que eu devesse tê-lo avisado.
Mas por algum motivo, não avisei.
Flanqueado por uma procissão das seis bruxas, o thrull caminhou monotonamente pela abertura com a Hekara nos braços.
Tardiamente, disse para ninguém em particular: "Espero que o Senhor Vrona não gostasse daquele thrull. Não vai ver ele de novo."
E de novo como combinado, meus companheiros congelaram ao som do grito de morte do thrull. O Senhor Vrona pareceu horrorizado. Tudo o que consegui fazer foi dar de ombros.
Dama Exava disse: "Voltarei em breve. Fiquem aqui." Ela então irrompeu em chamas, tal como a mortalha da Hekara. Cinzas choveram de novo, mas nenhum de nós achou que a bruxa de sangue tivesse de fato queimado.
Meus pensamentos estavam com a Hekara. Eu nunca vira o rosto dela antes quando não estivesse sorrindo. Mesmo quando representava tragédia, seus olhos sorriam. Não mais. Sem sorriso nos olhos. Sem sorriso nos lábios. Sem palavras gentis trocadas entre amigas.
"Você é a minha Rat."
"Sou a sua Rat."
Tudo se fora. Para sempre.
O Senhor Vrona dizia ao Mestre Zarek: "Você teve seus deveres; eu tive os meus."
O Mestre Zarek o olhou. "Que seriam o quê exatamente?"
O Senhor Vrona olhou diretamente para a Senhora Kaya: "Sou assistente executivo da verdadeira mestre de guilda dos Orzhov. Por anos, acreditei que fosse a Teysa Karlov. Agora sei que é a Kaya. E assim tenho me ocupado de servir à minha senhora."
A Kaya sorriu e agradeceu a ele. Então a epifania bateu: "Tomik, você foi quem de fato reuniu as tropas Orzhov para a batalha."
"Isso foi principalmente o gigante Bilagru. Você causou uma boa impressão nele."
"Depois que você mandou ele pra mim e preparou o terreno."
O Senhor Vrona inclinou a mão esquerda como quem diz, Tal é o meu dever.
Nisso, Dama Exava emergiu da Cripta do Bobo, suas mãos absolutamente gotejando sangue de thrull.
Mais uma vez, a Rainha Vraska deu um passo à frente, dizendo: "Grande e talentosa Exava, Ravnica requer a sua ajuda. Se a Hekara estivesse viva, ela instaria você a nos ajudar a convencer o seu mestre—"
Dama Exava interrompeu: "A Emissária Hekara morreu porque depositou sua confiança em vocês três." Ela apontou da rainha para o Mestre Zarek e para a Senhora Kaya. "Uma de vocês a traiu, um de vocês a renegou e uma de vocês simplesmente falhou com ela."
"Tudo verdade", o Mestre Zarek disse com evidente remorso — porém com não pouca determinação. "E não há garantias agora, exceto esta: se as dez guildas não se unirem, Ravnica está certamente condenada."
"Então o Culto de Rakdos dançará sobre o túmulo de Ravnica. Somos muito bons em dançar sobre túmulos. É uma especialidade."
"Tenho certeza que são, e tenho certeza que é", o Mestre Zarek rebateu. "Mas os mortos não podem dançar."
"Você se surpreenderia."
"Por favor, ouça. O Niv-Mizzet nos deixou um último plano para derrotar Nicol Bolas. Se você permitir que eu explique—"
"NÓS JÁ CONHECEMOS CADA DETALHE DO ÚLTIMO GOLPE DE PODER DO FALECIDO MENTE DE FOGO", ecoou a voz de Rakdos. "NÃO QUEREMOS NADA COM ISSO!"
Dama Exava sorriu perigosamente. "Acho que vocês deveriam ir", disse ela.
"Mas—"
"Antes que realmente deixem ele puto."
O Mestre Zarek, o Senhor Vrona, a Rainha Vraska e a Senhora Kaya todos olharam para dentro de si, estudando se havia algo que pudessem fazer ou dizer que fizesse diferença. Mas no fim, seus ombros todos coletivamente murcharam, e se viraram para ir embora.
O Teyo virou-se para mim e perguntou: "É isso? Estamos desistindo?"
Mas eu não estava ouvindo de verdade. Senti um cheiro ou ouvi algo ou percebi alguém~estava encarando a abertura da Cripta do Bobo. Alguém atrás de mim arquejou.
"Qual é a pressa de vocês, parceiros?" Hekara disse, emergindo do espaço sombrio.
Eu deveria ter corrido até ela e jogado meus braços ao redor dela. Mas só fiquei ali parada, com medo de ter esperança de que o que eu estava vendo fosse real, sabe?
"Hekara?" o Mestre Zarek disse.
"Ué, sim", respondeu ela com um dar de ombros.
"Você não estava morta?" a Rainha Vraska disse.
"Ué, claro. Sentiram minha falta?"
"Mais do que você imagina~minha amiga", o Mestre Zarek disse.
"Para com isso", Hekara disse. "Vai me deixar com vergonha. Brincadeira! Eu nunca fico com vergonha. Podem ser melaços o quanto quiserem. É teatro de quinta mas todos temos nossos prazeres culpados, né?"
A Rainha Vraska disse: "Te devo um pedido de desculpas, Hekara. Nunca deveria ter traído a sua confiança."
"Foi uma coisa bem bosta de se fazer. E morrer foi um saco. Mas hey, tudo deu certo no fim. Afinal, você não pode ser ressuscitada como uma bruxa de sangue se não morrer primeiro, né?"
Acho que eu estava chorando. Sei lá. Não me importava também. "Você é uma bruxa de sangue agora?" perguntei com certa reverência.
Mas o Mestre Zarek não conseguia me ouvir e falou por cima de mim, fazendo sua própria pergunta: "Você consegue convencer o Rakdos a se juntar à Operação Desespero?"
"Ooh, belo título", Hekara disse, "Enfim, não esquenta. Vou representar o Culto no que quer que vocês tenham planejado, colega."
"Não, você não vai", Dama Exava trovejou. "O Deflagrador deixou seus desejos claros."
"Sério? Porque ele não me disse uma palavra."
"Na hora, você estava morta e por isso era uma plateia um tanto desatenta."
"Ele podia me corrigir agora."
"Não há necessidade", Dama Exava disse. "Eu estou fazendo isso."
Mas a Dama Hekara apenas balançou o dedo para a Exava. "Mas você não é a Chefe. Não manda em mim, de qualquer jeito. Você é só uma bruxa de sangue. E como eu sou uma bruxa de sangue agora também, tô achando que não preciso seguir as suas ordens. Você não me supera mais no posto, Exava. Você só me supera de lado."
"Bruxa, vou te matar tudo de novo!" Dama Exava saltou, suas mãos sangrentas buscando a garganta da Hekara.
Hekara deu uma estrela para longe. A estrela virou um salto mortal, que virou um mortal para trás. Hekara pousou no palco, e eu aplaudi!
Uma vez que teve a vantagem do terreno elevado, Hekara manifestou múltiplas lâminas em ambas as mãos e lançou todas simultaneamente. "Uma vez uma bruxa das lâminas, sempre uma bruxa das lâminas!"
Malabarista de Lâminas | Arte de: Dmitry Burmak
Dama Exava foi pega desprevenida. Aparou a maioria das lâminas com um aceno de mão, mas mais de uma perfurou sua pele. Mal a desacelerou, mas a Hekara não estava exatamente nessa luta sozinha. O Mestre Zarek ligou seu Acumulador e disparou um raio relativamente pequeno que pegou a Exava por trás. Ela gritou e caiu de joelhos.
Um cão infernal reagiu, mas a Hekara o interceptou, dizendo: "Para com isso, Serralha. Senta!"
A Serralha parou mas não sentou. Rosnou ameaçadoramente, a boca gotejando saliva ácida que sibilava ao atingir o chão. O Mestre Zarek recarregou, pronto para fritar a besta. Hekara fez sinal para ele parar mas nem se deu ao trabalho de olhar para o lado dele. Continuou falando calmamente com a Serralha: "Não liga pro Ral. Ele é legal. E a Exava vai voltar a ser a diva de sempre num instante. Agora senta!"
A Serralha sentou.
Hekara gritou para o ainda ausente Rakdos: "Vou ajudar meus colegas agora. Você não se importa, né, Chefe?"
O Deflagrador permaneceu em silêncio.
"Ok, então", Hekara disse com uma risada. "Vamos nessa!" Então ela caminhou na minha direção. Estendi os braços para um abraço ou um giro ou qualquer coisa que ela quisesse fazer.
"C'mere, baby-cakes, gimme some sugar."
"Sou a sua Rat."
"Você é a minha Rat."
Nada disso aconteceu.
Ela passou direto por mim — sem me notar nem um pouco.
Eu~eu fiquei atônita. Olhei para cima e vi o Teyo e a Senhora Kaya me olhando com pena. Depois olhei para longe. Mas todos sabíamos. Instantaneamente. Qualquer que tivesse sido o processo que trouxera a Hekara de volta à vida, tinha mudado ela o suficiente para que ela não conseguisse mais me ver.
Eu acabei de perder ela tudo de novo~
Mas que diferença isso fazia agora? Tínhamos partido para trazer quatro guildas desgarradas de volta ao rebanho.
Zero faltando. Quatro cumpridas. E esta última me levou junto com ela.
Chuto que em algum momento eu devo ter voltado a respirar.
Digo, ela estava viva, né? Isso era o que importava de verdade. Eu a tinha perdido, mas ao menos ela estava de volta, sabe?
Tem coisas piores do que descobrir que alguém que você ama ainda está no seu mundo~mesmo que você não esteja mais no dela.
Caminhei bem do lado dela o caminho todo até a praça.
O Teyo disse: "Quer que eu diga algo pra ela?"
A Senhora Kaya disse: "Para de se torturar."
Fingi que não conseguia ouvir eles. Só decidi, sei lá, me banhar na presença da Hekara por um tempo.
E em algum momento, devo ter voltado a respirar.
Uma parte de mim provavelmente achou que ela me veria de novo.
Só dá tempo ao tempo~
Mas uma parte de mim sabia bem. Ela era uma bruxa de sangue agora. Ela era a Dama Hekara. E eu ainda era só uma Rat insignificante. Ela não olhava para mim. Ela não queria ver algo como eu. Ela estava muito acima de mim agora. Além disso, tinham feito algo para trazer ela de volta. Mudado ela um pouco. Mas tudo bem. Ela provocou o Mestre Zarek e a Rainha Vraska o caminho todo até o nosso destino. Então não tinham mudado ela tanto assim. E ao menos eu ainda conseguia ver ela. Uma vez que sequei meus olhos.
Esperamos, conforme um por um (ou ocasionalmente dois a dois) todos faziam sua chegada furtiva em meio às ruínas da antiga Embaixada do Pacto das Guildas — se esforçando muito para se reunir sem atrair a atenção dos esquisitões ou da Senhorita Cabelos-de-Corvo. Sorri para o Teyo. Pude notar que ele ainda estava preocupado comigo, então mudei de assunto: "Não se preocupe. Vou explicar tudo o que acontecer conforme fomos indo."
Ele disse: "Acho que já peguei a essência de tudo a essa altura."
"É, mas você não conhece a maioria dos jogadores."
Ele começou a dizer algo, parou e depois disse: "Obrigado, Araithia. Isso seria muito prestativo. E espero~muito divertido."
"Você só ama me ouvir tagarelar."
Ele corou então. O que me fez corar. Então dei um soco no braço dele.
"Ai."
"Isso não doeu."
"Eu não sou quem devia julgar isso?"
"Não, seu bebezão."
"Ainda sou mais velho que você."
"Não muito."
"Não. Não muito."
"Eu venci." Senti vontade de beijar ele, o que era bem estranho. Então dei outro soco nele.
"Ai."
Todo mundo estava se reunindo, então comecei. "Operação Desespero, o plano final do Mente de Fogo requer as dez guildas, as linhas de força de Ravnica, os ossos carbonizados do Niv-Mizzet, e aquele troço."
Eu estava apontando para um modelo de latão de uma cabeça de dragão — a cabeça do Mestre Niv-Mizzet, especificamente — sendo carregada para frente pelo Quimista-Chefe Varryvort, um goblin Izzet. "Chama-se o Receptáculo do Mente de Fogo e conterá o espírito dele quando for convocado de onde quer que esteja residindo atualmente — assumindo que isso funcione, é claro, e dado o nome do plano isso poderia facilmente ser querer assumir demais, sabe?"
O Chefe Varryvort colocou gentilmente o Receptáculo sobre os ossos enegrecidos do Mestre Niv-Mizzet.
"Veja bem, o Plano A tinha sido dar ao Mestre Niv-Mizzet o poder de lutar contra o Bolas. Isso não deu certo, e você pode ver o resultado final. O Plano B — de B de Beacon, Farol — falhou também. Este é o Plano C, eu acho. A menos que eu tenha perdido a conta.
"Então ali, o Mestre Zarek está consultando a Senhorita Revane. O Senhor Beleren diz que ela é uma espécie de especialista em linhas de força. Tem uma conexão mágica com elas. Então o Mestre Zarek está explicando o que eles precisam realizar."
O Mestre Zarek e a Senhorita Revane falavam baixo demais para que qualquer um de nós pudesse distinguir as palavras. Mas quando o Mestre Zarek se calou, eu me calei também. A Senhorita Revane então procedeu a estudar o problema por~uma eternidade. Ficou completamente imóvel o tempo todo, lembrando mais uma estátua pintada do que um ser vivo. Enquanto a observávamos, o Chefe Varryvort veio para o lado do Teyo, chuto eu para sair do caminho. Não me vendo, ele ia pisar em mim, mas eu só dei um passo lateral para o outro lado do Teyo.
Finalmente, a Senhorita Revane assentiu, dizendo: "Pode ser possível. As linhas de força foram perturbadas pela Ponte Interplanar, mas com a Ponte removida, acredito que posso repará-las e ajudar Ravnica a se reafirmar."
"Bom, isso é promissor, ao menos", eu disse. "Agora só temos que esperar o restante dos representantes das guildas se reunirem."
O Mestre Zarek, a Senhora Kaya e a Rainha Vraska já estavam presentes, assim como a Hekara, claro. A Senhorita Lavínia chegou a seguir. Parece que o Mestre Dovin Baan fugira de Ravnica, e a Senhora Lavínia era agora a mestre de guilda interina do Senado Azorius.
Lavinia, Renegada Azorius | Arte de: Steven Belledin
Uma Hekara impaciente dava estrelas pela câmara dizimada, sinos tilintando nas fitas de couro de seu novo traje. Suspirei alto: "Ela é tão legal!" Então ela deu uma estrela passando direto por mim.
Mas tudo bem, né? Tudo bem!
O Borborygmos chegou a seguir com meus pais. A Ari sorriu para mim e me apontou para o Gan Shokta e para o ciclope. Ambos apertaram os olhos para o espaço ao lado do Teyo até conseguirem me ver. Me fez sentir um pouco melhor, e eu disse ao Teyo: "Minha mãe também é bem legal."
A Milady Emmara Tandris, campeã do Conclave Selesnyano, chegou com o meu padrinho, Boruvo, que trocou alguns rosnados perigosos com seus antigos companheiros de clã Gruul — particularmente com a minha mãe, que o considerava um traidor por ter mudado de guilda. Fiquei pensando se é por isso que ainda sou Sem-guilda. Será porque sei que não me encaixo nos Gruul — mas não quis arriscar perder ela escolhendo uma guilda diferente?
Krokt sabe que não posso me dar ao luxo de perder mais ninguém.
E, quem sabe? Eu poderia me encaixar bem nos Gruul. Difícil dizer.
Notei o Teyo se preparando, pronto para criar um escudo para evitar uma briga. Mas não ia ter briga nenhuma. Lancei a todos um olhar severo e disse: "Será que não podemos todos nos dar bem?"
Os quatro assentiram sem muita relutância.
Depois veio a Oradora Primária Vannifar do Conluio Simic, acompanhada pelo Senhor Vorel.
Então a Senhora Aurélia, mestre de guilda da Legião Boros, chegou voando, ainda quente da batalha.
Apenas quando todos os outros mostraram seus rostos é que o Mestre de Guilda Lazav da Casa Dimir revelou que estivera ali o tempo todo — bem do lado do Teyo e de mim — morfando a partir da forma do Chefe Varryvort.
"Droga, Lazav!" o Mestre Zarek disse em voz ríspida e perigosa. "O que diabos você fez com o Varryvort de verdade?"
O Mestre Lazav "tranquilizou" o Mestre Zarek com um sotaque preguiçoso: "Seu talentoso quimista-chefe está dormindo uma sesta. Ele ficará bem de manhã — assumindo que isto tenha sucesso, e que qualquer um de nós esteja bem de manhã."
Notei que a Senhorita Revane estava parecendo desconfortável, então cutuquei o Teyo com o cotovelo. Ele me encarou, confuso. "Ajuda a elfa", sussurrei.
Ele assentiu e deu um passo à frente, dizendo: "Se todos pudessem apenas se reunir ao redor da Senhorita Revane."
A Senhora Kaya aproximou-se, e a Senhorita Revane silenciosamente indicou onde precisava que a mestre de guilda Orzhov ficasse. O processo se repetiu sucessivamente com Hekara, Mestre Zarek, Senhora Lavínia, Mestre Lazav, Senhora Aurélia, Borborygmos, Oradora Primária Vannifar, Rainha Vraska e Milady Emmara. Houve algum resmungo (bem bobo) — e desconfiança considerável entre todos eles, com a Senhora Lavínia e a Rainha Vraska quase batendo de frente quando a Senhorita Revane as colocou uma ao lado da outra. Mas a Senhorita Revane finalmente optou por falar, declarando: "Deixem-me ser clara: sem um ato perfeito de união de cada guilda em concerto, o plano não tem esperança de sucesso. Vocês devem colocar todas as queixas — mesquinhas ou não — para trás." O ato de dizer tantas palavras em sequência pareceu exaurir visivelmente a elfa, mas surtiu efeito. Logo, os dez representantes das guildas estavam em um círculo levemente torto ao redor da Senhorita Revane, e dos ossos e Receptáculo do Mente de Fogo. Os poucos restantes presentes — eu mesma, o Teyo, o Mestre de Lanças Boruvo, o Senhor Vorel, a Ari e o Gan Shokta — estávamos em um tipo de amontoado logo do lado de fora do círculo. Minha mãe parecia estar olhando o Teyo de cima a baixo. Franziu o cenho um pouco e me lançou um olhar interrogador. Aparentemente, o Teyo Verada não passara no crivo de amigo confiável para a filha da Ari Shokta.
Foi meio mortificante, e além disso, eu não queria os sentimentos do Teyo feridos, então olhei para o lado, fingindo não notar.
"Vocês estão sobre as antigas linhas de força do Pacto das Guildas", disse a Senhorita Revane, trazendo nossa atenção de volta ao assunto em questão.
"O que tem exatamente a ver com ossos de dragão?" a Senhora Aurélia perguntou em um tom decididamente suspeito.
A elfa novamente pareceu desconfortável, e o Mestre Zarek deu um passo à frente antes de recuar rapidamente quando a Senhorita Revane o fulminou com o olhar por ter saído do seu lugar designado. Ele disse: "Estamos aqui para ressuscitar o Mente de Fogo como o novo Pacto das Guildas Vivo."
Aparentemente, isso era novidade para metade dos líderes de guilda.
O Senhor Vorel gritou: "O quê?" e a Senhora Aurélia rosnou: "É isso que é isto?" mais ou menos em concerto. O Borborygmos rugiu junto com os dois.
A Senhora Lavínia resmungou: "Não tentamos isso já, quando ele estava vivo? O que faz você pensar que—"
Hekara disse: "Não se chama Operação Desespero à toa, sabe."
O Mestre Zarek ergueu as mãos e disse: "Nós tentamos, e falhamos. Mas os mesmos termos se aplicam. Jace Beleren perdeu o poder do Pacto das Guildas Vivo. Precisamos desse poder para derrotar Nicol Bolas. Se tivermos sucesso aqui, o Niv-Mizzet se erguerá novamente para esse poder e o usará contra o Dragão Ancião. Então o Mente de Fogo renunciará como mestre de guilda dos Izzet e, como um dos paruns mais antigos, sábios e veneráveis de Ravnica, assumirá seu novo papel como árbitro imparcial para as dez guildas e Sem-guilda, por igual. Os deuses sabem que ele mal pode fazer um trabalho pior do que o Beleren."
A Senhora Lavínia, a Rainha Vraska e a Milady Emmara franziram o cenho com esse último comentário, mas os demais simplesmente reconheceram a verdade daquilo e se acalmaram um pouco.
Ficando na ponta dos pés, sussurrei no ouvido do Teyo: "Fico feliz que ele reconheceu os Sem-guilda. Somos sempre esquecidos quando os figurões se reúnem para falar de negócios de guilda."
Hekara estava praticamente pulando para cima e para baixo, dizendo: "Nunca fiz parte de uma conjuração de todas as guildas. Agora estou até feliz que o Chefe não quis vir ele mesmo."
A Senhora Aurélia balançou a cabeça e zombou: "O demônio não se dá ao trabalho de salvar Ravnica, então Rakdos envia uma de suas servas."
Sussurrei de novo: "A Legião Boros sempre foi intolerante com os Rakdos."
Hekara balançou o dedo para a Senhora Aurélia. "Não é nada disso. O Chefe não me mandou no lugar dele. Eu vim totalmente sem a permissão dele."
A Rainha Vraska deu um sorrisinho. "Hekara, se formos honestas, você veio em aberto desafio aos desejos dele."
"Exatamente!"
Isso deu início a outra rodada de resmungos e recriminações. A Milady Emmara e a Oradora Primária Vannifar viraram-se contra o Mestre Zarek, exigindo saber como ele esperava qualquer sucesso quando o epônimo mestre de guilda e parun do Culto não estava a bordo.
A Senhora Aurélia disse: "Até tentar isso é virtualmente inútil."
Após um olhar frustrado do Mestre Zarek, Hekara tentou pedalar seu monociclo verbal para longe de sua anterior rebeldia descuidada. "Não me entendam mal. O Chefe está totalmente apoiando este esforço."
O Mestre Zarek interveio (verbalmente, é claro — ele não ia sair de seu lugar designado e arriscar outro olhar feio da Senhorita Revane): "Mais vale tentarmos. A cerimônia levará apenas~" Ele parou com um olhar interrogativo para a Senhorita Revane.
"Cinco minutos no máximo", ela respondeu. "Assumindo que funcione de alguma forma."
A Senhora Kaya disse: "Cinco minutos? O tempo é precioso, mas em cinco minutos não podemos nos dar ao luxo de não fazer o esforço."
A Senhorita Revane olhou ao redor do círculo. Um por um, cada um dos dez assentiu em concordância, alguns com entusiasmo, alguns com determinação, alguns com considerável relutância. Mas todos assentiram, de qualquer forma.
Longe de parecer entusiasmada, determinada ou relutante, uma aparentemente sem emoção Senhorita Revane disse: "Todos, respirem fundo."
O Teyo inspirou e expirou profundamente.
Dei um risinho. "Acho que ela só estava falando com as pessoas no círculo."
Ele corou profundamente.
"Ah, olha só", eu disse. "Você é tão fofo quando está com vergonha."
Ele corou mais profundamente ainda.
"É, tipo isso!"
Minha mãe olhou feio de novo. Ignorei ela mais ainda.
Conforme o Teyo lutava para recuperar a compostura, a Senhorita Revane começou a entoar — baixo demais para eu ouvir. De onde ela estava, ao lado dos ossos e do Receptáculo, linhas começaram a se acender sob seus pés. Linhas pretas. Linhas azuis. Linhas verdes. Linhas vermelhas. Linhas brancas. Então, subitamente, as linhas dispararam em múltiplas direções de uma só vez, formando círculos concêntricos sob os pés dos dez representantes.
Os olhos do Teyo se arregalaram, e ele estudou as linhas com fascinação. Acho que elas apelaram para a mente geométrica dele, sabe?
O que interessava a ele estava começando a me interessar por algum motivo, então tentei prestar atenção. Todos os representantes tinham dois círculos coloridos sob eles, e não havia duas combinações iguais. A Senhora Kaya, por exemplo, estava cercada por um círculo de branco e um círculo de preto. Linhas pretas conectavam seu círculo preto a círculos idênticos ao redor da Rainha Vraska, do Mestre Lazav e da Hekara. O segundo círculo da Hekara era vermelho, que a conectava ao Borborygmos, à Senhora Aurélia e ao Mestre Zarek. O segundo círculo deste último era azul, conectando-o à Senhora Lavínia, ao Mestre Lazav e à Oradora Primária Vannifar. O segundo círculo da Oradora Primária era verde, conectando-a ao Borborygmos, à Rainha Vraska e à Milady Emmara. O segundo círculo da Milady era branco, conectando-a às Senhoras Lavínia, Aurélia e Kaya. Era meio perfeito, quando se para pra pensar. Enfim, o Teyo pareceu gostar muito.
Àquela altura, os onze participantes da cerimônia (incluindo a Senhorita Revane) tinham caído em algum tipo de transe, ostentando onze olhares vazios. De repente, luz dourada jorrou de vinte e um olhos sem visão.
Um número ímpar, porque, sabe, o Borborygmos é um ciclope e só tem um.
A Operação Desespero fora ativada. Um portal incolor — como água límpida — abriu-se acima do Receptáculo do Mente de Fogo, e fumaça diáfana de azul e vermelho emergiu e desceu, como se sugada do portal para o Receptáculo. Os ossos inflamaram-se, chamas amarelas brilhantes e alaranjadas subindo alto — e emitindo luz suficiente para nos cegar temporariamente a nós que assistíamos. Erguemos as mãos para proteger os olhos e, apertando-os, vi a Senhorita Revane envolta em fogo. Envolta mas não em chamas: a elfa não gritou nem se contorceu nem queimou. O incêndio expandiu-se dos ossos, Receptáculo e elfa para abranger os dez líderes das guildas. E como a Senhorita Revane, eles não mostraram sinais de estarem sendo queimados pelo fogo. Ainda em transe, não pareciam notá-lo.
Infelizmente, algo mais notou.
Fui a primeira a ver, apontando para cima e gritando por cima do rugido do fogo: "Temos companhia!"
Conforme a luz do fogo brilhava mais e mais, tinha atraído a atenção de um dos Deuses-Eternos. Eu não lembrava o nome dele, mas tinha uma cabeça meio em forma de pássaro e só um braço. O esquisitão gigante cruzou a praça em passos tremendos e logo estava pairando sobre as ruínas da antiga embaixada, espiando para baixo a Operação Desespero, ainda em progresso, e todos nós!
Deus-Eterno Kefnet | Arte de: Lius Lasahido
O Teyo nem pensou, abençoado seja. Conforme o punho maciço e único do esquisitão balançou para baixo, o Teyo ergueu ambas as mãos e manifestou uma meia esfera de luz que cobria todos nós dezessete. Quando o punho do esquisitão esmagou contra ela, o escudo mal aguentou — e o Teyo foi abalado, atordoado. Ele caiu de joelhos e eu o agarrei para impedir que caísse de cara.
Ele assentiu entorpecido e ergueu os braços de novo.
Outro golpe desceu. O escudo de luz estilhaçou no impacto — mas impediu o punho do Deus-Esquisitão de fazer contato com qualquer um de nós. O Teyo gemeu e balançou a cabeça para clarear. Atordoado como estava porém, não conseguia invocar um novo escudo. O próximo golpe esmagaria a todos nós.
Mas o Teyo tinha comprado para a Senhorita Revane e os líderes de guilda o tempo de que precisavam. O ritual fora completado sob o escudo dele. Mana suficiente fora filtrada através dos participantes para fluir por e ao redor dos ossos e do Receptáculo do Mente de Fogo. As chamas amarelas e alaranjadas tornaram-se douradas e inflamaram a fumaça azul e vermelha dentro do Receptáculo. A fumaça queimou brevemente roxa antes que as chamas douradas sobrepujassem todas as outras cores. O incêndio pareceu tomar forma e solidificar-se ao redor dos ossos do dragão, preenchendo-os, transformando-os de esqueleto em criatura viva.
E então o Mestre Niv-Mizzet renasceu, com escamas de ouro brilhante para combinar com o brilho dourado emanando de seus olhos. Um decágono estava gravado — queimado, na verdade — em seu peito, e esferas mágicas de preto, azul, verde, vermelho e branco rodopiavam ao seu redor, como cinco planetas orbitando o sol.
Ainda sustentando o peso do Teyo, eu disse: "Isso é diferente."
O Teyo não conseguia falar. Seus olhos rolaram para cima na cabeça, e segui o olhar deles a tempo de ver o punho do Deus-Esquisitão descendo em nossa direção.
Mas o novo e supostamente melhorado Mente de Fogo abriu suas asas e lançou-se para cima contra o monstro. As asas douradas do dragão brilhavam com uma luz dourada, e seu arco ascendente decepou o punho do Deus-Esquisitão na altura do pulso. Ele aterrissou como uma pedra uns três metros atrás de nós, sacudindo o chão mas não causando mais dano.
O esquisitão com cabeça de íbis balançou seu membro único, truncado e coberto de lazotep em direção ao Mestre Niv-Mizzet, mas o dragão desviou facilmente do golpe, batendo as asas uma vez para se erguer acima do seu oponente. Então o Mente de Fogo abriu sua bocarra; seus incisivos superior e inferior rasparam um contra o outro, gerando uma centelha, que inflamou o sopro do dragão. Uma torrente interminável de chamas engoliu o Deus-Eterno, incinerando o que restava de sua carne e derretendo sua cobertura de lazotep em uma chuva derretida que caiu uns três metros à nossa frente, sibilando contra o chão mas não causando mais dano.
A Ari e o Gan Shokta vibraram. O Senhor Vorel rosnou com óbvia satisfação. O Mestre de Lanças Boruvo grunhiu o mesmo. Eu sorri, e suponho que o Teyo lutava para não desmaiar. Minha mãe ajoelhou-se ao nosso lado e, colocando uma mão rude no ombro do Teyo, disse: "Seu garoto se saiu bem, Araithia."
Agora foi a minha vez de corar. "Ele não é o meu garoto", eu disse. "Ele é meu amigo."
"Ele consegue te ver, e consegue te proteger."
"Não preciso de proteção."
"Todos precisamos de proteção às vezes. Só não precisa dela com muita frequência."
"Não, mãe."
Os onze estavam apenas começando a sair de seus transes. O Mestre Zarek balançou a cabeça para clarear e então olhou para cima~exatamente a tempo de ver o Mestre Niv-Mizzet cair.
O dragão colidiu no chão uns três metros à nossa esquerda, sacudindo a terra — e estilhaçando todas as nossas esperanças. O Mente de Fogo jazia ali, respirando pesadamente e mal se movendo. Uma asa parecia dobrada sob o corpo dele em um ângulo tão estranho que tive que me encolher.
O Gan Shokta disse: "É isso? O grande poder do novo Pacto das Guildas Vivo já se esgotou lidando com um único Eterno maneta?"
O Mestre Zarek pareceu chocado, e todos os outros pareceram aflitos, bravos ou os dois. De repente, a noção de que o Mestre Niv-Mizzet teria de alguma forma o poder para derrotar Nicol Bolas pareceu tola e, bem, desesperada.
12 de Junho de 2019 | Por Greg Weisman
Cinzas
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Muitas coisas tinham corrido bem. O Farol dos Izzet, o Sol Imortal, a Ponte Interplanar e o fluxo de Eternos de Amonkhet tinham sido todos desligados. Cada guilda se juntara à luta, e o Senhor Fayden, o Senhor Karn, a Senhorita Samut e o Senhor Sarkhan Vol tinham até retornado de Amonkhet com uma lança impressionantemente grande, propriedade de uma Deusa chamada Hazoret, que já se provara útil na batalha. Dois dos quatro Deuses-Eternos — além de qualquer número de esquisitões de tamanho normal — tinham sido destruídos. E o melhor de tudo, a Hekara estava viva de novo! Coisas boas, sabe?
Mas nem tudo era sol e alegria também. Na verdade, não tinha sol nenhum. O chamado Feitiço Ancião de Bolas criara uma vasta tempestade de magia, mergulhando toda Ravnica em uma noite artificial pontuada pelas Centelhas de Planeswalker roubadas que cruzavam o céu como cometas em direção ao Bolas e à joia mística flutuando entre seus chifres, alimentando o dragão e o seu poder. Muitos Planeswalkers tinham perdido aquelas Centelhas e suas vidas para o exército Eterno que ainda ocupava o nosso mundo. A tentativa de matar a Senhorita Cabelos-de-Corvo, Liliana Vess, falhara, e aquela necromante ainda controlava aqueles Eternos para o Bolas. E, claro, o novo Pacto das Guildas Vivo — o Mestre Niv-Mizzet, o Mente de Fogo — jazia catatônico no chão em meio às ruínas da embaixada, com toda a sua energia mística gasta na matança de apenas um dos Deuses-Esquisitões.
E tinha o Nicol Bolas, ele mesmo. O Dragão Ancião ainda sentava em seu trono, como se nenhum dos nossos esforços tivesse valido de nada.
A maioria de nós estava de volta ao Senado Azorius, para a nossa segunda cúpula deste dia inacreditavelmente longo e inacreditavelmente horrível.
O Senhor Jura estava mais uma vez se dirigindo à multidão de Planeswalkers, membros de guilda Ravnicanos e eu: "Sempre ia acabar em batalha. Tentar ressuscitar o Niv-Mizzet foi um esforço válido, mas mesmo com a ajuda dele, ainda ia acabar em luta. Então, tudo bem, não temos a ajuda do Mente de Fogo. Mas as coisas estão longe de serem desesperadoras aqui. Diminuímos o rebanho Eterno. Destruímos metade dos Deuses-Eternos do dragão. Agora precisamos terminar isso usando a Lâmina Negra no Bolas."
Ele falava com tanta confiança, tanta autoridade, que era bem tranquilizador, sabe?
"O plano, desta vez, é bem simples. No momento, o Bolas recuou o grosso de suas forças para a sua Cidadela. Então responderemos lançando um ataque massivo em duas frentes. Por terra, cada membro de guilda, cada Planeswalker — diabos, cada Ravnicano que consiga segurar uma arma — lançará um ataque frontal total. Tudo o que temos. Tudo de uma vez. Todo mundo. A menos que você consiga voar ou consiga uma carona em algo que voe. Depois, enquanto o ataque terrestre mantém os Eternos ocupados, a Aurélia, eu e o resto das nossas forças aéreas combinadas atacaremos por cima. Farei uso da minha invulnerabilidade para chegar perto. Então esfaquearei o Bolas com a Lâmina Negra. E tudo terá terminado." Ele fazia parecer muito simples, muito fácil.
Fácil demais~
Ouvi o Senhor Vrona pedir uma espada à Senhora Lavínia.
O Mestre Zarek puxou ele de canto e disse: "Você não é um lutador."
"Somos todos lutadores hoje."
As Sentinelas, enquanto isso, estavam fazendo um teatrinho sobre a renovação de seus Juramentos. O Senhor Jura começou, erguendo a Lâmina Negra bem alto mais uma vez e dizendo: "Nunca mais. Em nenhum mundo. Por este meio eu juro: pelo Portão Marinho, por Zendikar, por Ravnica e todo o seu povo, pela justiça e pela paz, eu manterei a sentinela. E depois que o Bolas cair, quando qualquer novo perigo surgir para ameaçar o Multiverso, eu estarei lá com as Sentinelas ao meu lado."
Achei que talvez todos tivessem um Juramento comum, mas o Senhor Beleren foi mais breve: "Nunca mais. Pelo bem do Multiverso, eu manterei a sentinela."
Certo. Variações sobre um tema. Isso mantém as coisas mais interessantes, ao menos.
A Senhorita Nalaar deu um passo à frente e falou: "Cada mundo tem seus tiranos, seguindo seus próprios desejos sem nenhuma preocupação com as pessoas que eles pisoteiam. Então, eu digo, nunca mais. Se isso significa que as pessoas podem viver em liberdade, eu manterei a sentinela. Com todos vocês."
O Senhor Teferi entoou: "Desde tempos imemoriais, os fortes têm assolado os fracos. Nunca mais. Pelos perdidos e esquecidos, eu manterei a sentinela."
Então, sorrindo para os outros, o Senhor Juba d'Ouro rosnou: "Eu vi tiranos cujas ambições não conheciam limites. Criaturas que se intitulavam deuses ou pretores ou cônsules mas pensavam apenas em seus próprios desejos, não naqueles que governavam. Populações inteiras enganadas. Civilizações mergulhadas na guerra. Pessoas que estavam simplesmente tentando viver sendo forçadas a sofrer. A morrer. Nunca mais. Até que todos tenham encontrado seu lugar, eu manterei a sentinela."
Finalmente, esses cinco viraram-se para olhar para a Senhorita Revane. Ela parecia, como de costume, relutante em falar. Então lançou um olhar para a Senhorita Nalaar, que mordia o lábio e olhava de volta para ela com trepidação.
A elfa sorriu então. Foi um sorriso que veio e foi num instante, mas eu peguei. Ela deu um passo à frente e falou em uma voz suave e clara como um sino: "Eu vi um mundo reduzido a ruínas, a terra reduzida a poeira e cinzas. Deixado sem controle, o mal consumirá tudo em seu caminho. Nunca mais. Por Zendikar e pela vida que ela nutre, por Ravnica e pela vida de cada plano, eu manterei a sentinela."
A Senhorita Nalaar sorriu alegremente. E ela não foi a única. Os seis Juramentos foram mais do que um pouco inspiradores.
O Senhor Jura olhou para a multidão e perguntou: "Mais alguém?"
As pessoas lançaram olhares umas às outras ou olharam para o chão. A Senhorita Ballard deu um sorrisinho presunçoso. O Senhor Karn cruzou seus imensos braços prateados. Por um segundo pareceu que a Senhora Kaya ia falar — antes de perder a coragem. Ninguém deu um passo à frente. Ninguém falou.
O Teyo e eu trocamos olhares. Eu achava que ele daria uma ótima Sentinela, mas ele não tinha confiança para se oferecer, não porque tivesse medo de lutar pelas pessoas — mas porque não achava que estava qualificado para lutar ao lado desses heróis de peso.
Sussurrei: "Eles teriam sorte de ter você."
"Não sei", ele sussurrou de volta. "E quanto a você?"
Ri. "Você não pode proteger o Multiverso se está presa em um plano só e se os seus colegas de equipe não conseguem te ver nem te ouvir, né?"
Ele assentiu relutante e disse: "Bem, se eles não te aceitarem, então eu não quero entrar."
Vi o Senhor Jura e o Senhor Beleren pegarem a Senhorita Nalaar pelo braço e guiarem ela para longe da multidão. Curiosa, eu os segui para trás do cadáver de pedra da Senhora Isperia para, sabe, bisbilhotar.
Olha, é meio que a minha praia.
"O quê?" ela demandou alto.
O Senhor Beleren gesticulou com as mãos para ela baixar a voz.
Ela respirou fundo e perguntou: "O que foi?" em um tom consideravelmente mais baixo.
O Senhor Jura disse: "Temos um trabalho especial para você. Queremos que você volte a Nova Prahv e ligue o Sol Imortal de novo."
"O quê?" ela berrou de novo. "Vocês têm ideia do quão difícil foi desligar aquela porcaria?"
Os três trocaram olhares que pararam a indignação dela no caminho.
Ela se inclinou e sussurrou: "Vocês não confiam nos outros Planeswalkers para não fugirem."
O Senhor Beleren balançou a cabeça. "Não é isso. Precisamos que o Sol faça o trabalho para o qual foi criado. Para impedir que o Bolas dê no pé."
O Senhor Jura concordou: "De um jeito ou de outro, isso termina hoje."
"Bem, então mandem outro", disse ela. "Porque vocês estão loucos se acham que eu vou perder essa luta."
Chandra, Artista do Fogo | Arte de: Yongjae Choi
O Senhor Jura de fato deu um risinho então. "Nenhum de nós pensou isso por um momento."
O Senhor Beleren disse: "Leve quem você precisar. Coloque o Sol para funcionar e deixe uma guarda forte. Depois nós te daremos as boas-vindas na batalha."
"Não sei não", ela resmungou. "O Bolas quer o Sol ligado. Nem sei se isso é uma boa ideia."
"Parece uma boa ideia para mim." Todos os quatro nos viramos e olhamos para cima. O Senhor Dack Fayden estava sentado nas costas da Senhora Isperia, ostentando um sorrisão. "Desculpe. Não tive a intenção de bisbilhotar."
A Senhorita Nalaar zombou. "Olha onde você está sentado. É claro que teve a intenção de bisbilhotar."
"Bem, sim. Vejo as poderosas Sentinelas se sequestrarem atrás da esfinge morta, e fico um pouco curioso."
Viu só, não sou só eu. Talvez seja só uma coisa de ladrão.
"Só um pouco?" o Senhor Beleren perguntou com uma sobrancelha erguida.
"Só um pouco", o Senhor Fayden confirmou. "Olha, sei que não faço parte desta sessão estratégica, mas vou jogar meus dois zinos na roda do mesmo jeito. Ninguém quer passar por isso de novo. E se o Bolas escapar, vocês sabem que todos teremos que passar. Tô com o grandalhão aqui", ele assentiu na direção do Senhor Jura. "De um jeito ou de outro, isso termina hoje."
Os outros homens viraram-se para a Senhorita Nalaar. Os ombros dela murcharam. "Tudo bem", disse ela.
Assisti ela reunir a Senhorita Rai, a Senhorita Revane e um pequeno esquadrão dos membros de guilda mais durões que conseguiu encontrar. Eles partiram para Nova Prahv.
O Senhor Fayden e eu os vimos partir. Ele assentiu e falou baixinho: "Boa sorte, senhoras."
Então se virou e saiu andando, dizendo: "Tem um berloque dourado gigantesco a uns dois quarteirões daqui, e em vez de ir atrás dele, eu estou indo lutar contra um Dragão Ancião. Belo ladrão eu sou~"
Nosso pequeno exército marchou em direção à Praça do Décimo Distrito em quase silêncio.
Chuto que todo mundo estava pensando em seus próprios pensamentos sombrios. Todos eles tinham muito mais a perder do que eu, eu acho. Digo, eu não tinha Centelha para ser colhida, e os Eternos não conseguiam me ver nem me ouvir. Eu estava provavelmente em muito menos perigo do que a maioria.
Por outro lado, eu tinha apenas um punhado de pessoas na minha vida. Se eu perdesse mesmo que uma — do jeito que achei que tivesse perdido a Hekara nesta mesma manhã — o meu mundo encolheria imensuravelmente. (Não era provável que mais ninguém com quem eu me importasse fosse ressuscitado.) Mas entender isso era metade da batalha, sabe? Se eu era um pouquinho~invulnerável, eu usaria isso para garantir que meus amigos e família ficassem vivos e seguros.
Então talvez eu estivesse de fato me sentindo um pouco mais confiante que o resto, conforme o Teyo e a Senhora Kaya e a Hekara e todo mundo cruzava a cidade. Vi a Rainha Vraska se aproximar do Senhor Beleren por trás e quis testar minha teoria sobre os dois.
Além disso, estou numa maré de bisbilhotice~
"Jace", disse ela, engasgando na palavra.
Ele se virou, parou e sorriu. Envolveu gentilmente a nuca dela com uma mão e encostou a testa na dela. "Olá, Capitã", ele sussurrou. Sussurrou tão baixinho, na real, que se eu não tivesse invadido completamente o espaço pessoal deles, eu nunca teria ouvido.
Ela sussurrou de volta: "Você não sabe o que eu fiz."
Ele disse: "Eu sei, na verdade. Mas não é culpa sua. Você não tinha suas memórias completas, e eu cheguei tarde demais."
Ela inclinou a cabeça para longe da dele e sussurrou de novo: "Você definitivamente chegou tarde demais. Mas a verdade é que eu tinha sim todas as minhas memórias. E não mudou nada."
Ele deu de ombros. "Olha", disse ele, "já tentei matar uma ex hoje. Podemos deixar a angústia de lado até que o Bolas esteja morto ou nós estejamos?"
Ela sorriu melancolicamente. "Oh, sou uma ex agora?"
Eu sabia!
"Espero que não", disse ele, com ar de pânico.
"Não temos que ser um casal antes de podermos ser ex?"
"Espero que sim", disse ele. "Digo, a primeira parte, não a segunda." Ele parecia tão vulnerável. Me lembrou o Teyo por algum motivo.
Ela disse: "Então amanhã a gente tenta~depois que o Bolas estiver morto ou nós estejamos?"
"Qualquer uma das duas?"
"Qualquer uma das duas."
Ele assentiu. "Fechado. Mas de novo, estou torcendo pela primeira opção, não pela segunda."
"Fechado."
Ela pegou a mão dele, o que fez o Mestre Zarek olhar feio para os dois. O Senhor Beleren sorriu e ofereceu a ele um tchauzinho debochado. Então ele e a rainha saíram de mãos dadas em direção ao que quer que nos aguardava~
Corremos em direção à Cidadela, a maioria das nossas forças gritando gritos de guerra. (Embora eu não. Não tem muito sentido em gritar um grito de guerra que ninguém consegue ouvir.) Minhas facas ainda estavam nas bainhas, já que minha mãe insistira que eu pegasse emprestado um machado de batalha leve dela. Não tenho certeza se foi uma melhoria. "Leve" ou não, ainda era uma arma mais pesada do que eu estava acostumada, e a força do meu braço provavelmente não é o que deveria ser para a filha da Ari Shokta. Mas fez ela se sentir melhor me ver melhor armada. E como ela conseguia me ver e poderia se preocupar, eu obedeci.
Crescendo em poder — e até em estatura — a cada minuto, o dragão ainda pairava no topo de sua pirâmide, as asas abertas, aquela joia estranha flutuando entre seus chifres, ainda coletando Centelhas roubadas voando de Planeswalkers caídos.
Planeswalkers recém-caídos.
Aqueles Planeswalkers não caídos — ou ainda não caídos — estavam lado a lado com guerreiros das guildas, enfrentando a silenciosa Horda Terrível.
Era o caos. Caos puro. Ainda assim, ambos os lados estavam mais equilibrados do que poderíamos esperar. Havia menos Eternos do que antes e — graças ao Senhor Fayden, Senhorita Samut e os demais — não chegavam mais reforços.
O Borborygmos estava limpando a área à frente dele, usando duas grandes maças para estilhaçar os esquisitões à direita e à esquerda. O Senhor Fayden lutava na sombra do ciclope, usando um feitiço que magnetizava a cobertura de lazotep dos Eternos, fazendo os esquisitões colidirem uns nos outros e, bem, grudarem. Em suas tentativas de se libertarem, eles geralmente tropeçavam e caíam, deixando-se abertos ao ataque. O Senhor Fayden então se aproximava e acabava com o amontoado de Eternos com sua espada. Era extremamente eficaz.
A Senhorita Samut corria pelas fileiras Eternas em alta velocidade, decepando cabeças com suas lâminas curvas. Eu estava longe demais para ouvir ela falar, mas sabia que com cada cabeça removida, outro Eterno tinha sido "libertado".
Samut, Esmagadora de Tiranos | Arte de: Aleksi Briclot
O Senhor Vorel cruzava o campo de batalha em um passo constante e determinado. Ele já fora um líder de clã Gruul e agora, lutando de perto, suas origens um tanto bárbaras — que é claro que eu compartilhava — estavam em exibição feroz (embora com um toque Simic), conforme ele usava uma maça biomântica para agarrar os esquisitões pelo que quer que restasse de sua carne e virá-los do avesso. As explosões resultantes de tripas e lazotep eram bem espetaculares.
Vi o Senhor Juba d'Ouro brandindo um machado de duas cabeças contra Eterno após Eterno. E vi o Senhor Karn esmagar a cabeça de um Eterno entre suas duas mãos de metal.
A Rainha Vraska lutava como um demônio, usando sua cutela como uma lâmina cirúrgica e seu olhar de górgona para transformar Eternos que ela não fatiasse em estátuas de pedra. Às vezes, no calor das coisas, ela fazia os dois.
O Senhor Beleren, lutando ao lado dela (eu acho), criava múltiplas ilusões de si mesmo para atrair Eternos para a posição para o Senhor Juba d'Ouro ou Senhorita Ballard ou Senhor Karn massacrarem, enquanto ocasionalmente usava sua telecinesia para fazer o trabalho ele mesmo.
Uma tropa de magos Izzet estava usando lança-chamas nos Eternos — e quase chamuscaram o Senhor Beleren no processo. Ele soltou um aviso psíquico que ressoou alto no meu cérebro.
Eita. Então é assim que se sente.
Nada a ver com o meu negocinho psíquico. Nem saberia como fazer aquilo.
O Senhor Teferi criava bolhas de tempo desacelerado ao redor dos esquisitões, desligando-as apenas quando o Mestre de Lanças Boruvo ou a Ari ou o Gan Shokta estavam em posição para destruí-los.
Um Planeswalker vampiro estava arrancando as cabeças de Eternos com uma força temível, enquanto uma Planeswalker kor moldava espigões de pedra para empalar três ou quatro de cada vez.
Detentores Azorius — normalmente não a minha característica favorita de Ravnica — estavam eliminando ainda mais Eternos sob a liderança da Senhora Lavínia.
Assassinos Dimir e cultistas Rakdos retalharam uma falange inteira de Eternos.
Digo, todo mundo estava lá fora, trabalhando junto. Foi meio histórico, sabe?
Mas em uma luta dessas você nem sempre vence.
Um Eterno agarrou o Senhor Fayden por trás. (Eu estava ocupada demais matando meus próprios esquisitões e longe demais para ajudar, mas vi praticamente tudo.) Ele conseguiu amaldiçoar o lazotep de seu atacante; o crânio magnetizado dele deu um tranco abrupto para trás, quebrando o pescoço, deixando a cabeça pendurada frouxamente atrás dos ombros.
Mas foi pouco, e tarde demais. Por um segundo, quase pareceu que o Senhor Fayden estava desaparecendo de vista, transplanando, chuto eu. Mas a Senhorita Nalaar deve ter tido sucesso em sua missão de reativar o Sol Imortal. Ele voltou ao lugar com os dedos do Eterno ainda cravados em seu armo.
Ele tentou erguer a espada para cortar a mão do Eterno mas aparentemente não tinha mais forças, nem a força para segurar a espada. Ela escorregou pelos dedos dele e caiu no calçamento aos seus pés.
E então ele gritou — alto o suficiente para eu ouvir por cima do barulho, mesmo de onde eu estava lutando. O Eterno tinha alcançado o que quer que fizesse o Dack Fayden ser quem ele era, e o Eterno estava roubando aquilo dele. Conforme a Centelha do Dack era arrancada dele, parecia que o corpo dele estava sendo drenado de todos os fluidos, todo o tecido mole, deixando-o como nada além de pele e ossos.
O Eterno pegou fogo e queimou. A Centelha roubada voou para o ar para alimentar a joia do dragão e o poder do dragão.
E o Senhor Fayden parou de gritar enquanto o cadáver de seu assassino e o seu próprio desabaram no chão juntos.
Eu estava mais determinada do que nunca a proteger as pessoas que amava. Imaginei que meus pais e meu padrinho podiam cuidar de si mesmos muito bem. Digo, eles são guerreiros treinados — e não tendo Centelhas, os Eternos não podiam matá-los com um único toque. Mas o Teyo e a Senhora Kaya eram outra história. Eles eram insanamente vulneráveis.
Quanto à Hekara~ela já era letal o suficiente como uma bruxa das lâminas, então em teoria, ela deveria ser exponencialmente mais poderosa como uma bruxa de sangue. Mas a verdade é que ela sempre foi mais uma artista do que uma guerreira. E além disso, a ressurreição dela tinha claramente mudado ela em relação a mim. E se tivesse mudado ela de outras formas também? E se ela não fosse a mesma durona que costumava ser?
Então foquei em proteger aqueles três.
Surpreendentemente, não precisei me preocupar muito com o Teyo, que tinha de fato se encontrado. Talvez ele não tivesse muita habilidade ofensiva — além de lançar uma ocasional mini-esfera de luz sólida em um oponente — mas ele estava alerta e rápido e pronto com seus escudos para defender todos entre as nossas fileiras que se vissem em apuros.
E então de repente o garoto com pouca habilidade ofensiva descobriu que podia usar seus escudos como um aríete, esmagando os esquisitões para trás e preparando-os para o Borborygmos ou Senhor Vorel ou a Senhorita, hum~Senhorita Lobisomem.
A Senhora Kaya, enquanto isso, já tinha alguma proteção. Flanqueada pelo Chefe Executor Bilagru e outro gigante Orzhov, vi ela cravar suas duas longas adagas fantasmagóricas nos cérebros de um par de esquisitões.
Mas ela estava passando muito tempo em sua forma de fantasma, e aquilo parecia exauri-la. Ela atravessava um Eterno, materializava a mão e enterrava sua lâmina fantasmagórica no crânio dele. Depois tornava a mão fantasma enquanto materializava os pés, conforme se movia para outro das criaturas. Mas a urgência e a ameaça e as miríades de distrações inerentes à batalha tornaram-na imprudente e, aos meus olhos, cada vez mais exausta. Tentei cobrir as costas dela, chegando perto de Eterno após Eterno e acabando com eles com o meu machado emprestado sem nunca ser notada por ninguém além dela.
"Bem", gritei por cima do barulho, "crescer entre os Gruul deve valer alguma coisa! E crescer com a minha condição particular às vezes vale muito mais!"
Passei um bom tempo protegendo a Kaya — mas um tempo bem maior protegendo a Hekara. Meio que segui minha garota na sombra, que de fato estava se segurando bem para uma mulher morta~e nunca realmente precisou saber quantas vezes eliminei um esquisitão querendo atacar ela por trás.
Então talvez ela não consiga me ver, mas eu consigo ver ela e garantir que ela esteja segura. É alguma coisa, sabe? Ou ao menos não é nada.
Me senti um pouco como se estivesse presa em uma das bolhas de tempo do Senhor Teferi. Tudo acontecia tão rápido, e no entanto tudo parecia simultaneamente acontecer em câmera lenta. A batalha estava voando. A batalha parecia eterna. Era difícil acompanhar os minutos passando, que dirá os segundos.
Eu não fazia ideia de há quanto tempo já estávamos lutando quando uma corneta soou, e olhei para cima para ver o grande navio voador Boros Parélio II avançando pelo céu. Anjos desceram de seus conveses. (Incluindo um raro anjo de quatro asas, liderando múltiplos esquadrões, e a Milady Maladola, que estava finalmente tendo a chance de coçar aquela coceira de batalha que ela mencionara.) Cavaleiros dos céus Boros e equenautas Selesnyanos montavam em pégasos, grifos e águias. Magos Izzet montados em esferas de voo de mizzium disparavam em direção à briga ao lado de goblins Izzet em patinetes aéreos e fadas Izzet descendo em pipas-flamejantes. Um único pequeno dragão hipersônico voava lado a lado com um asa-de-drake, um drake de vapor, um drake de safira, um drake de vento e um nadador-dos-céus Simic, que normalmente estaria tentando comer os outros. Mas não hoje.
Juntos eles estavam desbaratando o pouco que restava da cobertura aérea dos Eternos. Foi então que avistei o Senhor Jura montado em um pégaso. Todos o vimos, e todos vibramos. Ele brandia a espada que podia pôr um fim em tudo isso — pondo um fim no Nicol Bolas.
O problema foi que~não fomos os únicos a prestar atenção.
Vi a Senhorita Cabelos-de-Corvo, que parecia estar fazendo mímica dos movimentos de um arqueiro, erguer um arco imaginário, enquanto suas tatuagens — ou o que quer que fossem — brilhavam com luz roxa. Olhei para a Deusa-Eterna Oketra, que seguiu o exemplo com seu arco gigante bem real. A Senhorita Vess e a Oketra miraram em sincronia no Senhor Jura. Gritei um aviso — que absolutamente ninguém ouviu, enquanto juntas, necromante e Deusa-Eterna soltaram uma única flecha do tamanho de um dardo.
Mas a flecha de Oketra não chegou a encontrar um alvo no Senhor Jura. Em vez disso, seus dois metros de comprimento empalaram sua montaria. O pégaso perfurado despencou do céu.
O Senhor Jura, ainda agarrando a Lâmina Negra, despencou junto com a besta por trás da Cidadela e sumiu de vista.
Quando o Senhor Jura caiu, houve uma pausa na batalha. Um hiato que afetou não só o nosso lado, mas o do inimigo também. Por um momento, os Eternos pareceram inexplicavelmente hesitar. Teria a Senhorita Cabelos-de-Corvo também sido pega de surpresa? Não, isso não fazia sentido nenhum. Foi ela quem fez a Oketra disparar a flecha.
O momento não durou muito, claro. A batalha recomeçou em ambos os lados.
E então alguém gritou: "OLHEM! PARA A CIDADELA! OLHEM!"
Vi a fumaça primeiro. Depois as chamas. Depois o imenso demônio alado com a coroa de fogo.
A Hekara bateu palmas, balançou seus sinos e vibrou alto por seu mestre de guilda profano: "Pega ele, Chefe!" Virou-se para o Mestre Zarek, para a Senhora Kaya e para a Rainha Vraska, gritando: "Falei que ele tava dentro. Ele amou este plano!"
O Lorde Rakdos. Deflagrador. Demônio. Mestre de guilda. Parun. Grande como um dragão, com braços e pernas musculosos e proporcionados como um lutador gigante. Dois pares de chifres, um curvando-se para cima, para fora e para trás como o de um boi, o outro curvando-se para baixo e voltando para cima como os de um carneiro descomunal. Olhos amarelos ardentes. Dentes de navalha, travados em um sorriso fixo. Uma barba de espigões de osso emergindo de uma mandíbula larga. Asas de morcego. Cascos fendidos. Pele vermelho-sangue vestida de correntes e crânios. E sua fronte, uma guirlanda de chamas. Aqui estava um mal para se equiparar a muitos outros.
Mas será que ele consegue se equiparar ao Nicol Bolas?
E então avistei o Senhor Jura, montado no topo da cabeça do demônio. Erguendo-se em meio às próprias chamas da coroa do Lorde Rakdos. A aura branca de invulnerabilidade do Senhor Jura devia estar protegendo ele do fogo infernal, mas de onde eu estava, ele parecia estar apenas no centro branco-incandescente de um incêndio infernal.
Ajuda Improvável | Arte de: Viktor Titov
Ele ainda estava com a Lâmina Negra empunhada e pronta, e eu pulei para cima e para baixo, vibrando pelo herói e pelo demônio, conforme este último subiu alto e mergulhou bruscamente em direção à Cidadela e seu mestre. O rugido do Deflagrador ecoou pela praça.
O rugido foi um erro.
Chamou a atenção de Bolas. O dragão virou-se a tempo e lançou um feitiço debilitante que arremessou o Lorde Rakdos para trás. Mas o Senhor Jura saltou sobre o impacto, usando o ímpeto do demônio para mergulhar em direção a Bolas com a Lâmina Negra posicionada para o golpe.
Prendi a respiração conforme o Senhor Jura, com as duas mãos no punho, desceu a espada em direção ao sulco entre os olhos do Dragão Ancião.
Tinham me dito que aquela espada já matara um demônio maior, um Deus-Eterno e até um Dragão Ancião como o Nicol Bolas.
É isso. Isso vai acabar com tudo.
O golpe desceu, o Senhor Jura enterrando a arma com todas as suas forças~
A Lâmina Negra estilhaçou contra a fronte invencível de Nicol Bolas.
E estilhaçando com a Lâmina Negra: as esperanças de cada alma viva em Ravnica.
Enquanto o dragão ria, o Senhor Jura caiu. Aterrizou com força no telhado da Cidadela. Não consegui dizer se estava vivo ou morto.
Eu só me senti entorpecida.
A Senhorita Liliana Vess ficou de pé sobre o corpo caído dele. Eu ouvira — ou bisbilhotara — que a Senhorita Vess e o Senhor Jura tinham sido amigos até muito recentemente. Fiquei imaginando o que ela estaria pensando agora. Mas estava longe demais para eu ler seus pensamentos ou emoções, quanto mais a sua expressão.
Mas não estava longe demais para ver ela dar alguns passos à frente enquanto mana sombrio começava a rodopiar ao redor dela. E conforme rodopiava, os Eternos — mais uma vez — pararam de lutar conosco. Em vez disso, ficaram em posição de sentido por cinco segundos inteiros~antes de todos os esquisitões e os dois Deuses-Esquisitões darem meia-volta para marchar contra o Nicol Bolas.
Soube então que a Senhorita Cabelos-de-Corvo tinha mudado de lado. Sem jeito de saber por que — tanto quanto eu não entendia por que ela estivera lutando pelo dragão no início. Mas a Senhorita Vess controlava os Eternos, e os Eternos tinham claramente se voltado contra seu mestre, ao comando de sua senhora.
Sem nada mais para lutar, eu meio que só fiquei ali parada feito boba. Assistindo~
Achei que talvez tivesse visto a Senhorita Vess gritar algo para o Bolas, mas não consegui distinguir nenhuma palavra. Fosse o que fosse que ela disse, consegui sentir a confusão atônita do dragão flutuar pela minha consciência. Confusão seguida de desprezo.
Estudei a Senhorita Cabelos-de-Corvo. Algo mais estava acontecendo com ela, e a princípio não consegui entender bem o que era. Então me pareceu que ela estava brilhando por dentro. Brilhando~e se dissolvendo.
Sim, era isso. Tinha menos dela; partículas pretas e faíscas roxas estavam sendo levadas pelo vento. Eu estava assistindo ela se esfarelar, se desintegrar, um pedacinho de cada vez.
Isso não parece ser um jeito agradável de ir embora~
Oketra e Bontu — os dois Deuses-Eternos sobreviventes — ainda tentavam chegar no Bolas, mas o dragão irradiava energia mágica pura e não adulterada que mantinha ambos à distância.
Olhei de volta para a Senhorita Cabelos-de-Corvo, que já tinha menos cabelo ponto final: ele estava queimando do couro cabeludo dela em tufos.
E então o Senhor Jura estava lá, atrás dela, colocando uma mão no ombro da Senhorita Vess. Ele brilhava em branco, e aquele brilho branco começou a se estender para ela, sobre ela, ao redor dela.
Conforme a Senhorita Vess brilhava com a luz branca pura dele, a forma dela começou a se recompor. O longo cabelo preto fluiu pelas costas dela de novo. Ela estava ficando inteira.
Mas, mas~
Em troca, a morte negra dela estava sendo transferida para ele. Agora, era ele quem soltava faíscas e se esfarelava, como ela estivera fazendo segundos atrás. Ele ergueu a cabeça e, tenho quase certeza que ouvi ele~uivar, antes de explodir em chamas negras e se desintegrar inteiramente diante dos olhos de todos. Tudo o que restou foi um pedaço de armadura que caiu aos pés da Senhorita Cabelos-de-Corvo. Armadura e cinzas, estas últimas rapidamente sopradas pelo vento.
O Senhor Jura morreu. Mas, mas~ele é quem devia ser o herói que salva a todos nós, não é?
Todos olhamos para o Bolas. Mesmo do nível do chão, ele parecia presunçoso.
Desta vez ouvi distintamente a Senhorita Cabelos-de-Corvo gritar em fúria enquanto fazia um gesto de empurrar com ambos os braços. Oketra e Bontu avançaram em resposta, aproximando-se do Bolas por dois lados, enquanto lutavam contra a onda de poder que o Dragão Ancião desencadeava. Cada Deus-Eterno dava um único passo em direção ao Bolas — antes que o poder dele empurrasse ambos dois passos para trás.
Eu achei que estávamos todos condenados.
Então de algum lugar, o Senhor Juba d'Ouro gritou: "Olhem!"
A lança de dois dentes de Hazoret estava atravessada no peito do dragão, sangue e vísceras pingando claramente de cada ponta. O sangue e as vísceras dele. De alguma forma, aquilo não fora suficiente para matá-lo, não depois de todo o poder, todas as Centelhas que ele tinha absorvido, mas era óbvio que o ferimento era significativo, e provava que ele ainda podia ser ferido. Então por um segundo, senti algo como esperança de novo, sabe?
O Dragão Ancião olhou para trás. Pairando atrás dele e segurando a lança estava o Mestre Niv-Mizzet, que enterrou a lança mais fundo nas costas de Bolas; o gemido dele ecoou pela praça.
Com um golpe de asa, o Dragão Ancião enviou o ressuscitado Mente de Fogo voando. Ele colidiu no chão a quilômetros de distância.
Adeus, esperança~
O tempo parou. E então tarde demais o dragão percebeu que tinha esquecido da Senhorita Vess, tinha dado a ela a oportunidade de atacar com sua própria arma de dois dentes.
Seus dois Deuses-Eternos avançaram para a matança e estavam agora bem em cima de Bolas. O dragão conseguiu obliterar a Oketra.
Mas talvez enfraquecido pelo esforço — ou pela lança ainda cravada no peito — ele foi lento demais para parar a Bontu, que mordeu o pulso de seu antigo mestre.
De uma vez e automaticamente, a Bontu começou a colher todas as Centelhas que o Feitiço Ancião concedera ao dragão. Todas elas, todas de uma vez. A Bontu absorveu essas Centelhas mas não conseguiu contê-las. Ela se rompeu em estilhaços, explodindo em uma luz tão brilhante que tive que apertar bem os olhos.
Triunfo de Liliana | Arte de: Kieran Yanner
Quando os abri de novo, a primeira coisa que vi foi o exército de Eternos marchando pelos degraus da pirâmide da Cidadela em direção ao dragão. E logo atrás deles um segundo exército de Ravnicanos e Planeswalkers. Tive que correr para alcançar.
Um vórtice de Centelhas roubadas rodopiava acima da cabeça de Bolas. E então, elas simplesmente evaporaram, cada uma das Centelhas dissipando-se no nada.
Eu estava só no terceiro degrau mais ou menos àquela altura, e assisti conforme o Bolas começou a se dissolver, tal como o Senhor Jura se dissolvera momentos antes. E também como o Senhor Jura, o dragão uivou enquanto se desintegrava, átomo por átomo, as partículas sopradas com o vento.
Tinha acabado. O Bolas simplesmente se fora. Apenas a joia de entre seus chifres restara. Vi ela cair no telhado da Cidadela, quicar um par de vezes e parar não muito longe dos pés da Senhorita Cabelos-de-Corvo.
As nuvens de tempestade não naturais se abriram e dispersaram, dando lugar à luz do sol do fim de tarde.
Todos ficamos parados, sem saber se podíamos nos permitir acreditar — se podíamos confiar em acreditar — que o pesadelo tinha acabado.
Então, espontaneamente, um brado massivo subiu dos combatentes na praça, eu incluída. Serpentinas espirais de magia verde celebratória voaram pelos ares. Todo tipo de gente — homens e mulheres adultos de múltiplas espécies — estavam escalando as ruínas da estátua de Bolas, como se fosse um parquinho para crianças. Crianças de verdade, surgindo do nada, estavam escalando a caReview caída e dormente de Vitu-Ghazi (apesar das tentativas desesperadas do meu padrinho de espantá-las).
Celebração em Todo o Plano | Arte de: Wisnu Tan
A Senhorita Vess estava sozinha no topo da Cidadela agora, uma verdadeira muralha de Eternos imóveis e desativados separando ela dos Ravnicanos e Planeswalkers nos degraus da pirâmide. Então a multidão despertou de seu estupor coletivo e, liderada pelo Borborygmos e pelo Senhor Minotauro-Ranzinza, ocupou-se em retalhar a Horda Terrível por trás. Picando eles em pedacinhos. Pedacinhos pequenos. Os esquisitões não faziam tentativa nenhuma de se defender conforme os esmagávamos e picávamos em pedaços. (Me vi fazendo isso também.) Mantive um olho na Senhorita Cabelos-de-Corvo. Eu sabia que ela podia controlar os Eternos, e queria um aviso prévio se ela decidisse usá-los de novo — mesmo que fosse só para se proteger.
Ela se ajoelhou. Não consegui ver o que estava fazendo. Depois se levantou de novo e, em uma nuvem de preto, transplanou para longe.
Eu não conseguia entender aquilo. Tinha tanta certeza de que o Sol Imortal tinha sido reativado. Não fora por isso que o Senhor Fayden não conseguira escapar de seu destino? Mas suponho que, com o dragão derrotado, ele deve ter sido desligado tudo de novo.
Um Planeswalker de branco partiu a seguir. Vi a Senhorita Yanling e o Senhor Yanggu partirem com o cachorro de três caudas (que pareceu virar pedra pouco antes de os três sumirem). Outros também, cujos nomes eu não sabia.
Ouvi a Senhorita Samut gritar: "Este não é o caminho! Estas são as minhas pessoas. Elas devem ser destruídas, eu sei. Mas não assim. Concedam a elas alguma dignidade."
"É para isso que estamos aqui", disse a Senhorita Ballard e com um aceno para a Senhorita Nalaar, elas começaram. Sob os olhares atentos do minotauro, do ciclope e da filha de Amonkhet, as duas piromantes moveram-se pelo que restava da inerte Horda Terrível e meticulosamente queimaram cada último deles — cada último fragmento — até as cinzas.
Não fiquei para ver tudo. Passei alguns minutos procurando meus pais. Encontrei eles juntos, em um abraço meio constrangedor. Chamei a atenção da Ari. Ela me apontou para o Gan Shokta. Todos nos abraçamos. Entreguei o machado dela para a mãe. Depois fui procurar meus amigos.
Àquela altura, o sol estava se pondo atrás das torres de Ravnica, as que ainda estavam de pé, enfim. O crepúsculo estava caindo. E não a noite artificial do Feitiço Ancião, mas a coisa real. Crepúsculo. Entardecer. Com a noite a seguir. E outra manhã e dia depois disso.
Tínhamos sobrevivido.
Ou a maioria de nós~
Ao meu redor, as pessoas celebravam. E as que não celebravam carregavam os feridos e os moribundos.
A Hekara estava sentada em um pedaço de alvenaria rachada, ocupada na busca solitária de celebrar nossa vitória monumental com dois fantoches de mão estranhamente realistas: versões dela mesma e do Mestre Zarek. Era um show maravilhoso sendo oferecido para uma plateia composta inteiramente por ela mesma e sua Rat.
"Você é a minha Rat."
"Sou a sua Rat."
Claro, ela não estava particularmente ciente da minha presença. Mas eu ainda assim gostei muito da apresentação. Ela fazia as vozes para as duas mãos.
"Vencemos o dragão malvado, né, Hekara?" o Fantoche Zarek disse em uma imitação bem-sucedida, embora um pouco aguda, do mestre de guilda Izzet.
"Claro que vencemos", respondeu o fantoche Hekara, em um barítono estranhamente afetado que não soava nada como a Hekara, o que era francamente hilário.
"E tudo o que custou foi você morrer horrivelmente."
"Certo. Mas só uma vez. Não me importo de morrer uma vez. Não com muita frequência. Sabe, por uma boa causa. Ou pelo valor do entretenimento."
Eu poderia ter assistido esse show por horas, mas o Teyo interrompeu. Não sei há quanto tempo ele estava parado atrás de mim, mas ele se aproximou da Hekara e disse: "Emissária, você se lembra da sua amiga Rat? Araithia?"
A Hekara disse: "Claro que lembro da Rat! Eu amo a Rat! Onde ela está?"
Isso me deixou tão feliz que achei que pudesse chorar.
O Teyo me apontou para ela. Chuto que pensei que ela ia tentar focar em mim e então talvez aprender a me ver de novo.
Mas ela meramente pareceu confusa. Então o Teyo pegou a mão da Hekara fantocheada de Hekara na dele, e tentou guiar, levar a Hekara até mim.
Ela hesitou, resistiu. Parecia nervosa e desconfortável de um jeito que eu nunca ouvira dela antes enquanto dizia: "Sabe, não consigo bem lembrar como é a cara da Rat. É meio estranho, né?"
O Teyo não soube o que dizer. Mas isso não era novo para mim. Até as pessoas que conseguiam me ver tendiam a me esquecer se eu ficasse longe tempo demais. Até a minha mãe — embora nunca admitisse isso — começava a esquecer que teve uma filha, se eu ficasse longe tempo demais. Chuto que não esperava isso tão cedo da Hekara. Mas não é como se viesse como uma surpresa, sabe?
Então fiquei grata quando a conversa foi interrompida pelo som coriáceo de asas e o fedor de enxofre. O próprio Lorde Rakdos estava descendo para encontrar sua Emissária.
"VENHA, MULHER", ele disse em sua voz sepulcral estrondosa, "RAVNICA É NOSSA DE NOVO. A LONGA BATALHA ABATEU O POVO, E O CIRCO MACABRO DEVE APRESENTAR-SE PARA A MULTIDÃO E ALEGRAR TODOS OS CORAÇÕES. TEMOS ARTISTAS PARA REUNIR, NÚMEROS PARA PREPARAR E UMA PLATEIA PRONTA ANSIANDO POR ESQUECER OS HORRORES DO DIA — QUEIMANDO. SANGRANDO E QUEIMANDO."
"Ah, que bom", a Hekara disse, enquanto se deixava ser levada na mão do demônio como um fantoche da Hekara em tamanho real pronto para dublar as palavras de seu mestre. Eles voaram juntos, com a Hekara guinchando: "Queima! Sangra! Queima!"
Tudo bem, sim, ela não dedicou nem um pensamento a mim.
Dói, tá legal? Dói. É isso que você quer ouvir?
Mas então olhei para cima e vi o Teyo parecendo tão aflito. Por causa dele, tentei fazer uma cara boa. Sorri, dei de ombros e disse: "Eu perdi ela." Mas não consegui manter o sorriso. Meus ombros caíram. Minha cabeça baixou. "Nunca perdi ninguém antes. Muita gente eu nunca tive. Mas ela é a primeira que conseguia me ver que eu perdi."
Como se para completar o insulto, a Senhorita Rai escolheu aquele momento para quase trombar comigo; tive que dar um passo lateral para fora do caminho dela enquanto ela passava.
O Teyo pareceu mais aflito ainda, se isso fosse possível. Ele avistou a Senhora Kaya se aproximando de nós e disse: "Não esquece, você ainda tem nós dois."
Assenti. Queria fazer ele se sentir melhor, mas só não consegui. Disse: "Exceto que vocês dois são Planeswalkers. Vão embora de Ravnica eventualmente."
Me arrependi instantaneamente de ter dito.
Como é que ajuda deixar os dois se sentindo mal? Quem é que isso ajuda? A mim não, com certeza. Prefiro meus amigos felizes, sabe?
Começamos a caminhar, passando pelos foliões e pelos enlutados. A Guerra da Centelha tinha acabado. Tudo o que restava era juntar os cacos e encontrar um jeito de recomeçar.
Eventualmente, nos juntamos a um grupo de Planeswalkers e Ravnicanos no meio de um debate sobre o que fazer com o Sol Imortal.
"Destruam essa droga", disse o Senhor Minotauro-Ranzinza.
A Senhorita Rai protestou: "Mas é uma peça incrível de—"
"É uma ratoeira incrível para Planeswalkers. Uma em que já fui pego duas vezes. E deixem-me ser claro, não tenho intenção nenhuma de ser pego por ela de novo."
A Rainha Vraska, sua mão direita entrelaçada na esquerda do Senhor Beleren, disse: "Destruir pode ser mais fácil de dizer do que de fazer. É feito de magias extremamente poderosas, reforçadas pela própria Centelha de Azor."
O Senhor Beleren esfregou seu queixo por fazer. "Além disso, o troço pode ser útil algum dia para caçar e prender o Tezzeret."
"Ou o Dovin Baan", a Senhorita Nalaar acrescentou.
"Ou o Ob Nixilis", o Senhor Karn se voluntariou.
"Ou", disse a Senhorita do Arco Longo, "a Liliana Vess."
Tanto o Senhor Beleren quanto a Senhorita Nalaar se encolheram quando o nome da Senhorita Cabelos-de-Corvo foi mencionado. A Rainha Vraska olhou para o Senhor Beleren com certa preocupação. A Senhorita Ballard e o Senhor Teferi trocaram olhares. Todos eles claramente tinham uma história complicada com a necromante. Tirou minha cabeça dos meus problemas, imaginar que história seria essa~ou o que viria disso, no fim.
Nada tinha sido decidido de verdade quando o restante das Sentinelas — Senhorita Revane e Senhor Juba d'Ouro — chegaram logo atrás da Senhora Aurélia, que carregava a couraça chamuscada do Senhor Jura como uma relíquia sagrada.
A Senhorita Nalaar disse: "Devíamos enterrar isso em Theros. Acho que o Gids ia gostar disso."
"O que ele gostaria", o Senhor Juba d'Ouro disse, "é saber que não acabou."
"Não acabou?" o Teyo perguntou, horrorizado.
O Senhor Juba d'Ouro deu um risinho e colocou uma pata tranquilizadora no ombro do Teyo. "Eu acredito que a ameaça do Nicol Bolas passou. Mas não podemos fingir que o Bolas será a última ameaça que o Multiverso enfrentará. Se realmente desejamos honrar o nosso amigo Gideon, precisamos confirmar que da próxima vez que uma ameaça surgir, as Sentinelas estarão lá."
A Senhorita Nalaar olhou para a demolida Embaixada do Pacto das Guildas e disse: "Perdemos nossa sede."
"Não precisamos de uma sede. Só precisamos renovar nossos Juramentos."
"Ajani, todos nós renovamos hoje cedo." O Senhor Beleren suspirou, parecendo um pouco exausto — ou talvez exasperado. "Não acha que uma vez por dia é o bastante?"
O Senhor Juba d'Ouro fechou a cara. A pata no ombro do Teyo involuntariamente apertou o aperto. O leonin não chegou a tirar sangue, mas o Teyo fez uma careta.
A Senhora Kaya notou e delicadamente removeu a pata, deixando o Teyo soltar um pequeno suspiro de alívio.
Não consegui evitar dar um risinho. O Teyo e eu trocamos sorrisos.
Ele tem um sorriso muito bonito~
A Senhora Kaya falou: "Talvez~talvez eu pudesse fazer o Juramento."
A Senhorita Nalaar olhou para ela esperançosa e disse: "Sério?"
O Mestre Zarek olhou para ela duvidoso e repetiu: "Sério?"
"Não sou uma pessoa perfeita~" Kaya começou.
"Confie em mim, nenhum de nós é", o Senhor Beleren interveio melancolicamente.
A Rainha Vraska bufou provocativa.
Mas a Senhora Kaya basicamente ignorou os dois. "Já fui uma assassina e uma ladra. Tive meu próprio código moral, mas o primeiro princípio dele era sempre: 'Cuida do seu próprio rabo'. Tenho a habilidade de passar pela vida como um fantasma, de permitir que nada me toque. Essa é a verdade literal dos meus poderes, mas de alguma forma se tornou a minha verdade emocional também. Mas o meu tempo em Ravnica como assassina, ladra, mestre de guilda relutante e talvez guerreira ainda mais relutante não me deixou indiferente. Lutar ao lado de vocês foi uma honra. A coisa mais assustadora e no entanto a melhor que já fiz com a minha vida um tanto bizarra. O que as Sentinelas fizeram aqui hoje — " Ela olhou para a armadura nas mãos da Senhora Aurélia. " — o que vocês sacrificaram aqui hoje~bem~vai soar cafona, mas foi verdadeiramente inspirador. Se vocês me aceitarem, eu gostaria de fazer parte disso. Gostaria que todos soubessem que se houver problemas, podem me convocar, e eu estarei ao lado de vocês."
"Nós gostaríamos disso", a Senhorita Nalaar disse.
"Sim, menina", disse o Senhor Juba d'Ouro, abrindo seu sorriso leonin.
A Senhorita Revane, o Senhor Teferi e o Senhor Beleren todos sorriram e assentiram com a sua aprovação.
A Senhora Kaya respirou fundo e ergueu a mão direita. Talvez como um símbolo do que tinha a oferecer, ela tornou aquela mão espectral, de modo que ficou transparente, fluindo com uma luz violeta suave. Ela disse: "Atravessei o Multiverso, ajudando os mortos a, hum~seguirem em frente, a serviço dos vivos. Mas o que presenciei aqui em Ravnica nestes últimos meses — nestas últimas horas — mudou tudo o que eu achava que sabia. Nunca mais. Pelos vivos e pelos mortos, eu manterei a sentinela." Ela se virou e sorriu para o Teyo e para mim.
Juramento de Kaya | Arte de: Wesley Burt
Consegui sentir o Teyo se perguntando se ele devia fazer o Juramento, se algum dos outros acharia ele digno. Eu estava prestes a dizer que eles deviam se sentir honrados de incluir ele.
Mas fomos ambos distraídos pela chegada do Mestre Niv-Mizzet, que pousou de um jeito meio exibicionista e sorriu. "Está sem emprego, Beleren. O Mente de Fogo é o novo Pacto das Guildas Vivo. Como sempre deveria ter sido."
O Senhor Beleren deu um risinho: "E no entanto de alguma forma não pareço lamentar abrir mão dessa responsabilidade em particular."
Ignorando o dragão completamente, a Senhorita Revane inclinou a cabeça sobre uma das muitas fendas no calçamento da praça. Fechou os olhos e respirou fundo. De entre os paralelepípedos quebrados na batalha, uma semente brotou e cresceu rapidamente em uma planta com grandes folhas verdes.
Ela assentiu para a Senhorita Nalaar, que de alguma forma instintivamente soube o que a elfa queria que fizesse. A piromante cuidadosamente colheu três das folhas maiores da planta.
Então todos assistimos enquanto as duas mulheres e a Senhora Aurélia amorosamente, ternamente, envolveram a armadura do Senhor Jura nas folhas.
A Aurélia entregou a armadura para a Senhorita Nalaar, que — flanqueada pelo Senhor Beleren e pela Senhorita Revane — liderou uma procissão solene em direção à multidão que celebrava (e lamentava). Uma desolada Senhora Aurélia observou-os partir mas não seguiu — enquanto a maioria dos outros Planeswalkers seguiu.
O Mestre Zarek tocou a Senhora Kaya no ombro e gesticulou para ela esperar. O Senhor Vrona fez o mesmo com a Rainha Vraska, que assentiu e gritou para o Senhor Beleren que o alcançaria depois.
O Teyo ficou ali confuso, e eu estava curiosa o suficiente para esperar ao lado dele. As Senhoras Lavínia e Aurélia, a Senhorita Rai e o dragão esperaram também. Logo se juntaram a nós o Senhor Vorel, a Dama Exava, o Gan Shokta e o Boruvo. (Este último sorriu para mim, embora meu pai, como sempre, não estivesse ciente da minha presença.) Assim que a procissão das Sentinelas já estava fora de alcance de audição, a Senhorita Rai morfou no Mestre Lazav, o que me fez imaginar onde a Senhorita Rai de verdade estaria naquele momento.
O Mente de Fogo falou primeiro: "Como o novo Pacto das Guildas Vivo, consultei representantes de cada guilda."
A Senhora Kaya ergueu uma sobrancelha para o Senhor Vrona, que assentiu.
O dragão continuou: "Concordamos que certos indivíduos, aqueles que colaboraram com o Nicol Bolas, devem ser punidos."
A Rainha Vraska eriçou-se, seus olhos brilhando com magia: "Não serei julgada por tipos como você."
"Você foi julgada", a Senhora Lavínia disse, severamente mas sem tom de ameaça. "E suas ações neste dia mitigaram esse julgamento."
O Mestre Zarek disse: "Você não é a única que o Bolas enganou e usou. Kaya e eu compartilhamos dessa culpa em particular. Podemos ter percebido o nosso erro antes de você, mas não temos desejo nenhum de discutir com uma aliada. Não com uma aliada disposta a provar sua lealdade a Ravnica e à sua própria guilda."
A Rainha Vraska não pareceu menos suspeita — nem menos em guarda — mas seus olhos pararam de brilhar. "Estou ouvindo."
A Senhora Aurélia disse: "Centenas, talvez milhares de seres sencientes morreram em Ravnica hoje."
"Com danos materiais incalculáveis", acrescentou o Senhor Vrona.
Ignorando-o, a Senhora Aurélia prosseguiu: "Tais atos de terror não devem ficar sem punição. Há três que fizeram tudo em seu poder para auxiliar e ser cúmplices do dragão: Tezzeret, Dovin Baan e Liliana Vess."
O Teyo disse: "Mas a Liliana não—"
O Senhor Vorel interrompeu ele: "A Vess mudou de lado tarde demais. Só depois de ser a causa direta da maior parte da carnificina."
"O que exatamente vocês estão pedindo?" a Senhora Kaya disse, infeliz.
"Todos os três são Planeswalkers", o Mestre Lazav declarou. "Eles estão fora do nosso alcance. Mas não do seu."
O Mente de Fogo concluiu o ponto: "O Ral Zarek já concordou em caçar o Tezzeret. Vraska, como penitência por pecados passados, encarregamos você do Dovin Baan. E Kaya, as dez guildas desejam contratar você para assassinar a Liliana Vess."
Acho que talvez a Guerra da Centelha não esteja tão "acabada" quanto eu tinha imaginado, sabe?